Uma tarde quente de verão

25 25UTC janeiro 25UTC 2010

Januário colhia flores no jardim. Maria regava as plantas no quintal. Eleonora ouvia um disco de vinil. Marcos fumava um cigarro, tranquilamente, na varanda. Geraldo estudava xadrez com seu amigo Onório, na sala de estar. Fátima e Giovana tomavam sorvete na praça da igreja, cantarolando marchinhas de carnaval. Rafael, Renato e Godofredo lembravam das travessuras de infância, riam, gargalhavam, um deles chegou a chorar de tanto riso.

Já eu… bom, eu enfrentava o banco dos réus.

O promotor falava firme, de um jeito convicto e convincente. Os membros do júri o assistiam com aprovação. Meu advogado, todo molhado de suor, nem se mexia. Acho que não estava muito aí, pra falar a verdade. Quem o pagava era o Estado, não eu. Não havia motivos para que gastasse energia em me defender.

Meu corpo podia estar naquele tribunal, mas eu mesmo estava bem longe. Aquele promotor falando me cansava. Preferi pensar em outras coisas. Como em qual seria a história da loira de lenço sentada no banco do júri. Certamente teria um namorado rico que a assistia dos assentos reservados ao público. Olhei para trás para ver se o encontrava. Contei dois velhos, uma velha, um gordo, e uma mulher de cara amarrada e camisa amarela. Cinco pessoas se interessaram pela sorte de um homicida e nenhuma delas era meu parente. Na verdade, identifiquei no gordo o rosto de Pepe, meu colega de esgrima de muitos anos atrás, ainda na adolescência. Naturalmente, ele deve ter abandonado o esporte, a julgar pelo seu físico. Penso que hoje deva ser dono de algum bar, ele sempre dizia que pretendia abrir um bar quando crescesse. Ou talvez fosse mecânico, lembro também que iria começar um curso profissionalizante nessa área.  Depois dos 15 anos, quando saí da esgrima, nunca mais nos vimos.  O que é bem estranho, já que ele morava a apenas um quarteirão da minha casa.

Ergui a mão para o Pepe, mas ele nem se moveu. 30 segundos depois, se levantou e mudou de lugar. Sentou bem atrás da mulher de cara amarrada, de modo que saiu do meu campo de visão. Acho que eu havia me confundido e aquele gordo não era o Pepe. Deve ter se assustado com um homicida lhe acenando com a mão e foi buscar refúgio na silhueta de uma mulher. Dei dois bruscos suspiros e me voltei para o promotor, que continuava falando. Agora ele apontava para mim, gesticulando os braços e alternando o volume da voz, ora mais alta, ora mais baixa. Nem consegui prestar atenção direito do que se tratava toda aquela verborragia. Estava tão cansado que tudo que eu desejava era sair daquele tribunal o mais cedo possível. Meu advogado seguia completamente inerte, coçando as cutículas com as unhas. E eu não tinha o que fazer. Voltei meu olhar pra loira, que por um instante creio que também olhou para mim. Senti no brilho daqueles olhos uma sensação de tristeza. Era bonita, atraente, bem vestida, porém triste. Provavelmente havia se inscrito como candidata a júri para fugir um pouco da rotina sórdida que levava. Não havia namorado rico, no máximo, um marido brutamonte que a tratava como um trapo. Mas mirei seus anelares e estavam livres de alianças. Impossível uma loira como aquela ser solteira.

Quis perguntar ao meu advogado o que ele achava, se ela era solteira ou não. Mas ele continuava coçando as benditas cutículas. O promotor seguia no seu sermão e ele mal dava bola. Certamente pensava em outra coisa. De súbito, terminou com as cutículas e passou as mãos para trás da cabeça, entrecruzando os dedos. Foi nesse instante que me olhou e disse:

- É, acho que você está ferrado.

O promotor terminou sua fala, meu advogado não quis acrescentar mais nada e eu fui condenado a 30 anos de regime fechado. A decisão fora unânime, ou seja, até a loira me achou culpado.

Vadia.


A sorte não bateu na minha porta – outra vez!

1 01UTC janeiro 01UTC 2010

Desgraça! disgrama!, lasquera!

Infindáveis foram os impropérios proferidos por mim, um senhor tão polido e educado, quando soube que aqueles milhões não tinham o destino da minha conta bancária. Me senti traído, traído por mim mesmo, traído pela minha voz interna, que parecia tão sincera e segura de si enquanto ressoava repetidamente “você vai ganhar, você vai ganhar” no momento em que eu abandonava aquela lotérica abarrotada de esperançosos.

É claro que não era a primeira vez. Essa voz já me acompanha há um certo tempo, desde o dia em que decidi que viraria milionário sem escravizar negros mediante o salário mínimo, muito menos vendendo minha força de trabalho. Acontece que dessa vez ela tinha um quê de existir mesmo, tinha consistência e entonação, como a voz daquelas videntes que nossas sobrinhas bestas vão de vez em quando pra saber sobre a sorte no amor. Parecia também uma voz mais aveludada.

Logo no 07, ela apareceu de sopetão, centralizando todas as minhas atenções de ser pensante. Ali, já sabia que em poucos dias estaria milionário. No 09, comecei a pensar onde investiria toda aquela bolada. De início, realizaria os meus sonhos de consumo mais imediatos: uma bateria, um teclado, uma flauta transversal, uma máquina fotográfica, uma trenzinho elétrico, uma camisa do Ronaldo e um curso de equitação. Finalmente compraria um cavalo! Talvez também adquirisse um sítio nas montanhas.

No 11, já pensei nos entes que ajudaria. Daria uma mansão pra minha empregada, a Jeovânia. Pra minha mãe, a Maria Helena (já repararam nesse costume nosso de nomear os pobres com nomes supostamente ridículos?), daria um quadro dos beatles, 3×4, pra tomar a parede inteira de sua suíte no asilo em que vive, na Ilha de Caras. Para meu pai, compraria uma fantasia do batman. Ao irmão, um ingresso de camarote para a final da Copa dos Campeões, e à sogra, uma passagem só de ida para o Iraque.

No 13, a megalomania ficou maior. Pensei: por quê não financiar uma organização pra tomar o poder no país?! Daria dinheiro para qualquer movimentinho social de coloração mais vermelha, tipo MST, PSTU, Liga dos Camponeses Pobres ou uma outra que vi dia desse, a Pão e Flores. Derrubariam a burguesia do poder, instalariam a ditadura do proletariado rumo ao socialismo libertário! Estaríamos livres da amarra do capitalismo, dos capitalistas, das jornadas exaustivas de trabalho e seria o fim da exploração do homem pelo homem!! Todos viveríamos felizes, saudáveis, e com muito pão de ló em nossa mesa de café, tudo graças a mim!!!

Quando rabisquei o 31, achei por bem que…não, melhor deixar como está. Esses comunistas poderiam querer roubar minha bateria ou cancelar meu curso de equitação. Lembrei então que poderia ajudar pessoas de outra forma, via instituições de caridade. Doaria milhões para projetos sociais que dessem sopa de feijão para mendigos, que pagassem palhaços para alegrar crianças com câncer em estado terminal ou que ensinassem adultos analfabetos a escrever o próprio nome. Ta aí, já era, poderia dormir tranquilo, se bobear apareceria até no Luciano Huck vestindo a manta dos homens bons.

No derradeiro 49, um sopro de individualismo bateu nas minhas têmporas: foda-se todos, essa grana vai ficar é só pra mim! Pra mim! Só pra mim!

Foda-se a mansão da Jeovânia, a fantasia do batman e as crianças moribundas. Usarei cada centavo dos milhões que ganharei única e exclusivamente para meu bel-prazer. Se amigos e familiares me abandonarem, acusando egoísmo, foda-se!, eu comprarei novos. Ao invés de uma bateria, comprarei a Orquestra Sinfônica de Berlim! No lugar de um trenzinho elétrico, comprarei o Expresso do Oriente! E esqueça a camisa do Ronaldo, agora comprarei o seu passe! E ainda dormirei com sua mulher!!

Mas foi aí que hoje, sentado no sofá da sala, era um poquinho depois do almoço, o apresentador do telejornal, sorridente como sempre, me passa a informação: 10 – 27 – 40 – 46 – 49 – 58.

Desliguei então a TV, pus a coleira na cachorra e fui passear pela rua. Fazia uma bela tarde de sol.

Quadro 3×4 que daria à minha mãe

Email público de um amigo de Orlândia

2 02UTC dezembro 02UTC 2009
Olá galera do fundão.

Vou pular a parte das desculpas por não ter respondido antes, acho que não sou tão polido quando o menino Jonatas. Mesmo assim é entusiasmante poder acompanhar a respostas de ícones tão distantes e figuras sem quebrar a aura.

Somado a isso, ainda não posso ir muito adiante com a minha decisão, isso mesmo, não me censurem nem tenham nojo, mas é que ainda espero as decisões da base central, na minha cidade, nem que seja para rechaçá-las com palavras duras e discursos sobre a juventude livre.

Mas se é que posso, gostaria de dizer que irei, reúno esforços na intenção, ao menos.

Quanto a reservar lugar no camping, acho que não poderei fazer agora, tampouco pude acompanhar os outros e-mails sobre a discussão fundiária do oásis. Talvez seja possível ainda achar alguma quina mal empossada na “Ilhota”, uma grota ou um outro casarão mal assombrado onde se possa dormir com barracas, como no caso dos iniciantes que resolveram ir até “Paraty colheita maldita” ano passado. Nunca é tarde para acreditar nas aventuras da sessão da tarde.

Felizmente, sei que tudo acaba em louros e vinhos baratos, e os poetas que se virem para eternizar o épico.
Conseguiram fisgar até mesmo o rapaiz na Bahia, depois do sertão; o programador bauruense também querendo “Sargar a bunda”. E que venha o ano novo se lascando com os preceitos Faustosilvinianos do dia, minha gratidão por compartilharem do desdenho.

Por último, não consegui evitar o alarme com a menção do Pingú sobre a pequena trilha até chegar à praia, inconscientemente veio-me um Flash do ano passado, cortando direto para a cena onde Turollo em plena mata Atlântica lançava a sentença homérica após horas caminhando com quilos de leite em pó e barrinhas de cereais às costas: “eu  não volto por essa trilha nem com a puta que p… aaaarrrrrrrrr!!”. Os braços em riste e o olhar sanguíneo fixando no ódio infinito.

Ele que me desculpe o aumento da ficção, mas foi.

Então, deixo a dica de comprarmos luvinhas e calçados de cravos para a escalada, do contrário padeçam!

Continuarei tragando os e-mails e aviso quando souber melhor sobre as datas.

Melhor se pudermos também falar algumas asneiras.

Mesmo assim, valeu pelo convite.

Desafiador encaminhar um e-mail a todos.

Abraços,
dois abraços

Gabriel
(gaba é a mãe)

Email aberto a um amigo do Rio

26 26UTC novembro 26UTC 2009

Cabra, cabra, cabra, como vai? Po, e não se esqueça que meu nome não é Johnni. É Johnny, com ipsilon.

Eis que domingo me encontro curtindo uma seresta, ladeado por meu irmão e meu pai, quando surge um senhor negro no alto da praça, às margens da rua 2, rumando para onde a música emanava. Dois carinhas o escoltavam de perto: um, segurava um cabo de microfone, no melhor estilo assistente de som, e o outro, uma camera filmadora. Devia ser algum tipo de documentário sendo produzido ali. O senhor continuou a passada na diagonal, em direção às mesas onde estava a plateia, passou pelo coreto, e logo começou os vários apertos de mão e abraços que daria e receberia nos próximos minutos, qual uma pessoa que revê amigos de muito tempo. E os dois carinhas sempre no encalço, captando cada momento daquilo tudo.

Depois de cumprimentar mais de uma dezena de senhores e senhoras grisalhos, o tal senhor negro foi chamado para subir ao palco, em um dos intervalos entre uma música e outra. O apresentador então o apresentou, falou seu nome, mas não prestei atenção.

Foi o Marcão, o professor de xadrez, que me explicou quem era aquele cabra por quem todos da praça pareciam nutrir vasta admiração.

- Marcão, sabe quem é aquele cara que tá sendo filmado por aqueles outros dois caras?

- Sei sim, é o meu tio, Dom Salvador. O cara é um dos melhores pianistas de Jazz do mundo, mora em Manhattan e tocava com o Frank Sinatra.

Imediatamente, lembrei-me daquela fábula que você me contou certa vez sobre um pianista rioclarense, radicado nos Estados Unidos, ignorado na cidade natal, até ser entrevistado no Jô Soares. Não me esqueço também do tom de indignação que carregava suas palavras.

Pois então, meu caro cabra, não é que o tal Dom Salvador veio fazer uma apresentação nesta nossa querida terrinha? Aconteceu domingo à noite, lá no Casarão da Cultura, em duas sessões. Infelizmente, não pude ir a nenhuma delas, pois, além do evento ser em um horário e dia em que costumo fazer o clássico programa de assistir dvds piratas na casa do meu pai, os ingressos, gratuitos, já tinham se esgotado fazia tempo. Uma pena.

Bom, de novidade, acho só tinha isso pra te contar. Sobre os demais assuntos que me contara em seu último email, fico só na curiosidade pra saber sobre seu novo quartel-general. Entendo claramente essa sua súbita vontade em ter um canto só pra si. É um fenômeno que já vi acontecer bastante na minha faculdade. Mas, diga-me, o que motiva essa sua escolha? Cansou das dores de cabeça de viver em república? Além do mais, morar sozinho não é mais caro?

Cabra, parece-me então que em duas semanas vossa senhoria já estará de volta. Deste modo, deixemos os temas profundos reservados para a conversa in loco.

Sigamos, contudo, trocando nossos emails recheados de relatos superficiais do dia-a-dia e de divagação.

Forte abraço, Johnny

PS: na verdade fiz a correção na primeira linha apenas para fazer o trocadilho com o nome do filme. Corrigir, desse jeito, é coisa de pedante.


eu queria ser um hiato!

24 24UTC novembro 24UTC 2009

Não tem nada mais brochante que chuva de verão aparecendo no inverno – e entendam isso como quiser.

Eu, que já não sou mais eu, sempre me vejo batucando nos limiares dessa vida amargurada e infinita. Já fui pra Bahia, já fui pro Pará, já fui até pra Chuí, ali no extreeeeeemo sul desse brasilzão, mas agora o vendaval ganha corpo, as primeiras gotas batem no telhado e a vontade de dormir, vixi maria, vem que vem nesse meu corpo franzino que deus me deu.

Aí eu durmo. Durmo, me reviro de um lado, pro outro, durmo mais um pouco, até que alguém grite por mim ou que a vontade de urinar ameace explodir minha bexiga. É nesse exato momento que me ponho de pé.

Na vertical, sempre prometo que a partir de então tudo será diferente. Aliás, que a partir de amanhã. Me permito tirar férias diárias, férias de duração de um dia, mas que sempre são proteladas e estendidas, até que chegue o fim de semana, que são férias oficiais e referendadas pela Constituição Federal.

Aí a tranquilidade paira sobre essa minha consciência virgem de crimes e estelionatos.

Ceifar uma parte da sua vida fazendo considerações sobre seu desempenho no dia-a-dia é de um desgosto desses enormes. Diria de um desgosto dantesco, se tivesse acabado de consumir literatura.

É por isso que eu queria ser um hiato. Um desses bem específicos, dessas palavras bem difíceis, que ninguém nunca falou, só viu de relance no dicionário, tipo compleiçoado, criptoanálise, mosaísmo. Vocês sabem o que é mosaísmo?

Na concepção do capital, a arte de procrastinar é algo hediondo, crime bárbaro, repugnante, desprezível, quem comete esse pecado mortal merece as labaredas do nono inferno de Dante. Decorrente disso que surge a pressão paterna e materna, e toda a consequente criminalização da procrastinação, como se fizéssemos parte de um movimento social. Ora essa!

Mas é aí que eu, que já não sou mais eu, sempre argumento que Aristóteles, Sócrates e Platão nunca teriam pensado o que pensaram se não tivessem cultivado o ócio. Certamente todos eles eram adoradores da procrastinação, mesmo que isso não conste nos livros de história, coisa que deveria constar. Mesmo o John Lennon, pra compor, sei lá, Love me do, música que é meio chinfrin, é verdade, mas que alavancou os moleques rumo ao estrelato, mesmo o velho Lennon deveria gozar da procrastinação exacerbada.

(Pausa para um parêntese importante: considerem procrastinação tudo aquilo que não se pode colocar no currículo)

Eu queria ser um hiato pra acabar logo de uma vez com toda essa besteiraiada que pregam por aí nas televisões, nas revistas, nas mesas de bar, pra sumir de vez dessa hipocrisia pegajosa, dosada com muita caipirinha de pinga estragada. Só então é que poderia gozar e gozar, na melhor acepção que um termo como esse pode oferecer.

Doravante, prometo que o amanhã será diferente!

"Galera, é o seguinte: todo mundo sem roupa e ninguém é de ninguém!"


Roda que não gira

20 20UTC novembro 20UTC 2009

José ama Maria, que gosta de Thiago, que flerta com Helena, que sofre por Adão, que se arrasta por Patrícia, que sonha com João, apaixonado por Sabrina, que espera por Renato, que chora por Melina, vidrada em Rafael, que padece por Talita, doente por Leandro, que almeja Juliana, que luta por Firmino, que adora Luciana, que se imagina com José.

Eita mundo errado de meu deus!


A heroína dos domingos

16 16UTC novembro 16UTC 2009

Nas páginas amarelas, buscava o número daquela pizzaria de super descontos, perfeitos para um carente culinário num domingo à noite. Era tanta fome, mas tanta fome, que a dor que  fustigava sua barriga há mais de hora começava a migrar paulatinamente para a cabeça. E isto lhe causara um nervosismo um pouco fora do comum. Suas mãos tremiam suavemente enquanto tateavam a lista telefônica atrás da salvação para aquela tortura.

Pensou naqueles que vivem diariamente na insegurança alimentar. Esse calafrio adicional só lhe fez angustiar ainda mais.

Lembrava que era com a letra F, F de Florisbela, não, F de Fioretti, também não, só sabia que era F de algum nome desses italianos, típicos de pizzaria. E precisava seguir garimpando aquelas páginas pois não tinha outra escolha: sua geladeira estava vazia, não havia nada aberto àquela hora de domingo, seu amigo mais próximo que lhe ofereceria comida morava a 3 km, inalcançáveis para um ciclista faminto, seus vizinhos o matariam, e a única nota que habitava aquela casa era de 10 reais, guardada em algum lugar dentro da bolsa de seu laptop. Da pizzaria, além da primeira letra, também lembrava seu preço promocional: 9 e 50.

Portanto era aquilo ou aquilo.

O sino da igreja soou uma badalada, olho no relógio, meu deus, era meia-noite!, podiam não entregar mais, acelerou a sua procura, o sino continuava badalando, Farmácia Unimed, Fechadura & Cia, Festas Lesi, pensou em ir pra P, de pizzaria, foi, virou um bolo de páginas, mas não, era melhor voltar pra F, voltou, Fialho Afrânio, Fiat Viviani, o sino continuava badalando, devia estar lá pela décima badalada, quando finalmente encontrou.  Agarrou o telefone com tanta violência que até estranhou a si mesmo: 3-2-8-1-5-7-1-6

- Fiorella, boa noite!

- Boa noite, eu gostaria uma pizza promocional, meia calabreza, meia mussarella.

- Me desculpe, senhor, mas já passamos da meia-noite e não estamos mais entregando.

- POR FAVOR

- Deixe-me ver se o entregador já não saiu.

(…….)

- Ok, ele está aqui ainda. Pode fazer o seu pedido.

 

Naquela noite, tão cedo engoliu o último pedaço de pizza, apagou. Sequer escovou os dentes.


As peripécias de Toninho Pólvora

12 12UTC novembro 12UTC 2009

Juarez já advertia:

- Esse moleque quando crescer vai fazer estrago, vai dar uma dor de cabeça danada. Será o carrasco de todos nós, individualistas de merda!

E não é que o projeto de gente que um dia foi Antônio, caçula de uma prole de 6 irmãos, filho da Quitéria, se tornou o destemido e respeitado Toninho Pólvora, o matador de agiotas?

Gostava de bandear pelas bandas de Canudos, terra de outro Antônio, o conselheiro. Respirava o pó das vicinais como quem tem os pulmões de ferro. Seu faro era de morte certa, sua garrucha de dois canos sempre o acompanhava, assim como sua peixeira de corte afiado.

Sentia a brisa do sertão raspar-lhe feito lixa a grossa barba do rosto. Não tinha cicatrizes nem marcas de nascença: sua pele era de um marrom-nordestino que fazia jus à sua hombridade. Matava às segundas, quartas e sextas. Descansava às terças, quintas e sábados. Aos domingos, rezava.

Temia pelo futuro que estava por vir. Mas não o futuro de amanhã, nem da próxima semana, nem do outro mês: temia pelo futuro das décadas. O futuro do cabelo grisalho. O futuro da velhice. Já havia decidido que estouraria seus próprios miolos no dia que a força lhe faltasse para conseguir comida, água e remédio pra si.

Mas enquanto o Sinhô lhe mantivesse de pé, viveria para cumprir a missão à qual fora destinado: salvaguardar os homens de bem desse planeta. O que implicava em eliminar os homens maus.

E foi nesse ritmo de “atira-mata” que Toninho Pólvora foi conquistando sua fama de justiceiro da cidade.

Até conhecer Ana.

Ana das longas mechas douradas, Ana da joviedade sessentista, Ana que conheceu num baile, cantando numa banda de mariachis.

Descobriu então que tinha coração. Que tinha receios, que lhe faltava coragem, sentimento que achava que tinha de sobra até então.

Mas foi. E deu amor.

Toninho Pólvora se enxergava novo homem. Acabara de fundir seu espírito com o de outra pessoa. Estava em completa sintonia, com o sorriso largo, passos flutuantes, como se pudesse alçar voo a qualquer momento.

Estava com Ana.

Ana das longas mechas douradas, da joviedade sessentista, que chegara para preencher todo um vazio existencial que Toninho Pólvora preenchia nos tiros do dia-a-dia. Abandonou a garrucha, trocou a peixeira por um buquê de flores, e todos os dias, ao fim da tarde, presenteava Ana com uma flor diferente.

E era sabido na ciência das flores.

Começou com uma Acácia, deu-lhe Camélias, Dálias, Girassóis, Hortênsias, Margaridas, Rosas, Tulipas. E todo dia era uma surpresa nova, uma reação diferente de Ana, sempre embusteada de alegria, felicidade e afagos de namoro.

Toninho Pólvora nunca se permitiu ficar velho. No dia em que Ana partiu, não estourou seus miolos. Tampouco voltou para a pólvora.

Nessa dia, voltou a ser somente Antônio, o filho da Quitéria.

Love is All You Need

Ana


Carta aberta ao Cabra

28 28UTC outubro 28UTC 2009

Cabra,

Daqui do lugar do mundo que estou não me sobra muito tempo para escrever. Mas finalmente consegui uma brecha dessa minha labuta forçada a qual sou submetido várias vezes ao dia. Meus patrões são impiedosos e bastante exigentes. Não dão trégua nem aos sábados. Meu único dia livre é o Domingo, que é o dia da missa, e portanto ninguém pode trabalhar, nem se quiser. Mesmo assim, eu sempre que posso dou uma remexida na minha horta, carpo o mato, aro a terra, espraio sementes, sempre bem às escondidas, pra ninguém me taxar de herege ou coisa semelhante. O Pepe sabe o que eu faço, mas só ele, nem uma outra pessoa mais, e o Pepe, bem, o Pepe é de confiança, continua o mesmo bom cabra de nossos tempos de colégio.

Outro dia me peguei lembrando em você. Me lembrei daquela vez que aprontamos com a Joaquina, lembra?, colocamos uma barata morta num envelope e pedimos pro Pepe entregar. Ela, toda metida a gostosona, exibiu pra todo mundo da classe que tinha recebido uma carta, possivelmente de um admirador secreto, dos vários e vários que ela julgava ter. Isso porque ela tinha 13 anos. Acho que nada nesse mundo paga meus risos quando a barata rolou pelo seu colo e fez com que ela caísse pra trás com a cadeira de susto. Inesquecível.

É, mas os anos se passaram, os tempos são outros. Todos nós crescemos e viramos homens e mulheres, e junto vieram várias coisas chatas. Não gosto por exemplo de trabalhar. Ter que me vender pra enriquecer alguém, principalmente canalhas e bastardos como os meus patrões. Por mim seria criança pra sempre, mesmo que isso implicasse em não conseguir alcançar o armário da cozinha ou não poder alugar filmes pornográficos na locadora. Uma pena que ainda não inventaram uma Neverland de verdade.

Cabra, a idade adulta é uma merda por completo, ainda mais na situação que me encontro. Não sei quanto a você, parece que está num alto cargo de uma multinacional né?, mas o meu dia-a-dia é tão desalentador e pobre de espírito, que às vezes me bate uma vontade de jogar tudo pro alto e fugir por uma das trilhas. Só que é muito arriscado, tenho medo de sair daqui. Meus patrões pagam capatazes que ficam circundando a região o tempo todo, dia e noite, com chuva ou sol. Sempre estão parando pessoas que julgam suspeitas, algumas só pelo vão motivo de carregar uma mochila, acredita? É, Cabra, e isso só faz minha angústia redobrar.

E o Pepe, bem, o Pepe ainda me é uma companhia agrádavel, na verdade ele é meu único amigo. Mas não mantemos mais a mesma amizade que tivemos uma vez na infância, aquela da cumplicidade irrestrita, da confiança mútua. Falamos sobre futebol algumas vezes, outras tantas lembramos nossos tempos de beatlemaníacos, mas o papo costuma se encerrar por aí. Basta soar a décima badalada na igreja que cada um se recolhe em sua cabana e parte para o repouso. Aliás, cada vez mais tenho a sensação de que o tempo livre que dispomos no dia só serve para que repousemos para a jornada de trabalho do dia seguinte. Outro dia estava pensando que praticamente não tenho lazer. Pior, o que parece ser meu único lazer é um trabalho!, que é o trabalho na horta, e ainda escondido!

Cabra, cabra, cabra, preciso dar um jeito de sair daqui, me ajude, por favor!

Do seu estimado e fiel amigo,  Robson Crusoe


O baile dos idiotas

26 26UTC outubro 26UTC 2009

Coladas à mesa, 6 cadeiras, espalhadas de forma tão anárquica que nem parecia ser uma família, estava mais para um grupo de pessoas que apenas se conheciam, forçadas pela mão de ferro da ocasião a se sentarem próximas umas às outras bem à contra gosto naquele sábado à noite. E de fato era isso mesmo que estava acontecendo.

Os idiotas, de gravata borboleta. As idiotas, de vestidos equivalentes a um salário de empregada doméstica, às vezes até dois salários. Isso sem falar naquelas que exibiam pedras penduradas nas orelhas e nos pescoços que sabe-se lá quantos salários de empregadas negras valiam.

A noite caía, era nublada, não dava pra ver estrelas. Luz, nem do luar, pois, como já disse, estava bem nublado. Luz mesmo só da bola brilhante, que girava sem parar sobre os idiotas dançantes e estacionários. Penso que dentro daquela minha jornada, aquela bola brilhante poderia ter algum significado místico ou subliminar que pudesse me desvendar mistérios ou apontar-me algo futuramente. E acho que acabei encontrando o tal significado. 7 dias mais tarde, li no jornal que no Peru um jovem havia morrido na boate em decorrência da queda de uma dessas bolas brilhantes bem em sua cabeça. Imediatamente, fui atrás do bicheiro do meu bairro. Joguei, e no outro dia estava 90 reais mais rico.

Mas 7 dias antes de estar 90 reais mais rico, eu me encontrava naquela situação deprimente, cercado por idiotas. Acho que nunca tive aquela sensação de ter tantos idiotas ao meu redor de uma só vez, em uma só noite. Fitava por todos os lados, no vão intento de tentar localizar alguém não-idiota pra puxar um papo sobre beatles e assim abstrair-me daquela realidade material pegajosa. Passei uns 40 minutos nesse verdadeiro trabalho de Jó. Estava difícil.

E aí que caminhando por uma das trilhas da área verde, já quase me entregando à desistência, cruzo com uma moça de  um odor bem peculiar – pelo menos peculiar para aquele baile. Eu, que sempre me gabei por ter um olfato bastante apurado, capaz de distinguir uma orquídea de uma rosa de olhos fechados, imediatamente percebi que seu perfume não era como os mais de 80 exemplares de Dolce & Gabbana que já tinha detectado no cardume de fêmas que povoava aquele baile de idiotas. Pelo contrário, muitíssimo contrário, aquele exemplar de cromossomos XX não portava perfume nenhum, pelo menos não os que se vendem em frascos. Exalava um cheiro de gente, carnal, de mulher.

É claro que a tal descoberta captou minha atenção logo de cara. Meu rosto rodopiou sobre o eixo o número de graus necessários para poder acompanhá-la perfeitamente com os olhos, como se uma linha invísivel e imaleável ligasse meu nariz ao dela, enquanto era ultrapassado por aquela andante bem ao lado. Mirava o chão e acho que nem percebeu minha presença ali.

Concluí, pelo perfume natural, que minha noite poderia não estar totalmente perdida. E iniciei minha perseguição implacável, mas só para mais tarde aprender que, assim como um livro não pode ser sentenciado pela sua capa, uma flor também não o deve ser apenas pelo seu cheiro.

Margaridas

As flores de plástico não morrem!