A Viagem em sua parte inicial

Iria começar sua viagem, mas esquecia a mochila, com todas as coisas básicas dentro. Teve que voltar, pedir pro motorista dar a volta no balão, em sentido diametralmente oposto ao destino de todos os outros passageiros, inclusive o seu. É claro que a balburdia se instalou, houveram ameaças, mas aquela viagem urgia aquela mochila, e, após um discurso eloquente e emocionado,  logo todos compreenderam aquilo, menos a senhora do manto verde, da primeira fileira, indignada como nunca, ranzinza como sempre. O motorista reduziu da terceira para a segunda, deu a seta e retornou, rumo ao destino solicitado. Era dia de jogo da copa e o trânsito fluía como sangue nas veias de um atleta.

Mas já passava da hora planejada, o sol já estalava no alto, o que queria dizer que seria noite 8 horas mais tarde. E se  a noite, como sabemos, é a uma criança, a madrugada é uma bela jovem recém-saída da adolescência exalando libido e desejo naqueles em busca pelo prazer. E era exatamente isso que queria evitar: a busca pelo prazer, que já lhe causara tantos infortúnios e desatinos. É por isso que, já com a mochila nas mãos, começou a rezar pra tudo quanto é santo, mesmo não acreditando em santo, muito menos num deus – se enterdemos deus como o deus que todo mundo entende. Talvez rezasse por inércia, ou pelo costume de infância que subitamente lhe tomara o corpo, lhe juntara as mãos, e quase o fizera ajoelhar, não fosse o chacoalhar daquela estrada esburacada. Na janela, o concreto dava lugar aos jacarandás.

Ainda rezando, pôs-se a dormir. E sonhou com coisas que jamais tinha sonhado antes. Sonhou com coisas fantásticas e magníficas e maravilhosas, todas coisas que não lhe faziam sentido algum, ao menos logo de cara, mas que depois, anos mais tarde, lhe fariam  o mais sentido de todos os sentidos com os quais se deparou. Tinha um dragão colorido, um arco-íris (como não poderia deixar de ser), e até um vinil dos beatles. Tinha uma bandeira palestina, um violão com uma corda a menos e uma menina de uma bela voz, entoando o belíssimo hino da França, também conhecido como Marselhesa. Mas nem todos esses elementos apareceram assim, de primeira, na mesma tomada. Foi algo mais em plano sequência, começando pelo dragão, que não era mais tão colorido assim, passava pelo abbey road e terminava na última estrofe de um frânces lírico impecável, seguindo a ordem acima destacada.

Acordou meio que subitamente, estava em cima de um rio, ainda no ônibus, é claro, mas em um rio grande de largura, de comprimento também deveria ser, já que não via sua nascente, tampoco sua foz  (depois se arrependera de ter pensado tal besteira, já que ninguém vê a foz e a nascente de um rio, não em uma única viagem de ônibus). Caía a tarde e a noite se aproximava. Isso queria dizer que seu destino também se aproximava. O rio era mesmo grande, estavam na ponte fazia o que?, uns 10 minutos?, e continuavam incólumes e infatigantes na estrada mais próxima do equador em que já estivera.

Foi aí que lembrou da sua mochila.

O ônibus em uma das cinco revistas policiais pelas quais passamos na Trilha da Floresta

O ônibus em uma das cinco revistas policiais pelas quais passamos na Trilha da Floresta

Na mistura da ansiedade por pertear seu destino e do medo da madrugada, ele abriu o zíper da sua mochila em busca de algo que lhe trouxesse paz. Afinal, paz é algo básico pra se viver e aquela era sua mochila das coisas básicas. Revirou tudo, entre bolachas, garrafas d’agua e outros itens mais fantásticos, cujos quais não me cabe descrever, para não correr o risco de ser taxado de rídiculo e/ou louco. Revirou tudo. Mas nada.

Sua ansiedade triplicou, seu medo quadruplicou, precisava de uma calculadora se quisesse quantificar a quantidade de coisas ruins que lhe passavam diante da íris de sua imaginação. Não aguentando mais, ele se dirigiu ao fundo do ônibus, num surto de desespero.

Lá, ele encontrou um velho de barbas brancas, boina marrom, vestuário retrô, tinha uma fala calma e parecia ser mais sábio do que ele, e até, porque não?, do que eu, eu que subitamente me vi também sentado ao lado daquele velho, cujo qual acabou por me tranquilizar um pouco.

Me convenceu de que não precisava ter tanta agonia

Me convenceu de que não precisava ter tantas aflições

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