A cidade onde os estagiários trabalham de graça

Nada era mais desagradável do que descer em uma cidade que não conhecia, que não tinha água encanada, onde os moto-táxis não tinham capacete para o carona e, o pior, onde os estagiários trabalhavam de graça. Pois foi isso que lhe aconteceu. Ainda estava afônico de tanto gritar na última ladeira, aquela ladeira dos diabos, o motorista deve ter chegado a 170 km/h. Gritou tanto que sua voz sumiu já no primeiro segundo de grito. Mas com um tapa na barriga, pôde confirmar: seu diafragma ainda estava ali!

Agarrei o primeiro moto-táxi que apareceu na minha frente e pedi para que ao Sr. Bigode (foi assim que lhe batizei dentro da minha imaginação) dirigisse sem rumo, até chegar no hotel à beira do rio, onde descansaria de verdade pela primeira vez em muito tempo. Como não havia capacete, vesti minha nova boina, presente do velho do ônibus. E parti, me sentindo um forasteiro em campos alhures, onde só a poeira me era familiar. Tive até saudades.

– Aiô Silver!

– (Que raio de pessoa que chama sua moto de Silver?)

– Falou alguma coisa?

Nesse momento comecei a me perguntar se realmente não estava dando valor demais aos meus pensamentos. Comecei a me perguntar se meus pensamentos não transpunham a barreira do limite físico que separa aquela gosma verde-abacate que é meu cerébro, por onde supostamente transita tudo aquilo que nossa mente produz, sejam coisas decentes, vulgares ou incompreensíveis, dos ouvidos de terceiros. Deus do céu, tomara que tenha sido a primeira vez.

A viagem durou cerca de 40 minutos, e, como estava sem dinheiro, disse que deus lhe pagaria em dobro. Ele tomou aquilo como uma profecia, e partiu, para minha surpresa, sem delongas, e de fato o maldito estava certo, horas mais tarde, no carteado, embolsara 200 reais de um pobre aposentado viciado no jogo há mais de anos, já sem mulher, nem filhos, nem amigos,  apenas com seu cachorro, o Tolstoi, batizado com esse nome por causa de um filme que havia visto no mesmo dia que encontrou seu então futuro fiel companheiro na entrada de sua cabana. Eu apenas lamentei.

Guardei minha mochila de coisas básicas, deixei meu passaporte em branco com a atendente coxa do hotel, e, finalmente, pude dormir. E dormi. Muito. Dormi porque precisava demais daquele sono. Daquele descanso, que é quando nossa mente finalmente se desvencilha das preocupações terrenas pra dar lugar às coisas fantásticas e maravilhosas e magníficas.

O dia seguinte lhe reservaria novas experiências.

Sonhou que ficava rico! Rico!!!

Sonhou que ficava rico! Rico!!!

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