O universo em desencanto

De todas as canções que já havia ouvido até o presente momento, descontando as músicas de vinis, aquela me fora de longe a mais agradável. Destacava-se por sua leveza na harmonia, a audácia da melodia e a inteligência da letra – mesmo tendo sido concebida para ser instrumental. Me lembrei dos afrossambas de Baden Powell que foram letrados por Vinícius a posteriori, os quais teimava em não conseguir aprender os acordes junto ao meu violão amarelado.

Tim Maia 2

Quis perguntar ao meu orixá como pudera aquelas tônicas virem a mundo bem naquela época, num lugar inóspito como o Brasil. Sim, o Brasil é muito inóspito. Simplesmente, não dá pra se viver. São filas, impostos, assaltos. Não dá, ponto final.

Mas a gente acaba vivendo. Meio que por inércia, porque já assentou raízes, tem toda a família, amigos, emprego, esquemas, e vai seguindo. Quando o stress tá no alto, vamos ali na esquina nos distrair com uma cervejinha. E, assim, entre um dia e outro, despretensioamente, acabamos por trombar nossos ouvidos com uma obra daquela qualidade.

Tim-Maia-em-1971

Ah!, e como era bom parar sua existência mundana para ingressar em uma realidade paralela! Bom demais!, precisava daquilo tanto quanto precisava daquele descanso do dia anterior. As portas da minha percepção pareciam estar escancaradas  àquele minuto. Sentia cada nota, cada virada da bateria, de forma tão profunda e insidiosa, que quis sair daquele galpão abandonado direto pra um ateliê, pintar um quadro. Encarnaria Picasso!, seria Kirkeby!, me expressaria como Van Gogh! Tintas, meus senhores, mais tintas, agora!

Quando percebi que a última estrofe se aproximava, ensaiei me aproximar do disco-jóquei para uma conversa. Mas exitei. Ele era um senhor mal encarado, se apoiava no balcão do bar como um sóciopata, e mais um problema era o que menos desejava àquela hora de sexta-feira. Permaneci em minha poltrona, quieto e extasiado, até a última gota daquele entorpecente respingar em meu tímpano. O sóciopata foi então buscar outro cd.

*****

Aquela não fora a primeira vez que buscava primazia por algo que lhe era estranho. Tencionava-se a pensar que fora um erro de cálculo. Um branco nos raciocínios. Detinha o poderio bélico de um batalhão estadunidense na guerra golfo, mas insistia só – e somente só – na habilidade da diplomacia.

Pensou na carreira de promotor, juiz, carcereiro de presídio, mas sabia que não tinha vocação pra nenhuma delas.  Repentinamente, um insight tomou-lhe as ideias. Agora estava evidente demais! Ora, seria um ministro de relações exteriores! Levaria a Igualdade, a Fraternidade e a Liberdade ao mundo todo, mediante sua aptidão para o diálogo e convencimento!  Só precisava agora escolher um país, aprender seu idioma, e planejar os estudos!

Pelo menos naquela noite, a ansiedade sobre o que seria de sua profissão estava morta. Sabia, entretanto, que era novo. Ainda tinha vasta lenha pra queimar antes de começar a se preocupar com sua roupa dentro da sociedade. Voltou-se para seu quarto no hotel, cruzou com a atendente coxa no corredor, e foi direto a sua mochila de coisas básicas. Lá, pinçou seu caderninho de anotações, onde estavam suas anotações da vida inteira. Escreveu:

“EU TENHO UM SONHO! SONHO QUE UM DIA ESTA NAÇÃO SE LEVANTARÁ E VIVERÁ O VERDADEIRO SIGNIFICADO DE SUA CRENÇA – NÓS CELEBRAREMOS ESTAS VERDADES E ELAS SERÃO CLARAS PARA TODOS, QUE OS HOMENS SÃO CRIADOS IGUAIS”

Feliz com o que acabara de profetizar, escanteou seu caderninho de anotações, puxou o lençol pra cima do corpo, e partiu novamente para mais uma jornada ao mundo das coisas fantásticas e maravilhosas e magníficas.

Tim Maia Cantando 3

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One Response to O universo em desencanto

  1. Adorei o texto. Muito legal, parabéns.

    Namastê

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