O baile dos idiotas

Coladas à mesa, 6 cadeiras, espalhadas de forma tão anárquica que nem parecia ser uma família, estava mais para um grupo de pessoas que apenas se conheciam, forçadas pela mão de ferro da ocasião a se sentarem próximas umas às outras bem à contra gosto naquele sábado à noite. E de fato era isso mesmo que estava acontecendo.

Os idiotas, de gravata borboleta. As idiotas, de vestidos equivalentes a um salário de empregada doméstica, às vezes até dois salários. Isso sem falar naquelas que exibiam pedras penduradas nas orelhas e nos pescoços que sabe-se lá quantos salários de empregadas negras valiam.

A noite caía, era nublada, não dava pra ver estrelas. Luz, nem do luar, pois, como já disse, estava bem nublado. Luz mesmo só da bola brilhante, que girava sem parar sobre os idiotas dançantes e estacionários. Penso que dentro daquela minha jornada, aquela bola brilhante poderia ter algum significado místico ou subliminar que pudesse me desvendar mistérios ou apontar-me algo futuramente. E acho que acabei encontrando o tal significado. 7 dias mais tarde, li no jornal que no Peru um jovem havia morrido na boate em decorrência da queda de uma dessas bolas brilhantes bem em sua cabeça. Imediatamente, fui atrás do bicheiro do meu bairro. Joguei, e no outro dia estava 90 reais mais rico.

Mas 7 dias antes de estar 90 reais mais rico, eu me encontrava naquela situação deprimente, cercado por idiotas. Acho que nunca tive aquela sensação de ter tantos idiotas ao meu redor de uma só vez, em uma só noite. Fitava por todos os lados, no vão intento de tentar localizar alguém não-idiota pra puxar um papo sobre beatles e assim abstrair-me daquela realidade material pegajosa. Passei uns 40 minutos nesse verdadeiro trabalho de Jó. Estava difícil.

E aí que caminhando por uma das trilhas da área verde, já quase me entregando à desistência, cruzo com uma moça de  um odor bem peculiar – pelo menos peculiar para aquele baile. Eu, que sempre me gabei por ter um olfato bastante apurado, capaz de distinguir uma orquídea de uma rosa de olhos fechados, imediatamente percebi que seu perfume não era como os mais de 80 exemplares de Dolce & Gabbana que já tinha detectado no cardume de fêmas que povoava aquele baile de idiotas. Pelo contrário, muitíssimo contrário, aquele exemplar de cromossomos XX não portava perfume nenhum, pelo menos não os que se vendem em frascos. Exalava um cheiro de gente, carnal, de mulher.

É claro que a tal descoberta captou minha atenção logo de cara. Meu rosto rodopiou sobre o eixo o número de graus necessários para poder acompanhá-la perfeitamente com os olhos, como se uma linha invísivel e imaleável ligasse meu nariz ao dela, enquanto era ultrapassado por aquela andante bem ao lado. Mirava o chão e acho que nem percebeu minha presença ali.

Concluí, pelo perfume natural, que minha noite poderia não estar totalmente perdida. E iniciei minha perseguição implacável, mas só para mais tarde aprender que, assim como um livro não pode ser sentenciado pela sua capa, uma flor também não o deve ser apenas pelo seu cheiro.

Margaridas

As flores de plástico não morrem!

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One Response to O baile dos idiotas

  1. Thaísa disse:

    Texto bacana.
    (Digitei “margaridas” no Google e o primeiro link que surgiu foi o seu. Fui surpreendida, pela beleza não da imagem, mas do texto!)

    Thaísa

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