Carta aberta ao Cabra

Cabra,

Daqui do lugar do mundo que estou não me sobra muito tempo para escrever. Mas finalmente consegui uma brecha dessa minha labuta forçada a qual sou submetido várias vezes ao dia. Meus patrões são impiedosos e bastante exigentes. Não dão trégua nem aos sábados. Meu único dia livre é o Domingo, que é o dia da missa, e portanto ninguém pode trabalhar, nem se quiser. Mesmo assim, eu sempre que posso dou uma remexida na minha horta, carpo o mato, aro a terra, espraio sementes, sempre bem às escondidas, pra ninguém me taxar de herege ou coisa semelhante. O Pepe sabe o que eu faço, mas só ele, nem uma outra pessoa mais, e o Pepe, bem, o Pepe é de confiança, continua o mesmo bom cabra de nossos tempos de colégio.

Outro dia me peguei lembrando em você. Me lembrei daquela vez que aprontamos com a Joaquina, lembra?, colocamos uma barata morta num envelope e pedimos pro Pepe entregar. Ela, toda metida a gostosona, exibiu pra todo mundo da classe que tinha recebido uma carta, possivelmente de um admirador secreto, dos vários e vários que ela julgava ter. Isso porque ela tinha 13 anos. Acho que nada nesse mundo paga meus risos quando a barata rolou pelo seu colo e fez com que ela caísse pra trás com a cadeira de susto. Inesquecível.

É, mas os anos se passaram, os tempos são outros. Todos nós crescemos e viramos homens e mulheres, e junto vieram várias coisas chatas. Não gosto por exemplo de trabalhar. Ter que me vender pra enriquecer alguém, principalmente canalhas e bastardos como os meus patrões. Por mim seria criança pra sempre, mesmo que isso implicasse em não conseguir alcançar o armário da cozinha ou não poder alugar filmes pornográficos na locadora. Uma pena que ainda não inventaram uma Neverland de verdade.

Cabra, a idade adulta é uma merda por completo, ainda mais na situação que me encontro. Não sei quanto a você, parece que está num alto cargo de uma multinacional né?, mas o meu dia-a-dia é tão desalentador e pobre de espírito, que às vezes me bate uma vontade de jogar tudo pro alto e fugir por uma das trilhas. Só que é muito arriscado, tenho medo de sair daqui. Meus patrões pagam capatazes que ficam circundando a região o tempo todo, dia e noite, com chuva ou sol. Sempre estão parando pessoas que julgam suspeitas, algumas só pelo vão motivo de carregar uma mochila, acredita? É, Cabra, e isso só faz minha angústia redobrar.

E o Pepe, bem, o Pepe ainda me é uma companhia agrádavel, na verdade ele é meu único amigo. Mas não mantemos mais a mesma amizade que tivemos uma vez na infância, aquela da cumplicidade irrestrita, da confiança mútua. Falamos sobre futebol algumas vezes, outras tantas lembramos nossos tempos de beatlemaníacos, mas o papo costuma se encerrar por aí. Basta soar a décima badalada na igreja que cada um se recolhe em sua cabana e parte para o repouso. Aliás, cada vez mais tenho a sensação de que o tempo livre que dispomos no dia só serve para que repousemos para a jornada de trabalho do dia seguinte. Outro dia estava pensando que praticamente não tenho lazer. Pior, o que parece ser meu único lazer é um trabalho!, que é o trabalho na horta, e ainda escondido!

Cabra, cabra, cabra, preciso dar um jeito de sair daqui, me ajude, por favor!

Do seu estimado e fiel amigo,  Robson Crusoe

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2 Responses to Carta aberta ao Cabra

  1. Coto disse:

    Vai trabalha vagabundo uhahuauhahua

    Mto bom o texto johnny, aprendeu direitinho uhahua
    abraços

  2. Leonardo disse:

    é cabra, maneiro jeito de escrever sim….
    eu parei no tempo, estou devendo alguns escritos.
    achei muito bom esse texto, como disse Coto, aprendeu direitinho, haha.
    e me diga, leu aquele Robert Crumb que te mandei?
    e outra coisa, vc ja voltou das Ilhas Canárias?

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