As peripécias de Toninho Pólvora

Juarez já advertia:

– Esse moleque quando crescer vai fazer estrago, vai dar uma dor de cabeça danada. Será o carrasco de todos nós, individualistas de merda!

E não é que o projeto de gente que um dia foi Antônio, caçula de uma prole de 6 irmãos, filho da Quitéria, se tornou o destemido e respeitado Toninho Pólvora, o matador de agiotas?

Gostava de bandear pelas bandas de Canudos, terra de outro Antônio, o conselheiro. Respirava o pó das vicinais como quem tem os pulmões de ferro. Seu faro era de morte certa, sua garrucha de dois canos sempre o acompanhava, assim como sua peixeira de corte afiado.

Sentia a brisa do sertão raspar-lhe feito lixa a grossa barba do rosto. Não tinha cicatrizes nem marcas de nascença: sua pele era de um marrom-nordestino que fazia jus à sua hombridade. Matava às segundas, quartas e sextas. Descansava às terças, quintas e sábados. Aos domingos, rezava.

Temia pelo futuro que estava por vir. Mas não o futuro de amanhã, nem da próxima semana, nem do outro mês: temia pelo futuro das décadas. O futuro do cabelo grisalho. O futuro da velhice. Já havia decidido que estouraria seus próprios miolos no dia que a força lhe faltasse para conseguir comida, água e remédio pra si.

Mas enquanto o Sinhô lhe mantivesse de pé, viveria para cumprir a missão à qual fora destinado: salvaguardar os homens de bem desse planeta. O que implicava em eliminar os homens maus.

E foi nesse ritmo de “atira-mata” que Toninho Pólvora foi conquistando sua fama de justiceiro da cidade.

Até conhecer Ana.

Ana das longas mechas douradas, Ana da joviedade sessentista, Ana que conheceu num baile, cantando numa banda de mariachis.

Descobriu então que tinha coração. Que tinha receios, que lhe faltava coragem, sentimento que achava que tinha de sobra até então.

Mas foi. E deu amor.

Toninho Pólvora se enxergava novo homem. Acabara de fundir seu espírito com o de outra pessoa. Estava em completa sintonia, com o sorriso largo, passos flutuantes, como se pudesse alçar voo a qualquer momento.

Estava com Ana.

Ana das longas mechas douradas, da joviedade sessentista, que chegara para preencher todo um vazio existencial que Toninho Pólvora preenchia nos tiros do dia-a-dia. Abandonou a garrucha, trocou a peixeira por um buquê de flores, e todos os dias, ao fim da tarde, presenteava Ana com uma flor diferente.

E era sabido na ciência das flores.

Começou com uma Acácia, deu-lhe Camélias, Dálias, Girassóis, Hortênsias, Margaridas, Rosas, Tulipas. E todo dia era uma surpresa nova, uma reação diferente de Ana, sempre embusteada de alegria, felicidade e afagos de namoro.

Toninho Pólvora nunca se permitiu ficar velho. No dia em que Ana partiu, não estourou seus miolos. Tampouco voltou para a pólvora.

Nessa dia, voltou a ser somente Antônio, o filho da Quitéria.

Love is All You Need

Ana

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