A heroína dos domingos

Nas páginas amarelas, buscava o número daquela pizzaria de super descontos, perfeitos para um carente culinário num domingo à noite. Era tanta fome, mas tanta fome, que a dor que  fustigava sua barriga há mais de hora começava a migrar paulatinamente para a cabeça. E isto lhe causara um nervosismo um pouco fora do comum. Suas mãos tremiam suavemente enquanto tateavam a lista telefônica atrás da salvação para aquela tortura.

Pensou naqueles que vivem diariamente na insegurança alimentar. Esse calafrio adicional só lhe fez angustiar ainda mais.

Lembrava que era com a letra F, F de Florisbela, não, F de Fioretti, também não, só sabia que era F de algum nome desses italianos, típicos de pizzaria. E precisava seguir garimpando aquelas páginas pois não tinha outra escolha: sua geladeira estava vazia, não havia nada aberto àquela hora de domingo, seu amigo mais próximo que lhe ofereceria comida morava a 3 km, inalcançáveis para um ciclista faminto, seus vizinhos o matariam, e a única nota que habitava aquela casa era de 10 reais, guardada em algum lugar dentro da bolsa de seu laptop. Da pizzaria, além da primeira letra, também lembrava seu preço promocional: 9 e 50.

Portanto era aquilo ou aquilo.

O sino da igreja soou uma badalada, olho no relógio, meu deus, era meia-noite!, podiam não entregar mais, acelerou a sua procura, o sino continuava badalando, Farmácia Unimed, Fechadura & Cia, Festas Lesi, pensou em ir pra P, de pizzaria, foi, virou um bolo de páginas, mas não, era melhor voltar pra F, voltou, Fialho Afrânio, Fiat Viviani, o sino continuava badalando, devia estar lá pela décima badalada, quando finalmente encontrou.  Agarrou o telefone com tanta violência que até estranhou a si mesmo: 3-2-8-1-5-7-1-6

– Fiorella, boa noite!

– Boa noite, eu gostaria uma pizza promocional, meia calabreza, meia mussarella.

– Me desculpe, senhor, mas já passamos da meia-noite e não estamos mais entregando.

– POR FAVOR

– Deixe-me ver se o entregador já não saiu.

(…….)

– Ok, ele está aqui ainda. Pode fazer o seu pedido.

 

Naquela noite, tão cedo engoliu o último pedaço de pizza, apagou. Sequer escovou os dentes.

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2 Responses to A heroína dos domingos

  1. Stripolias disse:

    a pizza é meio nojenta, mas pra matar a fome tá ótimo.

  2. leonardo disse:

    naquela noite, tao cedo engoliu o ultimo pedaço de pizza, apagou. sequer escovou os dentes.
    a noite parecia um lindo jardim. sua barriga cheia o fez andar por longos caminhos de jasmim. assustado, acordou e viu que era um sonho. “dormir de barriga cheia nao deve fazer bem….mas acho que…..foda-se”, disse. quando olhou para o lado havia uma montanha cheia de luzes, parecia uma constelacao e era! bem no alto conseguiu ver um ponto mais forte, como se fosse uma chama de fogo. ele queria subir para ver o que realmente era, se enfiou pelo jardim de jasmim e assim seguiu até o alto. dai em diante aconteceram coisas estranhas….o que será que ele pensou?

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