eu queria ser um hiato!

Não tem nada mais brochante que chuva de verão aparecendo no inverno – e entendam isso como quiser.

Eu, que já não sou mais eu, sempre me vejo batucando nos limiares dessa vida amargurada e infinita. Já fui pra Bahia, já fui pro Pará, já fui até pra Chuí, ali no extreeeeeemo sul desse brasilzão, mas agora o vendaval ganha corpo, as primeiras gotas batem no telhado e a vontade de dormir, vixi maria, vem que vem nesse meu corpo franzino que deus me deu.

Aí eu durmo. Durmo, me reviro de um lado, pro outro, durmo mais um pouco, até que alguém grite por mim ou que a vontade de urinar ameace explodir minha bexiga. É nesse exato momento que me ponho de pé.

Na vertical, sempre prometo que a partir de então tudo será diferente. Aliás, que a partir de amanhã. Me permito tirar férias diárias, férias de duração de um dia, mas que sempre são proteladas e estendidas, até que chegue o fim de semana, que são férias oficiais e referendadas pela Constituição Federal.

Aí a tranquilidade paira sobre essa minha consciência virgem de crimes e estelionatos.

Ceifar uma parte da sua vida fazendo considerações sobre seu desempenho no dia-a-dia é de um desgosto desses enormes. Diria de um desgosto dantesco, se tivesse acabado de consumir literatura.

É por isso que eu queria ser um hiato. Um desses bem específicos, dessas palavras bem difíceis, que ninguém nunca falou, só viu de relance no dicionário, tipo compleiçoado, criptoanálise, mosaísmo. Vocês sabem o que é mosaísmo?

Na concepção do capital, a arte de procrastinar é algo hediondo, crime bárbaro, repugnante, desprezível, quem comete esse pecado mortal merece as labaredas do nono inferno de Dante. Decorrente disso que surge a pressão paterna e materna, e toda a consequente criminalização da procrastinação, como se fizéssemos parte de um movimento social. Ora essa!

Mas é aí que eu, que já não sou mais eu, sempre argumento que Aristóteles, Sócrates e Platão nunca teriam pensado o que pensaram se não tivessem cultivado o ócio. Certamente todos eles eram adoradores da procrastinação, mesmo que isso não conste nos livros de história, coisa que deveria constar. Mesmo o John Lennon, pra compor, sei lá, Love me do, música que é meio chinfrin, é verdade, mas que alavancou os moleques rumo ao estrelato, mesmo o velho Lennon deveria gozar da procrastinação exacerbada.

(Pausa para um parêntese importante: considerem procrastinação tudo aquilo que não se pode colocar no currículo)

Eu queria ser um hiato pra acabar logo de uma vez com toda essa besteiraiada que pregam por aí nas televisões, nas revistas, nas mesas de bar, pra sumir de vez dessa hipocrisia pegajosa, dosada com muita caipirinha de pinga estragada. Só então é que poderia gozar e gozar, na melhor acepção que um termo como esse pode oferecer.

Doravante, prometo que o amanhã será diferente!

"Galera, é o seguinte: todo mundo sem roupa e ninguém é de ninguém!"

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One Response to eu queria ser um hiato!

  1. Rodrigo Santaella disse:

    O capital está em nós também… cada um é uma maquininha de reprodução do sistema. A pressão não é só paterna, materna… é interna também e daí as grandes angústias que sentimos.

    É preciso resistir e saber que, desde dentro, também sofremos opressão.

    Belo texto, cara!
    Abração.

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