Email aberto a um amigo do Rio

Cabra, cabra, cabra, como vai? Po, e não se esqueça que meu nome não é Johnni. É Johnny, com ipsilon.

Eis que domingo me encontro curtindo uma seresta, ladeado por meu irmão e meu pai, quando surge um senhor negro no alto da praça, às margens da rua 2, rumando para onde a música emanava. Dois carinhas o escoltavam de perto: um, segurava um cabo de microfone, no melhor estilo assistente de som, e o outro, uma camera filmadora. Devia ser algum tipo de documentário sendo produzido ali. O senhor continuou a passada na diagonal, em direção às mesas onde estava a plateia, passou pelo coreto, e logo começou os vários apertos de mão e abraços que daria e receberia nos próximos minutos, qual uma pessoa que revê amigos de muito tempo. E os dois carinhas sempre no encalço, captando cada momento daquilo tudo.

Depois de cumprimentar mais de uma dezena de senhores e senhoras grisalhos, o tal senhor negro foi chamado para subir ao palco, em um dos intervalos entre uma música e outra. O apresentador então o apresentou, falou seu nome, mas não prestei atenção.

Foi o Marcão, o professor de xadrez, que me explicou quem era aquele cabra por quem todos da praça pareciam nutrir vasta admiração.

– Marcão, sabe quem é aquele cara que tá sendo filmado por aqueles outros dois caras?

– Sei sim, é o meu tio, Dom Salvador. O cara é um dos melhores pianistas de Jazz do mundo, mora em Manhattan e tocava com o Frank Sinatra.

Imediatamente, lembrei-me daquela fábula que você me contou certa vez sobre um pianista rioclarense, radicado nos Estados Unidos, ignorado na cidade natal, até ser entrevistado no Jô Soares. Não me esqueço também do tom de indignação que carregava suas palavras.

Pois então, meu caro cabra, não é que o tal Dom Salvador veio fazer uma apresentação nesta nossa querida terrinha? Aconteceu domingo à noite, lá no Casarão da Cultura, em duas sessões. Infelizmente, não pude ir a nenhuma delas, pois, além do evento ser em um horário e dia em que costumo fazer o clássico programa de assistir dvds piratas na casa do meu pai, os ingressos, gratuitos, já tinham se esgotado fazia tempo. Uma pena.

Bom, de novidade, acho só tinha isso pra te contar. Sobre os demais assuntos que me contara em seu último email, fico só na curiosidade pra saber sobre seu novo quartel-general. Entendo claramente essa sua súbita vontade em ter um canto só pra si. É um fenômeno que já vi acontecer bastante na minha faculdade. Mas, diga-me, o que motiva essa sua escolha? Cansou das dores de cabeça de viver em república? Além do mais, morar sozinho não é mais caro?

Cabra, parece-me então que em duas semanas vossa senhoria já estará de volta. Deste modo, deixemos os temas profundos reservados para a conversa in loco.

Sigamos, contudo, trocando nossos emails recheados de relatos superficiais do dia-a-dia e de divagação.

Forte abraço, Johnny

PS: na verdade fiz a correção na primeira linha apenas para fazer o trocadilho com o nome do filme. Corrigir, desse jeito, é coisa de pedante.

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One Response to Email aberto a um amigo do Rio

  1. Biajoni disse:

    hermano, manda-me teu endereço para que eu lhe mande-lhe um livro.
    :>)

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