Uma tarde quente de verão

25 25America/Sao_Paulo janeiro 25America/Sao_Paulo 2010

Januário colhia flores no jardim. Maria regava as plantas no quintal. Eleonora ouvia um disco de vinil. Marcos fumava um cigarro, tranquilamente, na varanda. Geraldo estudava xadrez com seu amigo Onório, na sala de estar. Fátima e Giovana tomavam sorvete na praça da igreja, cantarolando marchinhas de carnaval. Rafael, Renato e Godofredo lembravam das travessuras de infância, riam, gargalhavam, um deles chegou a chorar de tanto riso.

Já eu… bom, eu enfrentava o banco dos réus.

O promotor falava firme, de um jeito convicto e convincente. Os membros do júri o assistiam com aprovação. Meu advogado, todo molhado de suor, nem se mexia. Acho que não estava muito aí, pra falar a verdade. Quem o pagava era o Estado, não eu. Não havia motivos para que gastasse energia em me defender.

Meu corpo podia estar naquele tribunal, mas eu mesmo estava bem longe. Aquele promotor falando me cansava. Preferi pensar em outras coisas. Como em qual seria a história da loira de lenço sentada no banco do júri. Certamente teria um namorado rico que a assistia dos assentos reservados ao público. Olhei para trás para ver se o encontrava. Contei dois velhos, uma velha, um gordo, e uma mulher de cara amarrada e camisa amarela. Cinco pessoas se interessaram pela sorte de um homicida e nenhuma delas era meu parente. Na verdade, identifiquei no gordo o rosto de Pepe, meu colega de esgrima de muitos anos atrás, ainda na adolescência. Naturalmente, ele deve ter abandonado o esporte, a julgar pelo seu físico. Penso que hoje deva ser dono de algum bar, ele sempre dizia que pretendia abrir um bar quando crescesse. Ou talvez fosse mecânico, lembro também que iria começar um curso profissionalizante nessa área.  Depois dos 15 anos, quando saí da esgrima, nunca mais nos vimos.  O que é bem estranho, já que ele morava a apenas um quarteirão da minha casa.

Ergui a mão para o Pepe, mas ele nem se moveu. 30 segundos depois, se levantou e mudou de lugar. Sentou bem atrás da mulher de cara amarrada, de modo que saiu do meu campo de visão. Acho que eu havia me confundido e aquele gordo não era o Pepe. Deve ter se assustado com um homicida lhe acenando com a mão e foi buscar refúgio na silhueta de uma mulher. Dei dois bruscos suspiros e me voltei para o promotor, que continuava falando. Agora ele apontava para mim, gesticulando os braços e alternando o volume da voz, ora mais alta, ora mais baixa. Nem consegui prestar atenção direito do que se tratava toda aquela verborragia. Estava tão cansado que tudo que eu desejava era sair daquele tribunal o mais cedo possível. Meu advogado seguia completamente inerte, coçando as cutículas com as unhas. E eu não tinha o que fazer. Voltei meu olhar pra loira, que por um instante creio que também olhou para mim. Senti no brilho daqueles olhos uma sensação de tristeza. Era bonita, atraente, bem vestida, porém triste. Provavelmente havia se inscrito como candidata a júri para fugir um pouco da rotina sórdida que levava. Não havia namorado rico, no máximo, um marido brutamonte que a tratava como um trapo. Mas mirei seus anelares e estavam livres de alianças. Impossível uma loira como aquela ser solteira.

Quis perguntar ao meu advogado o que ele achava, se ela era solteira ou não. Mas ele continuava coçando as benditas cutículas. O promotor seguia no seu sermão e ele mal dava bola. Certamente pensava em outra coisa. De súbito, terminou com as cutículas e passou as mãos para trás da cabeça, entrecruzando os dedos. Foi nesse instante que me olhou e disse:

– É, acho que você está ferrado.

O promotor terminou sua fala, meu advogado não quis acrescentar mais nada e eu fui condenado a 30 anos de regime fechado. A decisão fora unânime, ou seja, até a loira me achou culpado.

Vadia.

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A sorte não bateu na minha porta – outra vez!

1 01America/Sao_Paulo janeiro 01America/Sao_Paulo 2010

Desgraça! disgrama!, lasquera!

Infindáveis foram os impropérios proferidos por mim, um senhor tão polido e educado, quando soube que aqueles milhões não tinham o destino da minha conta bancária. Me senti traído, traído por mim mesmo, traído pela minha voz interna, que parecia tão sincera e segura de si enquanto ressoava repetidamente “você vai ganhar, você vai ganhar” no momento em que eu abandonava aquela lotérica abarrotada de esperançosos.

É claro que não era a primeira vez. Essa voz já me acompanha há um certo tempo, desde o dia em que decidi que viraria milionário sem escravizar negros mediante o salário mínimo, muito menos vendendo minha força de trabalho. Acontece que dessa vez ela tinha um quê de existir mesmo, tinha consistência e entonação, como a voz daquelas videntes que nossas sobrinhas bestas vão de vez em quando pra saber sobre a sorte no amor. Parecia também uma voz mais aveludada.

Logo no 07, ela apareceu de sopetão, centralizando todas as minhas atenções de ser pensante. Ali, já sabia que em poucos dias estaria milionário. No 09, comecei a pensar onde investiria toda aquela bolada. De início, realizaria os meus sonhos de consumo mais imediatos: uma bateria, um teclado, uma flauta transversal, uma máquina fotográfica, uma trenzinho elétrico, uma camisa do Ronaldo e um curso de equitação. Finalmente compraria um cavalo! Talvez também adquirisse um sítio nas montanhas.

No 11, já pensei nos entes que ajudaria. Daria uma mansão pra minha empregada, a Jeovânia. Pra minha mãe, a Maria Helena (já repararam nesse costume nosso de nomear os pobres com nomes supostamente ridículos?), daria um quadro dos beatles, 3×4, pra tomar a parede inteira de sua suíte no asilo em que vive, na Ilha de Caras. Para meu pai, compraria uma fantasia do batman. Ao irmão, um ingresso de camarote para a final da Copa dos Campeões, e à sogra, uma passagem só de ida para o Iraque.

No 13, a megalomania ficou maior. Pensei: por quê não financiar uma organização pra tomar o poder no país?! Daria dinheiro para qualquer movimentinho social de coloração mais vermelha, tipo MST, PSTU, Liga dos Camponeses Pobres ou uma outra que vi dia desse, a Pão e Flores. Derrubariam a burguesia do poder, instalariam a ditadura do proletariado rumo ao socialismo libertário! Estaríamos livres da amarra do capitalismo, dos capitalistas, das jornadas exaustivas de trabalho e seria o fim da exploração do homem pelo homem!! Todos viveríamos felizes, saudáveis, e com muito pão de ló em nossa mesa de café, tudo graças a mim!!!

Quando rabisquei o 31, achei por bem que…não, melhor deixar como está. Esses comunistas poderiam querer roubar minha bateria ou cancelar meu curso de equitação. Lembrei então que poderia ajudar pessoas de outra forma, via instituições de caridade. Doaria milhões para projetos sociais que dessem sopa de feijão para mendigos, que pagassem palhaços para alegrar crianças com câncer em estado terminal ou que ensinassem adultos analfabetos a escrever o próprio nome. Ta aí, já era, poderia dormir tranquilo, se bobear apareceria até no Luciano Huck vestindo a manta dos homens bons.

No derradeiro 49, um sopro de individualismo bateu nas minhas têmporas: foda-se todos, essa grana vai ficar é só pra mim! Pra mim! Só pra mim!

Foda-se a mansão da Jeovânia, a fantasia do batman e as crianças moribundas. Usarei cada centavo dos milhões que ganharei única e exclusivamente para meu bel-prazer. Se amigos e familiares me abandonarem, acusando egoísmo, foda-se!, eu comprarei novos. Ao invés de uma bateria, comprarei a Orquestra Sinfônica de Berlim! No lugar de um trenzinho elétrico, comprarei o Expresso do Oriente! E esqueça a camisa do Ronaldo, agora comprarei o seu passe! E ainda dormirei com sua mulher!!

Mas foi aí que hoje, sentado no sofá da sala, era um poquinho depois do almoço, o apresentador do telejornal, sorridente como sempre, me passa a informação: 10 – 27 – 40 – 46 – 49 – 58.

Desliguei então a TV, pus a coleira na cachorra e fui passear pela rua. Fazia uma bela tarde de sol.

Quadro 3×4 que daria à minha mãe