A sorte não bateu na minha porta – outra vez!

Desgraça! disgrama!, lasquera!

Infindáveis foram os impropérios proferidos por mim, um senhor tão polido e educado, quando soube que aqueles milhões não tinham o destino da minha conta bancária. Me senti traído, traído por mim mesmo, traído pela minha voz interna, que parecia tão sincera e segura de si enquanto ressoava repetidamente “você vai ganhar, você vai ganhar” no momento em que eu abandonava aquela lotérica abarrotada de esperançosos.

É claro que não era a primeira vez. Essa voz já me acompanha há um certo tempo, desde o dia em que decidi que viraria milionário sem escravizar negros mediante o salário mínimo, muito menos vendendo minha força de trabalho. Acontece que dessa vez ela tinha um quê de existir mesmo, tinha consistência e entonação, como a voz daquelas videntes que nossas sobrinhas bestas vão de vez em quando pra saber sobre a sorte no amor. Parecia também uma voz mais aveludada.

Logo no 07, ela apareceu de sopetão, centralizando todas as minhas atenções de ser pensante. Ali, já sabia que em poucos dias estaria milionário. No 09, comecei a pensar onde investiria toda aquela bolada. De início, realizaria os meus sonhos de consumo mais imediatos: uma bateria, um teclado, uma flauta transversal, uma máquina fotográfica, uma trenzinho elétrico, uma camisa do Ronaldo e um curso de equitação. Finalmente compraria um cavalo! Talvez também adquirisse um sítio nas montanhas.

No 11, já pensei nos entes que ajudaria. Daria uma mansão pra minha empregada, a Jeovânia. Pra minha mãe, a Maria Helena (já repararam nesse costume nosso de nomear os pobres com nomes supostamente ridículos?), daria um quadro dos beatles, 3×4, pra tomar a parede inteira de sua suíte no asilo em que vive, na Ilha de Caras. Para meu pai, compraria uma fantasia do batman. Ao irmão, um ingresso de camarote para a final da Copa dos Campeões, e à sogra, uma passagem só de ida para o Iraque.

No 13, a megalomania ficou maior. Pensei: por quê não financiar uma organização pra tomar o poder no país?! Daria dinheiro para qualquer movimentinho social de coloração mais vermelha, tipo MST, PSTU, Liga dos Camponeses Pobres ou uma outra que vi dia desse, a Pão e Flores. Derrubariam a burguesia do poder, instalariam a ditadura do proletariado rumo ao socialismo libertário! Estaríamos livres da amarra do capitalismo, dos capitalistas, das jornadas exaustivas de trabalho e seria o fim da exploração do homem pelo homem!! Todos viveríamos felizes, saudáveis, e com muito pão de ló em nossa mesa de café, tudo graças a mim!!!

Quando rabisquei o 31, achei por bem que…não, melhor deixar como está. Esses comunistas poderiam querer roubar minha bateria ou cancelar meu curso de equitação. Lembrei então que poderia ajudar pessoas de outra forma, via instituições de caridade. Doaria milhões para projetos sociais que dessem sopa de feijão para mendigos, que pagassem palhaços para alegrar crianças com câncer em estado terminal ou que ensinassem adultos analfabetos a escrever o próprio nome. Ta aí, já era, poderia dormir tranquilo, se bobear apareceria até no Luciano Huck vestindo a manta dos homens bons.

No derradeiro 49, um sopro de individualismo bateu nas minhas têmporas: foda-se todos, essa grana vai ficar é só pra mim! Pra mim! Só pra mim!

Foda-se a mansão da Jeovânia, a fantasia do batman e as crianças moribundas. Usarei cada centavo dos milhões que ganharei única e exclusivamente para meu bel-prazer. Se amigos e familiares me abandonarem, acusando egoísmo, foda-se!, eu comprarei novos. Ao invés de uma bateria, comprarei a Orquestra Sinfônica de Berlim! No lugar de um trenzinho elétrico, comprarei o Expresso do Oriente! E esqueça a camisa do Ronaldo, agora comprarei o seu passe! E ainda dormirei com sua mulher!!

Mas foi aí que hoje, sentado no sofá da sala, era um poquinho depois do almoço, o apresentador do telejornal, sorridente como sempre, me passa a informação: 10 – 27 – 40 – 46 – 49 – 58.

Desliguei então a TV, pus a coleira na cachorra e fui passear pela rua. Fazia uma bela tarde de sol.

Quadro 3×4 que daria à minha mãe
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One Response to A sorte não bateu na minha porta – outra vez!

  1. Vanessa Silva disse:

    Nossa… eu sinto mto por vc não ter sido agraciado com esta fortuna! Quem sabe vc não resolveria abrir uma rádio sobre a América Latina no meio de alguma ilha paradisíaca no Caribe (a esta altura não pode ser no Haiti) e então eu poderia tirar uma lasquinha.
    Realmente, estou desapontada!

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