Uma tarde quente de verão

Januário colhia flores no jardim. Maria regava as plantas no quintal. Eleonora ouvia um disco de vinil. Marcos fumava um cigarro, tranquilamente, na varanda. Geraldo estudava xadrez com seu amigo Onório, na sala de estar. Fátima e Giovana tomavam sorvete na praça da igreja, cantarolando marchinhas de carnaval. Rafael, Renato e Godofredo lembravam das travessuras de infância, riam, gargalhavam, um deles chegou a chorar de tanto riso.

Já eu… bom, eu enfrentava o banco dos réus.

O promotor falava firme, de um jeito convicto e convincente. Os membros do júri o assistiam com aprovação. Meu advogado, todo molhado de suor, nem se mexia. Acho que não estava muito aí, pra falar a verdade. Quem o pagava era o Estado, não eu. Não havia motivos para que gastasse energia em me defender.

Meu corpo podia estar naquele tribunal, mas eu mesmo estava bem longe. Aquele promotor falando me cansava. Preferi pensar em outras coisas. Como em qual seria a história da loira de lenço sentada no banco do júri. Certamente teria um namorado rico que a assistia dos assentos reservados ao público. Olhei para trás para ver se o encontrava. Contei dois velhos, uma velha, um gordo, e uma mulher de cara amarrada e camisa amarela. Cinco pessoas se interessaram pela sorte de um homicida e nenhuma delas era meu parente. Na verdade, identifiquei no gordo o rosto de Pepe, meu colega de esgrima de muitos anos atrás, ainda na adolescência. Naturalmente, ele deve ter abandonado o esporte, a julgar pelo seu físico. Penso que hoje deva ser dono de algum bar, ele sempre dizia que pretendia abrir um bar quando crescesse. Ou talvez fosse mecânico, lembro também que iria começar um curso profissionalizante nessa área.  Depois dos 15 anos, quando saí da esgrima, nunca mais nos vimos.  O que é bem estranho, já que ele morava a apenas um quarteirão da minha casa.

Ergui a mão para o Pepe, mas ele nem se moveu. 30 segundos depois, se levantou e mudou de lugar. Sentou bem atrás da mulher de cara amarrada, de modo que saiu do meu campo de visão. Acho que eu havia me confundido e aquele gordo não era o Pepe. Deve ter se assustado com um homicida lhe acenando com a mão e foi buscar refúgio na silhueta de uma mulher. Dei dois bruscos suspiros e me voltei para o promotor, que continuava falando. Agora ele apontava para mim, gesticulando os braços e alternando o volume da voz, ora mais alta, ora mais baixa. Nem consegui prestar atenção direito do que se tratava toda aquela verborragia. Estava tão cansado que tudo que eu desejava era sair daquele tribunal o mais cedo possível. Meu advogado seguia completamente inerte, coçando as cutículas com as unhas. E eu não tinha o que fazer. Voltei meu olhar pra loira, que por um instante creio que também olhou para mim. Senti no brilho daqueles olhos uma sensação de tristeza. Era bonita, atraente, bem vestida, porém triste. Provavelmente havia se inscrito como candidata a júri para fugir um pouco da rotina sórdida que levava. Não havia namorado rico, no máximo, um marido brutamonte que a tratava como um trapo. Mas mirei seus anelares e estavam livres de alianças. Impossível uma loira como aquela ser solteira.

Quis perguntar ao meu advogado o que ele achava, se ela era solteira ou não. Mas ele continuava coçando as benditas cutículas. O promotor seguia no seu sermão e ele mal dava bola. Certamente pensava em outra coisa. De súbito, terminou com as cutículas e passou as mãos para trás da cabeça, entrecruzando os dedos. Foi nesse instante que me olhou e disse:

– É, acho que você está ferrado.

O promotor terminou sua fala, meu advogado não quis acrescentar mais nada e eu fui condenado a 30 anos de regime fechado. A decisão fora unânime, ou seja, até a loira me achou culpado.

Vadia.

Anúncios

One Response to Uma tarde quente de verão

  1. cesare disse:

    haha
    bom personagem o seu homicida… como ele lida com o fato de ter matado [ou não] alguém… como ele finge que se interessa mais pela loura que pelo destino… e o asco!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: