Dignos são aqueles que não temem o horizonte

22 22America/Sao_Paulo fevereiro 22America/Sao_Paulo 2010

Toda quarta semana do mês de maio o processo se repetia igualzinho ao ano anterior. “É assim desde a época que os animais falavam”, garantia minha finada vó Nita. Naqueles derradeiros dias de primavera, todos os moradores e moradoras da então Vila de Botucatu, com exceção dos idosos, crianças e incapazes, tomavam um largo fôlego, agarravam suas ferramentas e partiam fazenda adentro, dando início ao temido período da Colheita. Eu, quando já jovem, também comecei a participar dessa aventura nada dignificante.

Montados em burros, cavalos e jumentos, cruzávamos aquele pedaço de terra com grande resignação, sabendo que o que nos esperavam eram os dias mais cansativos do ano. Posso afirmar categoricamente que o sentimento geral era o de se estar percorrendo uma espécie de via cruci. Sentimento que ganhava mais significado ainda em razão de que aquela estrada de chão, por onde trotavam nossas montarias, também era conhecida como Estrada dos Castigados, uma alusão aos escravos rebeldes de outrora. Ou seja, a penitência por aquele trecho não era novidade.

Um detalhe importante que sempre marcou nossas peregrinações era o silêncio, digno de velório. Só se ouvia o barulho de eventuais espirros e tosses e olhe lá. Bocejos eram tacitamente proibidos. Barulho mesmo só o dos uivos do vento que soprava da Serrana, o das ferraduras de nossos jegues se chocando contra o solo e o dos sibilos dos pintassilgos que habitavam a paisagem, sibilos estes que estavam mais para melodia do que propriamente um barulho, é bom dizer.

E seguíamos nessa toada. Em silêncio, resignados e embalados por pintassilgos.

A Colheita era algo implacável, que nos abalava profundamente e que traumatizava. Eram 10 dias de trabalho incessante, que começava tão cedo o sol aparecesse no horizonte até o momento em que ele desse lugar às demais estrelas do universo. Pausas só para necessidades básicas, como comer e evacuar. Nos alimentávamos apenas duas vezes ao dia, tais quais cachorros, e a noite era reservada para o descanso total de todos. Não havia meio termos nem exceções e quem não se encaixasse era imediatamente expulso da Vila de Botucatu. Os encarregados da vigília e punição eram homens de lenços na cabeça, chamados de Capatazes. Não eram violentos nem temidos, apenas disciplinados e obedientes. Faziam o que lhes eram designados fazer.

Como já disse acima, aqueles que não se encaixavam nas normas que regiam a Colheita eram então obrigados a deixar a Vila de Botucatu. Isso significava se exilar de amigos, familiares, e, em algumas vezes, se exilar até do próprio cônjuge e filhos. Os Exilados, como ficou conhecido esse grupo de pessoas, costumavam migrar para longe. Uns iam para novos vilarejos de fazendas, buscando reerguer a vida, outros rumavam para as cidades, a mendigar trabalho na porta de alguma fábrica de tecelagem. Alguns ainda se deslocavam até o Porto de Santos, para trabalhar como estivadores, e uma minoria se arriscava nos garimpos de Minas Gerais. Isso tudo eu só fui descobrir depois, porque dessa gente era raro termos notícias de novo. Naqueles remotos tempos, o exílio tinha significado mais ou menos parecido com  a morte.

Mas, a bem da verdade, não era um trabalho totalmente impossível de se aguentar. Tanto o é que durante todos os anos em que trabalhei na Colheita – e olha que foram muitos –, pude contar somente cinco camponeses de nossa vila que foram expulsos pelos Capatazes. Apenas um me era conhecido: o Zé Mário, vizinho nosso de casa. Era solteiro, ainda bem, mas tinha dois irmãos e morava com a mãe, já bem velhinha quando desse acontecimento. Três meses depois ela faleceu, dizem que por tristeza.

No décimo e último dia de trabalho, por mais que todos estivéssemos extenuados, física e emocionalmente, já era possível sentir uma energia mais positiva pairando na atmosfera. Sabíamos que aqueles eram os últimos balaios a serem carregados e os últimos sacos a serem preenchidos. Na manhã seguinte estaríamos fazendo o caminho de volta pela Estrada dos Castigados, rumo ao conforto de nossos lares. Aquele que tinha a percepção mais aguçada podia notar que até os Capatazes estavam diferentes, mais avoados e distraídos, como se também desejassem ver o tempo passar logo.

Pois foi num desses “décimos dias”, de algum ano de uma década passada, que eu tomei a decisão que aquela vida não era mais pra mim. Sentia um descontentamento com aquela rotina e com aquela falta de perspectiva que o tempo só fez crescer. Não queria mais ter que enfrentar a Colheita, mesmo sendo por apenas 10 dias do ano. Começava a ter ambição.

Certa manhã, em meio a lágrimas, resolvi partir. Era a primeira pessoa a se auto-exilar na história da Vila de Botucatu. Deixei família e amigos rumo a uma cidade que já se esboçava metrópole. Munido apenas da cara e da coragem, fui mendigar trabalho numa fábrica de tecelagem. Lá, estou até hoje.


A repressão não pode parar

14 14America/Sao_Paulo fevereiro 14America/Sao_Paulo 2010

Os norte-riograndenses jamais poderiam imaginar que dentro dos limites de seu glorioso estado jazia a cidade do pecado. Seu nome não poderia ser menos tenso: Cruzeta.

A descoberta demorou décadas, mas, como Deus é justo, um dia aconteceu. Coube ao heróico delegado da comarca, um dos poucos cruzetenses que ainda prezam pelos costumes de cidadão de bem, a revelação bombástica e tacanha que balançou os nossos brios.

Os demais moradores, fugazes e traiçoeiros moradores, sempre se fizeram de cordeiros a vagar tranquilamente pelas calçadas e ruas daquele perímetro de sertão. Raríssimas eram as exceções. A esmagadora maioria entretanto não passava de raposas cultivando a desordem, a maledicência e, pior, cultivavam também a planta originária de toda aquela instabilidade.

Afinal como foi que deixaram isso acontecer em Cruzeta? Como aquilo era possível, meu deus, numa terra em que se acreditava tanto que fosse abençoada pelos altos santos que protegem nosso país? Não se sabe.

Só resta agora às autoridades máximas do governo a destruição por completo desse registro triste que marcou o Rio Grande Norte. Num estado com uma história de admirar inglês, palco de bases aéreas norte-americanas na Segunda Grande Guerra e berço de gente guerreira como Garibaldo Alves, deixar que a insignificante Cruzeta surja como uma mancha negra a sujar todo um passado edificante é inconcebível!

É por isso que ganham forças as vozes que pregam pelo incêndio total da cidade – vozes das quais a deste narrador se inclui. A morada do Diabo se reduziria a cinzas. Não sobraria nenhuma casa, nem escolas, nem jardins, apenas a igreja oficial. Todo esboço de pecado que um dia pairou sobre Cruzeta na forma de fumaça se faria consumido pelo calor das labaredas purificantes.

A população seria poupada do calor do fogo, mas não do rigor da punição. Todos seriam prontamente conduzidos à masmorra mais próxima, se juntando aos ateus e comunistas. Apenas aqueles que o heróico delegado declarasse inocentes estariam livres. “Todo poder ao delegado” são as palavras de ordem da vez.

Os norte-riograndenses jamais poderiam imaginar que Cruzeta fosse capaz daquilo que o mundo hoje já sabe. Mas, para o contragosto dos infiéis, ainda há os bravos dispostos a lutar o bom combate. A repressão não pode parar.