A repressão não pode parar

Os norte-riograndenses jamais poderiam imaginar que dentro dos limites de seu glorioso estado jazia a cidade do pecado. Seu nome não poderia ser menos tenso: Cruzeta.

A descoberta demorou décadas, mas, como Deus é justo, um dia aconteceu. Coube ao heróico delegado da comarca, um dos poucos cruzetenses que ainda prezam pelos costumes de cidadão de bem, a revelação bombástica e tacanha que balançou os nossos brios.

Os demais moradores, fugazes e traiçoeiros moradores, sempre se fizeram de cordeiros a vagar tranquilamente pelas calçadas e ruas daquele perímetro de sertão. Raríssimas eram as exceções. A esmagadora maioria entretanto não passava de raposas cultivando a desordem, a maledicência e, pior, cultivavam também a planta originária de toda aquela instabilidade.

Afinal como foi que deixaram isso acontecer em Cruzeta? Como aquilo era possível, meu deus, numa terra em que se acreditava tanto que fosse abençoada pelos altos santos que protegem nosso país? Não se sabe.

Só resta agora às autoridades máximas do governo a destruição por completo desse registro triste que marcou o Rio Grande Norte. Num estado com uma história de admirar inglês, palco de bases aéreas norte-americanas na Segunda Grande Guerra e berço de gente guerreira como Garibaldo Alves, deixar que a insignificante Cruzeta surja como uma mancha negra a sujar todo um passado edificante é inconcebível!

É por isso que ganham forças as vozes que pregam pelo incêndio total da cidade – vozes das quais a deste narrador se inclui. A morada do Diabo se reduziria a cinzas. Não sobraria nenhuma casa, nem escolas, nem jardins, apenas a igreja oficial. Todo esboço de pecado que um dia pairou sobre Cruzeta na forma de fumaça se faria consumido pelo calor das labaredas purificantes.

A população seria poupada do calor do fogo, mas não do rigor da punição. Todos seriam prontamente conduzidos à masmorra mais próxima, se juntando aos ateus e comunistas. Apenas aqueles que o heróico delegado declarasse inocentes estariam livres. “Todo poder ao delegado” são as palavras de ordem da vez.

Os norte-riograndenses jamais poderiam imaginar que Cruzeta fosse capaz daquilo que o mundo hoje já sabe. Mas, para o contragosto dos infiéis, ainda há os bravos dispostos a lutar o bom combate. A repressão não pode parar.



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