Dignos são aqueles que não temem o horizonte

Toda quarta semana do mês de maio o processo se repetia igualzinho ao ano anterior. “É assim desde a época que os animais falavam”, garantia minha finada vó Nita. Naqueles derradeiros dias de primavera, todos os moradores e moradoras da então Vila de Botucatu, com exceção dos idosos, crianças e incapazes, tomavam um largo fôlego, agarravam suas ferramentas e partiam fazenda adentro, dando início ao temido período da Colheita. Eu, quando já jovem, também comecei a participar dessa aventura nada dignificante.

Montados em burros, cavalos e jumentos, cruzávamos aquele pedaço de terra com grande resignação, sabendo que o que nos esperavam eram os dias mais cansativos do ano. Posso afirmar categoricamente que o sentimento geral era o de se estar percorrendo uma espécie de via cruci. Sentimento que ganhava mais significado ainda em razão de que aquela estrada de chão, por onde trotavam nossas montarias, também era conhecida como Estrada dos Castigados, uma alusão aos escravos rebeldes de outrora. Ou seja, a penitência por aquele trecho não era novidade.

Um detalhe importante que sempre marcou nossas peregrinações era o silêncio, digno de velório. Só se ouvia o barulho de eventuais espirros e tosses e olhe lá. Bocejos eram tacitamente proibidos. Barulho mesmo só o dos uivos do vento que soprava da Serrana, o das ferraduras de nossos jegues se chocando contra o solo e o dos sibilos dos pintassilgos que habitavam a paisagem, sibilos estes que estavam mais para melodia do que propriamente um barulho, é bom dizer.

E seguíamos nessa toada. Em silêncio, resignados e embalados por pintassilgos.

A Colheita era algo implacável, que nos abalava profundamente e que traumatizava. Eram 10 dias de trabalho incessante, que começava tão cedo o sol aparecesse no horizonte até o momento em que ele desse lugar às demais estrelas do universo. Pausas só para necessidades básicas, como comer e evacuar. Nos alimentávamos apenas duas vezes ao dia, tais quais cachorros, e a noite era reservada para o descanso total de todos. Não havia meio termos nem exceções e quem não se encaixasse era imediatamente expulso da Vila de Botucatu. Os encarregados da vigília e punição eram homens de lenços na cabeça, chamados de Capatazes. Não eram violentos nem temidos, apenas disciplinados e obedientes. Faziam o que lhes eram designados fazer.

Como já disse acima, aqueles que não se encaixavam nas normas que regiam a Colheita eram então obrigados a deixar a Vila de Botucatu. Isso significava se exilar de amigos, familiares, e, em algumas vezes, se exilar até do próprio cônjuge e filhos. Os Exilados, como ficou conhecido esse grupo de pessoas, costumavam migrar para longe. Uns iam para novos vilarejos de fazendas, buscando reerguer a vida, outros rumavam para as cidades, a mendigar trabalho na porta de alguma fábrica de tecelagem. Alguns ainda se deslocavam até o Porto de Santos, para trabalhar como estivadores, e uma minoria se arriscava nos garimpos de Minas Gerais. Isso tudo eu só fui descobrir depois, porque dessa gente era raro termos notícias de novo. Naqueles remotos tempos, o exílio tinha significado mais ou menos parecido com  a morte.

Mas, a bem da verdade, não era um trabalho totalmente impossível de se aguentar. Tanto o é que durante todos os anos em que trabalhei na Colheita – e olha que foram muitos –, pude contar somente cinco camponeses de nossa vila que foram expulsos pelos Capatazes. Apenas um me era conhecido: o Zé Mário, vizinho nosso de casa. Era solteiro, ainda bem, mas tinha dois irmãos e morava com a mãe, já bem velhinha quando desse acontecimento. Três meses depois ela faleceu, dizem que por tristeza.

No décimo e último dia de trabalho, por mais que todos estivéssemos extenuados, física e emocionalmente, já era possível sentir uma energia mais positiva pairando na atmosfera. Sabíamos que aqueles eram os últimos balaios a serem carregados e os últimos sacos a serem preenchidos. Na manhã seguinte estaríamos fazendo o caminho de volta pela Estrada dos Castigados, rumo ao conforto de nossos lares. Aquele que tinha a percepção mais aguçada podia notar que até os Capatazes estavam diferentes, mais avoados e distraídos, como se também desejassem ver o tempo passar logo.

Pois foi num desses “décimos dias”, de algum ano de uma década passada, que eu tomei a decisão que aquela vida não era mais pra mim. Sentia um descontentamento com aquela rotina e com aquela falta de perspectiva que o tempo só fez crescer. Não queria mais ter que enfrentar a Colheita, mesmo sendo por apenas 10 dias do ano. Começava a ter ambição.

Certa manhã, em meio a lágrimas, resolvi partir. Era a primeira pessoa a se auto-exilar na história da Vila de Botucatu. Deixei família e amigos rumo a uma cidade que já se esboçava metrópole. Munido apenas da cara e da coragem, fui mendigar trabalho numa fábrica de tecelagem. Lá, estou até hoje.

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