Um curioso caso no hemisfério sul do planeta

28 28America/Sao_Paulo maio 28America/Sao_Paulo 2010

Magníficos e magníficas, saibam, pois, que retorno do esconderijo onde por muito tempo me escondi para finalmente experienciar as glórias dos abençoados. Foram anos e anos de isolamento, é verdade, de sentimentos que beiravam a loucura, mas nada nessa vida é pra sempre, já dizia o poeta. Perguntarão quem eu sou, o que andei fazendo, por onde estive, e as respostas não serão facilmente concedidas. Mas já adianto uma coisa: a culpa não é minha!!

Estive a voar por castelos erguidos por emoções das pessoas que trabalham, a caminhar pelos caminhos abertos na mata da soberba. Sabe-se, porém, que tudo foi muito mais simples que as palavras podem explicar. É uma questão de conotação.  De sentido figurado. A vida é muitas vezes malgrada, mas em outras tantas tem lá seus momentos de magnitude.

Durante a ausência, um tanto quanto forçada, um tanto quanto espontânea, pude aventar-me por belas letras maravilhosas, dessas que nos tiram do chão e nos alçam às alturas. Experimentei os ares das montanhas incas pela primeira vez e posso lhes assegurar que são ares diferentes. Respirava fundo e meus pulmões se preenchiam de uma forma única, ímpar e singular, de uma forma que me fez até estranhar no princípio, mas que logo na sequência já me era extremamente agradável. Minha gente do meu coração, a experiência foi-me tão radiante que quero que prestem atenção no seguinte: quero que prestem atenção nos ares puros quando cruzarem com eles.

Quero que prestem atenção nas profundezas do mar e na umidade da floresta. Alcei vôos altos, é verdade, mas ainda assim um pouquinho da perna permanecia no térreo. Por isso sei muito bem do que estou falando – e malditos são aqueles que me contestam ou que me condenam.

No princípio era o verbo. Depois, o voo.

Outro fato misterioso e bonito de se contar foi quando perambulei por manequins falantes e não entendi muito bem porquê. Dizem-me que era obra de um amigo, um amigo misterioso, que dava vida à manequins, e, pior, os faziam falantes. Fato que me perturbou um pouco de início, tenho que confessar, mas depois me acostumei. Afinal de contas, são tantas as loucuras pelas quais me deparo diariamente nas páginas amareladas das revistas, que, com o tempo, a gente se habitua a tudo, sem excessão de raça, credo ou time de futebol.

Ouvi também o tão falado Concerto do Universo. Obra de Deus, dizem, mas que contou com a presença de outros astros de grande porte e igualmente venerados pelos povos de nosso planeta. Lembra-se da história que a música é magia? Diria mais: a música é uma ponte! A ponte que nos liga ao plano etéreo e magnífico que dizem existir em alguma realidade paralela. A música que nos faz sentir a alma em determinados momentos e acho que é disso que se trata a música. Pois imaginem o que foi o grande Concerto do Universo!!

E, por último, mas não menos importante, lancei-me em corridas extravagantes por certos cantos do país. Conheci gente nova e bonita, outras feias e chatas, outras feias e simpáticas, e outras barbadas e inconvenientes. Cada vez mais sinto que o mundo é mais heterogêneo do que penso, e vejo isso com bons olhos, por incrível que pareça. O leque de escolha é interminável. Assim, meu nobre povo, podem ter certeza de que nunca terminaremos sozinhos. Basta que tenhamos a coragem de sairmos de dentro de si, como já dizia, novamente, um velho e barrigudo poeta.

Me despeço de todos e de todas (muito obrigado pela atenção dispendida até esta altura!) com uma frase que li no parachoque de um caminhão, enquanto voltava de minha viagem ao planalto central do Equador:

A maior de todas as pobrezas é a de espírito. Sejamos grandes, sejamos nobres, ainda que do nosso jeito.

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Aprendendo a “dessonhar”

26 26America/Sao_Paulo maio 26America/Sao_Paulo 2010

Desde muitos anos atrás eu tenho um sonho. Já tive vários em minha vida, mas esse eu acho que é especial. Só o simples ato de pensá-lo já me faz sentir grande, perfeito, querido. Como nenhum outro sonho que já tive antes. Adoro esse meu sonho: é a minha válvula de escape.

Mas já fazem muitos anos que incubo esse sonho e até agora caminhei muito pouco. Diria que muito menos do que havia planejado inicialmente, tal qual todos os outros sonhos que já tive (mas esse é diferente, esse é especial). No começo, lembro-me bem, era tudo muito bonito e palpável, mas agora, com a idade, parece-me que o estou perdendo entre os dedos das mãos. Nesse período todo, acabei por notar um grande inimigo dos sonhos: o tempo. O tempo é implacável. Não para. Nunca.

Olho pra trás e vejo o quanto de tempo que desperdicei, olho pra frente e vejo o tempo se esgotando. O prazo final é logo ali. Mas ainda estou longe, muito longe, e não vejo muita perspectiva, pra falar a verdade. Uma pena, pois no começo era diferente e esse sonho é especial.

Jamais me esquecerei de uma propaganda que vi na TV, certa vez. Falava de um carinha que tinha um sonho e resolveu correr atrás. Conseguiu, parece que não demorou muito tempo. No final, ele arrancava com um carro vermelho, acompanhado de uma loira no banco de carona, numa estrada bem asfaltada, sob um céu azul e com raios de sol. Esse foi um dos dias que me deu um gás pra continuar atrás do meu sonho. Sempre que bate um desânimo, lembro desse dia. Volto a pensar positivo. Pra mais tarde bater o desânimo. Pra depois eu voltar a lembrar daquele dia.

Na infância, de certa forma, era mais fácil: tinha um sonho diferente por semana. Era cercado por revistas, jornais e uma televisão. Conhecia um pouquinho do mundo a todo momento. Um dia descobria o deserto, outro dia, que havia o espaço. Via fotos de caminhões de bombeiro, assistia a jogadores de futebol felizes. Tinha o policial prendendo o bandido. Um submarino, um piloto de avião. Cientistas com jalecos brancos eram coisas legais também. Astros do Rock.

Na infância, de certa forma, não havia esse negócio de medo do tempo. Ele (o tempo)era  tão grande, mas tão grande, que poderia ser considerado infinito, assim como é o 0,99999… na matemática. Todos os nossos sonhos eram possíveis e tínhamos prazos ilimitados para corrermos atrás deles. Se hoje não dava, sempre havia o amanhã. Os amanhãs eram intermináveis.

Chegou um fatídico dia, não me lembro exatamente qual, que o vento da razão soprou pelos meus pensamentos. Acho que não foi bem um dia, é bom que se diga, mas sim todo um processo que culminou num dia. Num dia que me dei conta de que haviam prazos. Num dia que uma das cortinas da vida caiu e o infinito tornou-se finito. Não que eu não soubesse da finitude das coisas, saber eu sabia: eu apenas não a sentia. E quando a senti pela primeira vez, foi em forma de um calafrio, que se instalou na parte baixa do meu ventre e depois correu tremulante por toda a extensão de minha espinha dorsal.

Acho que foi nesse dia que minha infância acabou. Um dos dias mais tristes da minha vida.