Aprendendo a “dessonhar”

Desde muitos anos atrás eu tenho um sonho. Já tive vários em minha vida, mas esse eu acho que é especial. Só o simples ato de pensá-lo já me faz sentir grande, perfeito, querido. Como nenhum outro sonho que já tive antes. Adoro esse meu sonho: é a minha válvula de escape.

Mas já fazem muitos anos que incubo esse sonho e até agora caminhei muito pouco. Diria que muito menos do que havia planejado inicialmente, tal qual todos os outros sonhos que já tive (mas esse é diferente, esse é especial). No começo, lembro-me bem, era tudo muito bonito e palpável, mas agora, com a idade, parece-me que o estou perdendo entre os dedos das mãos. Nesse período todo, acabei por notar um grande inimigo dos sonhos: o tempo. O tempo é implacável. Não para. Nunca.

Olho pra trás e vejo o quanto de tempo que desperdicei, olho pra frente e vejo o tempo se esgotando. O prazo final é logo ali. Mas ainda estou longe, muito longe, e não vejo muita perspectiva, pra falar a verdade. Uma pena, pois no começo era diferente e esse sonho é especial.

Jamais me esquecerei de uma propaganda que vi na TV, certa vez. Falava de um carinha que tinha um sonho e resolveu correr atrás. Conseguiu, parece que não demorou muito tempo. No final, ele arrancava com um carro vermelho, acompanhado de uma loira no banco de carona, numa estrada bem asfaltada, sob um céu azul e com raios de sol. Esse foi um dos dias que me deu um gás pra continuar atrás do meu sonho. Sempre que bate um desânimo, lembro desse dia. Volto a pensar positivo. Pra mais tarde bater o desânimo. Pra depois eu voltar a lembrar daquele dia.

Na infância, de certa forma, era mais fácil: tinha um sonho diferente por semana. Era cercado por revistas, jornais e uma televisão. Conhecia um pouquinho do mundo a todo momento. Um dia descobria o deserto, outro dia, que havia o espaço. Via fotos de caminhões de bombeiro, assistia a jogadores de futebol felizes. Tinha o policial prendendo o bandido. Um submarino, um piloto de avião. Cientistas com jalecos brancos eram coisas legais também. Astros do Rock.

Na infância, de certa forma, não havia esse negócio de medo do tempo. Ele (o tempo)era  tão grande, mas tão grande, que poderia ser considerado infinito, assim como é o 0,99999… na matemática. Todos os nossos sonhos eram possíveis e tínhamos prazos ilimitados para corrermos atrás deles. Se hoje não dava, sempre havia o amanhã. Os amanhãs eram intermináveis.

Chegou um fatídico dia, não me lembro exatamente qual, que o vento da razão soprou pelos meus pensamentos. Acho que não foi bem um dia, é bom que se diga, mas sim todo um processo que culminou num dia. Num dia que me dei conta de que haviam prazos. Num dia que uma das cortinas da vida caiu e o infinito tornou-se finito. Não que eu não soubesse da finitude das coisas, saber eu sabia: eu apenas não a sentia. E quando a senti pela primeira vez, foi em forma de um calafrio, que se instalou na parte baixa do meu ventre e depois correu tremulante por toda a extensão de minha espinha dorsal.

Acho que foi nesse dia que minha infância acabou. Um dos dias mais tristes da minha vida.

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