Sem pé nem cabeça

23 23America/Sao_Paulo junho 23America/Sao_Paulo 2010

Há muito tempo nas águas do São Francisco, dois homens conjecturavam entre si se mais valia a pena atravessar a nado a via d’água que se apresentava adiante ou andar cerca de 10 km em direção à ponte mais próxima. O primeiro, o mais velho, arguiu:

– Somos feitos de carne, cabelo e, sobretudo, muita coragem! Nasci homem e pretendo morrer homem, saiba tu! Nado 100 quilômetros, se necessário, mas jamais temerei diante de qualquer obstáculo que se aventure em meu caminho, seja ele grande, pequeno ou imaginário!

– Bartolomeu, muita calma nessa hora. O rio não está pra peixe, tampouco pra nado. Tens vida farta pela frente. Não vai querer deixar viúva tua mulher nem órfão teu filho Mário. Andemos, troquemos ideia, nem veremos o tempo passar. Bote fé no que digo, porque o que digo não tem nos livros.

– Jamais, Belório, jamais! – exclamou em alto e bom som Bartolomeu, fazendo com que até os pescadores de rede olhassem para ver o que estava acontecendo. O sol tinia no alto, não havia sombra por perto, mas aqueles homens estavam acostumados, tinham pele forte e resistência de deserto. Belório seguiu em seu raciocínio:

– Usemos a cabeça, não nosso coração. Ela não foi feita só pra servir de apoio pra chapéu. Se nos metermos a nado, terminaremos como Chiquinho e Estevão, mortos por falta de oxigênio nos pulmões. Em palavras mais populares: mortos afogados!

– Belório, meu cabra, saiba que para esse corpo perecer muito tem que se passar. Coisas do tipo um raio vindo do céu ou uma bala de calibre grosso acertando bem aqui, ó, nesse lado do peito (Bartolomeu apontava para a região do coração). Do contrário, enfrento peixeira, marido traído e até onça-pintada. E pode apostar que sempre sairei incólume. Vamos, homem, nos metamos na água!

– Deus do céu, ilumine esse poço de teimosia que se considera gente! Pare um pouco de balelas, respire fundo e deixe que as bravatas dêem lugar à razão, Bartolomeu. Se nos metermos nesse mundo d’água que aí em frente está, no dia seguinte seremos destaque no obituário do jornal. Pior: seremos motivos de chacota por morrermos de forma tão besta. Deixa disso e me acompanhe! – E Belório iniciou os primeiros passos rumo à ponte mais próxima, a 10km de distância.

– Arriégua! Aribeira! Desgraçanha! Tu estás duvidando de mim, Belório? Comigo palavra dita não tem volta. Se falei que vou a nado é porque vou a nado, Diacho!  E tu ainda continua com esse papo de fresco, de que cabeça não é pra chapéu e sei lá eu mais o quê. Se quiser ir pela ponte, vá. Não preciso de escolta de ninguém. Mas terás que se contentar em ver que teu colega aqui chegará primeiro na Feira dos Trabalhos Nobres. E hei de agarrar o melhor emprego de todos, tudo porque pelas minhas veias correm coragem e bravura de sobra!

– E teimosia e burrice também.

– Já chega! Estou ficando nervoso com você. Parta agora e não olhe pra trás. Caso contrário, não poderei responder pelos meus atos para com sua pessoa, se continuar com essa provocação de cagão.

– Desisto. Adeus, meu amigo. Foi bom enquanto durou. Mas agora nossas diferenças se sobrepujam de maneira  irreversível: eu pauto-me pela inteligência, você, pelo instinto. Uma pena. – E Belório partiu de vez, sem olhar pra trás como alertado por Bartolomeu.

Aquela tarde irradiava calor. Eram dias de Primavera, mas naquela parte do Brasil não havia flores. O caminho percorrido por Belório era feito numa grama rala, que se exibia  num bege atônito como quem protestava contra o clima excessivamente inóspito. Pra passar o tempo, o sertanejo começou a cantarolar músicas regionais. Em pouco mais  de duas horas, já se encontrava em seu destino: a ponte José Tavares Dias. Lá, começou a atravessar o São Francisco, junto com dois carros que também por ali passavam.

No meio da travessia, veio à sua cabeça a imagem de Bartolomeu, de quem, incrivelmente, ja havia se esquecido. Imediatamente, mirou o horizonte na direção de onde há pouco discutia com seu ex-amigo. É verdade que não enxergou nada além daquele mundão de água que corria rumo ao oceano levando vida e esperança por onde passava. Mas, dentro de seus pensamentos, Belório começou a reviver, com o auxílio da boa memória, todos os momentos bons e bonitos pelos quais ele e Bartolomeu passaram juntos até ali.

Lembrou-se da primeira vez em que caçaram um javali, abatido com uma espingarda do seu tio. Da primeira ida à zona da cidade, onde perderam a virgindade. Do primeiro porre de cachaça, tomada escondida de uma garrafa guardada no quarto do pai de Bartolomeu. Gargalhou quando a memória lhe trouxe a cena do amigo fugindo do cão do Venceslau, depois da tentativa frustrada de roubar goiaba do pomar daquele velho. E se emocionou quando lhe veio à mente a cena de Bartolomeu lhe entregando um quadro onde figuravam os dois, no Dia do Amigo.

Belório se deu conta então da besteira que havia cometido ao ter abandonado seu companheiro para aquilo que era praticamente um suicídio inconsciente. Prontamente se pôs a correr de volta o mais rápido possível para onde mais cedo havia ocorrido a discussão sobre a travessia do rio. Chegou lá em incríveis 50 minutos, um verdadeiro recorde para aquele pedaço de chão.

Tão cedo alcançou o destino, encontrou o corpo de Bartolomeu estirado no chão. Parecia inerte. Os pescadores de rede se aglomeravam ao redor.

– Vimos-no se debatendo na água, pedindo ajuda, e rumamos na sua direção em nossa canoa. Quando chegamos, seu corpo já boiava como que sem vida. Trouxemos-no para a margem e, com afinco e um pouco de sorte, conseguimos ressuscitá-lo. Seu amigo vive – relatou um dos pescadores de rede, com uma voz taciturna e bem marcada.

Belório então voltou o olhar para seu amigo e percebeu que respirava. Deu-lhe três tapas no rosto que o colocaram em estado de alerta. Vociferou:

– Teu animal! Avisei-lhe sobre os perigos da travessia e você não quis me ouvir. Era evidente que nunca conseguiria atravessar o São Francisco a nado! Sei que jurei-te o fim da amizade por isso, mas no entanto percebi que era um equívoco. Temos uma história muito rica para uma ruptura. Só espero, porém, que dê um jeito nessa sua valentia desvairada, pois uma hora ou outra ela te levará deste mundo!

Ao que Bartolomeu respondeu:

– Belório, meu velho, agradeço-te a preocupação e dou-lhe razão em parte. Mas, veja, eu consegui, atravessei o São Francisco a nado. Estamos na outra margem.

Belório então olhou e percebeu que realmente estava do outro lado do São Francisco.  Olhou em direção à ponte de onde havia vindo. Ela já estava fora de alcance da visão. Tentou buscar explicação para o acontecido, pois tinha certeza que não a havia cruzado; lembrava-se muito bem que parara no meio do caminho, dera meia volta e seguira em ritmo de corrida para de onde havia partido inicialmente.

Aquele incompreensão sobre a realidade lhe criou um acesso de pânico. Seu mundo estava deveras complexo para ser administrado; já não conseguia mais tatear as coisas tal qual uma pessoa normal faria. Tomado pelo desespero, Belório reuniu as poucas energias que ainda lhe restavam e saiu correndo em direção à ponte José Tavares Dias, soltando urros estrondosos durante o percurso que não faziam sentido nenhum.

Quando chegou ao local, olhou para baixo e não viu mais o rio São Francisco. No lugar, se mostravam apenas areia fofa e galhos secos espalhados sem nenhuma uniformidade. Belório subiu então no parapeito, projetou seu tronco para frente, e se lançou amparado pela gravidade.

Morria ali mais uma amizade vítima da loucura.

Belório

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No meio do caminho, tinha um reencontro. Tinha um reencontro no meio do caminho.

5 05America/Sao_Paulo junho 05America/Sao_Paulo 2010

Se quatro malucos me dissessem que aquilo que estava por vir era o mais do mesmo, imediatamente daria meia-volta rumo ao ponto inicial da minha jornada. E foi exatamente isso que me aconteceu.

Quatro caras me disseram que era o mais do mesmo. Decidi voltar.

Confesso que aquela notícia me desanimou um pouco, pois tinha outras concepções acerca do meu destino. Não obstante, fiz um esforço pra deixar os pensamentos ruins de lado e foquei apenas na minha passada sobre aquela estrada de terra. O tempo não estava lá muito bom, fazia frio e começava a garoar. Desamarrei a blusa da cintura e vesti. Cobri as orelhas, a nuca e a parte alta da cabeça com o capuz. O pescoço protegi com um cachecol amarelo puxado de dentro da mochila. Por sorte, possuía também um guarda-chuva  reserva, o qual imediatamente saquei tão cedo a chuva apertou. A terra começava a virar lama e novamente me senti afortunado: calçava um par de botinas, meio por acaso, comprado no dia anterior.

U$39,90 no Wal Mart. Recomendo.

Acho que enquanto fazia o caminho de volta, acabei me perdendo. Falo isso porque de repente me vi à beira de um lago cristalino e gigantesco, com homens nativos pescando, árvores derrubando folhas e hipopótamos bebendo água nas margens. A chuva dara lugar a um sol brilhante e agradável. O céu fazia-se límpido. Tudo ao meu redor inspirava calma e tranquilidade, sentimentos ainda inéditos para aquele dia que começara de forma um tanto enfadonha. Resolvi por em exercício minha capacidade de socializar e aproximei-me do nativo que parecia-me menos hostil. Verbalizei:

– Uma boa tarde, meu camarada. Uma indiscutível boa tarde. Todas as tardes por aqui são assim?

O nativo que parecia-me menos hostil fez-se com um semblante duvidoso. Cutucou seu companheiro mais próximo, que por sinal era o mais musculoso e que portava a cara mais brava. Na cabeça, o musculoso exibia um distinto cocar feito com diversas penas de arara, das mais variadas colorações. Debaixo de cada olho, um par de filetes de tinta verde marcava-lhe o rosto – imagem que me fez lembrar os All Blacks, da Nova Zelândia, antes de uma partida decisiva. Na mão direita, empunhava uma lança de médio porte, notoriamente afiada em uma das pontas, com a qual pescava pirarucus e tambaquis. Na mão esquerda, tinha os dedos cerrados. Confesso que diante dessa inesperada circunstância, me veio  um leve frio na barriga.

The All Blacks.

Enquanto o musculoso e o outro nativo confabulavam alguma coisa, tive minha atenção distraída por um outro acontecimento. Notei que um grupo de tigres se aproximava do lago, provavelmente atrás de carne de hipopótamo. Eram cerca de cinco ou seis, não me lembro exatamente agora, e estavam em uma velocidade até que razoável. Avistei-os primeiramente no alto da colina ao oeste de onde estávamos e, em pouco tempo, já se encontravam a meio caminho do lago. Acho que não fui o único a perceber tais animais, pois todos os nativos – incluindo aí o musculoso que me botara medo – puseram-se a correr prontamente para uma região densa da mata, onde, adivinho eu, se situavam suas cabanas e fortalezas contra os perigos da savana. Os hipopótamos também perceberam a aproximação dos felinos, já que rapidamente se enfurnaram na água e submergiram, desaparecendo por completo.

Dessa forma, se os tigres estavam atrás de comida, restaram-lhe como única opção um franzino corpo de cerca de 60 quilos – que, no caso, era o meu.

Fui tomado por apreensão no momento em que um dos tigres se destacou dos demais e rumou para a minha direção. Me quedei completamente imóvel durante esse intervalo de tempo. Não corri nem me afastei, e não me peçam para explicar o por quê, pois também não faço ideia. A mais ou menos cinco metros de mim, o tigre, que parecia ser o mais jovem daquele grupo, cessou sua caminhada e começou a me observar. Sabia que minha vida naquele momento estava à mercê de um predador faminto, cerca de 10 vezes mais forte que eu, e ainda assim não sentia medo. Algo dentro de mim dizia que aquele animal me era familiar.

Definitivamente, não me deparava com o tal do imperialismo.

Então murmurei:

– Jacó!

O tigre, subitamente, se pôs em movimento e saltou sobre meu corpo. Derrubou-me com extrema força e passou a acariciar meu rosto com lambidas espalhafatosas. Incrivelmente, o destino havia me colocado frente a frente uma vez mais com Jacó, meu tigre de estimação da infância. Com três anos de idade, Jacó fora reintegrado à selva, pois eu e meus pais mudamos da gigantesca fazenda onde vivíamos para um apartamento na cidade. Desde então, nunca mais tínhamos nos visto – até aquele surpreendente momento.

O reencontro com Jacó ganhou-me aquela sexta-feira. Passamos o resto do dia juntos, vagando pelas cercanias do lago. Mais tarde, ajudei a ele e a seu grupo a caçar um par de antílopes para saciar a fome. Ao por do sol, nos despedimos. Eu segui a minha jornada de volta ao caos da cidade. Jacó foi correr livremente pelas planícies.