No meio do caminho, tinha um reencontro. Tinha um reencontro no meio do caminho.

Se quatro malucos me dissessem que aquilo que estava por vir era o mais do mesmo, imediatamente daria meia-volta rumo ao ponto inicial da minha jornada. E foi exatamente isso que me aconteceu.

Quatro caras me disseram que era o mais do mesmo. Decidi voltar.

Confesso que aquela notícia me desanimou um pouco, pois tinha outras concepções acerca do meu destino. Não obstante, fiz um esforço pra deixar os pensamentos ruins de lado e foquei apenas na minha passada sobre aquela estrada de terra. O tempo não estava lá muito bom, fazia frio e começava a garoar. Desamarrei a blusa da cintura e vesti. Cobri as orelhas, a nuca e a parte alta da cabeça com o capuz. O pescoço protegi com um cachecol amarelo puxado de dentro da mochila. Por sorte, possuía também um guarda-chuva  reserva, o qual imediatamente saquei tão cedo a chuva apertou. A terra começava a virar lama e novamente me senti afortunado: calçava um par de botinas, meio por acaso, comprado no dia anterior.

U$39,90 no Wal Mart. Recomendo.

Acho que enquanto fazia o caminho de volta, acabei me perdendo. Falo isso porque de repente me vi à beira de um lago cristalino e gigantesco, com homens nativos pescando, árvores derrubando folhas e hipopótamos bebendo água nas margens. A chuva dara lugar a um sol brilhante e agradável. O céu fazia-se límpido. Tudo ao meu redor inspirava calma e tranquilidade, sentimentos ainda inéditos para aquele dia que começara de forma um tanto enfadonha. Resolvi por em exercício minha capacidade de socializar e aproximei-me do nativo que parecia-me menos hostil. Verbalizei:

– Uma boa tarde, meu camarada. Uma indiscutível boa tarde. Todas as tardes por aqui são assim?

O nativo que parecia-me menos hostil fez-se com um semblante duvidoso. Cutucou seu companheiro mais próximo, que por sinal era o mais musculoso e que portava a cara mais brava. Na cabeça, o musculoso exibia um distinto cocar feito com diversas penas de arara, das mais variadas colorações. Debaixo de cada olho, um par de filetes de tinta verde marcava-lhe o rosto – imagem que me fez lembrar os All Blacks, da Nova Zelândia, antes de uma partida decisiva. Na mão direita, empunhava uma lança de médio porte, notoriamente afiada em uma das pontas, com a qual pescava pirarucus e tambaquis. Na mão esquerda, tinha os dedos cerrados. Confesso que diante dessa inesperada circunstância, me veio  um leve frio na barriga.

The All Blacks.

Enquanto o musculoso e o outro nativo confabulavam alguma coisa, tive minha atenção distraída por um outro acontecimento. Notei que um grupo de tigres se aproximava do lago, provavelmente atrás de carne de hipopótamo. Eram cerca de cinco ou seis, não me lembro exatamente agora, e estavam em uma velocidade até que razoável. Avistei-os primeiramente no alto da colina ao oeste de onde estávamos e, em pouco tempo, já se encontravam a meio caminho do lago. Acho que não fui o único a perceber tais animais, pois todos os nativos – incluindo aí o musculoso que me botara medo – puseram-se a correr prontamente para uma região densa da mata, onde, adivinho eu, se situavam suas cabanas e fortalezas contra os perigos da savana. Os hipopótamos também perceberam a aproximação dos felinos, já que rapidamente se enfurnaram na água e submergiram, desaparecendo por completo.

Dessa forma, se os tigres estavam atrás de comida, restaram-lhe como única opção um franzino corpo de cerca de 60 quilos – que, no caso, era o meu.

Fui tomado por apreensão no momento em que um dos tigres se destacou dos demais e rumou para a minha direção. Me quedei completamente imóvel durante esse intervalo de tempo. Não corri nem me afastei, e não me peçam para explicar o por quê, pois também não faço ideia. A mais ou menos cinco metros de mim, o tigre, que parecia ser o mais jovem daquele grupo, cessou sua caminhada e começou a me observar. Sabia que minha vida naquele momento estava à mercê de um predador faminto, cerca de 10 vezes mais forte que eu, e ainda assim não sentia medo. Algo dentro de mim dizia que aquele animal me era familiar.

Definitivamente, não me deparava com o tal do imperialismo.

Então murmurei:

– Jacó!

O tigre, subitamente, se pôs em movimento e saltou sobre meu corpo. Derrubou-me com extrema força e passou a acariciar meu rosto com lambidas espalhafatosas. Incrivelmente, o destino havia me colocado frente a frente uma vez mais com Jacó, meu tigre de estimação da infância. Com três anos de idade, Jacó fora reintegrado à selva, pois eu e meus pais mudamos da gigantesca fazenda onde vivíamos para um apartamento na cidade. Desde então, nunca mais tínhamos nos visto – até aquele surpreendente momento.

O reencontro com Jacó ganhou-me aquela sexta-feira. Passamos o resto do dia juntos, vagando pelas cercanias do lago. Mais tarde, ajudei a ele e a seu grupo a caçar um par de antílopes para saciar a fome. Ao por do sol, nos despedimos. Eu segui a minha jornada de volta ao caos da cidade. Jacó foi correr livremente pelas planícies.

Anúncios

2 Responses to No meio do caminho, tinha um reencontro. Tinha um reencontro no meio do caminho.

  1. naoexistemprofetas disse:

    ha! muito massa….gostei da virada do final, nao esperava.
    parecia um pouco sem emoçao até Jacó!
    experimente ir até escrita liberdade.
    abraços.

  2. Alguma razão para o repentino banimento?O.o

    @tsavkko

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: