Sem pé nem cabeça

Há muito tempo nas águas do São Francisco, dois homens conjecturavam entre si se mais valia a pena atravessar a nado a via d’água que se apresentava adiante ou andar cerca de 10 km em direção à ponte mais próxima. O primeiro, o mais velho, arguiu:

– Somos feitos de carne, cabelo e, sobretudo, muita coragem! Nasci homem e pretendo morrer homem, saiba tu! Nado 100 quilômetros, se necessário, mas jamais temerei diante de qualquer obstáculo que se aventure em meu caminho, seja ele grande, pequeno ou imaginário!

– Bartolomeu, muita calma nessa hora. O rio não está pra peixe, tampouco pra nado. Tens vida farta pela frente. Não vai querer deixar viúva tua mulher nem órfão teu filho Mário. Andemos, troquemos ideia, nem veremos o tempo passar. Bote fé no que digo, porque o que digo não tem nos livros.

– Jamais, Belório, jamais! – exclamou em alto e bom som Bartolomeu, fazendo com que até os pescadores de rede olhassem para ver o que estava acontecendo. O sol tinia no alto, não havia sombra por perto, mas aqueles homens estavam acostumados, tinham pele forte e resistência de deserto. Belório seguiu em seu raciocínio:

– Usemos a cabeça, não nosso coração. Ela não foi feita só pra servir de apoio pra chapéu. Se nos metermos a nado, terminaremos como Chiquinho e Estevão, mortos por falta de oxigênio nos pulmões. Em palavras mais populares: mortos afogados!

– Belório, meu cabra, saiba que para esse corpo perecer muito tem que se passar. Coisas do tipo um raio vindo do céu ou uma bala de calibre grosso acertando bem aqui, ó, nesse lado do peito (Bartolomeu apontava para a região do coração). Do contrário, enfrento peixeira, marido traído e até onça-pintada. E pode apostar que sempre sairei incólume. Vamos, homem, nos metamos na água!

– Deus do céu, ilumine esse poço de teimosia que se considera gente! Pare um pouco de balelas, respire fundo e deixe que as bravatas dêem lugar à razão, Bartolomeu. Se nos metermos nesse mundo d’água que aí em frente está, no dia seguinte seremos destaque no obituário do jornal. Pior: seremos motivos de chacota por morrermos de forma tão besta. Deixa disso e me acompanhe! – E Belório iniciou os primeiros passos rumo à ponte mais próxima, a 10km de distância.

– Arriégua! Aribeira! Desgraçanha! Tu estás duvidando de mim, Belório? Comigo palavra dita não tem volta. Se falei que vou a nado é porque vou a nado, Diacho!  E tu ainda continua com esse papo de fresco, de que cabeça não é pra chapéu e sei lá eu mais o quê. Se quiser ir pela ponte, vá. Não preciso de escolta de ninguém. Mas terás que se contentar em ver que teu colega aqui chegará primeiro na Feira dos Trabalhos Nobres. E hei de agarrar o melhor emprego de todos, tudo porque pelas minhas veias correm coragem e bravura de sobra!

– E teimosia e burrice também.

– Já chega! Estou ficando nervoso com você. Parta agora e não olhe pra trás. Caso contrário, não poderei responder pelos meus atos para com sua pessoa, se continuar com essa provocação de cagão.

– Desisto. Adeus, meu amigo. Foi bom enquanto durou. Mas agora nossas diferenças se sobrepujam de maneira  irreversível: eu pauto-me pela inteligência, você, pelo instinto. Uma pena. – E Belório partiu de vez, sem olhar pra trás como alertado por Bartolomeu.

Aquela tarde irradiava calor. Eram dias de Primavera, mas naquela parte do Brasil não havia flores. O caminho percorrido por Belório era feito numa grama rala, que se exibia  num bege atônito como quem protestava contra o clima excessivamente inóspito. Pra passar o tempo, o sertanejo começou a cantarolar músicas regionais. Em pouco mais  de duas horas, já se encontrava em seu destino: a ponte José Tavares Dias. Lá, começou a atravessar o São Francisco, junto com dois carros que também por ali passavam.

No meio da travessia, veio à sua cabeça a imagem de Bartolomeu, de quem, incrivelmente, ja havia se esquecido. Imediatamente, mirou o horizonte na direção de onde há pouco discutia com seu ex-amigo. É verdade que não enxergou nada além daquele mundão de água que corria rumo ao oceano levando vida e esperança por onde passava. Mas, dentro de seus pensamentos, Belório começou a reviver, com o auxílio da boa memória, todos os momentos bons e bonitos pelos quais ele e Bartolomeu passaram juntos até ali.

Lembrou-se da primeira vez em que caçaram um javali, abatido com uma espingarda do seu tio. Da primeira ida à zona da cidade, onde perderam a virgindade. Do primeiro porre de cachaça, tomada escondida de uma garrafa guardada no quarto do pai de Bartolomeu. Gargalhou quando a memória lhe trouxe a cena do amigo fugindo do cão do Venceslau, depois da tentativa frustrada de roubar goiaba do pomar daquele velho. E se emocionou quando lhe veio à mente a cena de Bartolomeu lhe entregando um quadro onde figuravam os dois, no Dia do Amigo.

Belório se deu conta então da besteira que havia cometido ao ter abandonado seu companheiro para aquilo que era praticamente um suicídio inconsciente. Prontamente se pôs a correr de volta o mais rápido possível para onde mais cedo havia ocorrido a discussão sobre a travessia do rio. Chegou lá em incríveis 50 minutos, um verdadeiro recorde para aquele pedaço de chão.

Tão cedo alcançou o destino, encontrou o corpo de Bartolomeu estirado no chão. Parecia inerte. Os pescadores de rede se aglomeravam ao redor.

– Vimos-no se debatendo na água, pedindo ajuda, e rumamos na sua direção em nossa canoa. Quando chegamos, seu corpo já boiava como que sem vida. Trouxemos-no para a margem e, com afinco e um pouco de sorte, conseguimos ressuscitá-lo. Seu amigo vive – relatou um dos pescadores de rede, com uma voz taciturna e bem marcada.

Belório então voltou o olhar para seu amigo e percebeu que respirava. Deu-lhe três tapas no rosto que o colocaram em estado de alerta. Vociferou:

– Teu animal! Avisei-lhe sobre os perigos da travessia e você não quis me ouvir. Era evidente que nunca conseguiria atravessar o São Francisco a nado! Sei que jurei-te o fim da amizade por isso, mas no entanto percebi que era um equívoco. Temos uma história muito rica para uma ruptura. Só espero, porém, que dê um jeito nessa sua valentia desvairada, pois uma hora ou outra ela te levará deste mundo!

Ao que Bartolomeu respondeu:

– Belório, meu velho, agradeço-te a preocupação e dou-lhe razão em parte. Mas, veja, eu consegui, atravessei o São Francisco a nado. Estamos na outra margem.

Belório então olhou e percebeu que realmente estava do outro lado do São Francisco.  Olhou em direção à ponte de onde havia vindo. Ela já estava fora de alcance da visão. Tentou buscar explicação para o acontecido, pois tinha certeza que não a havia cruzado; lembrava-se muito bem que parara no meio do caminho, dera meia volta e seguira em ritmo de corrida para de onde havia partido inicialmente.

Aquele incompreensão sobre a realidade lhe criou um acesso de pânico. Seu mundo estava deveras complexo para ser administrado; já não conseguia mais tatear as coisas tal qual uma pessoa normal faria. Tomado pelo desespero, Belório reuniu as poucas energias que ainda lhe restavam e saiu correndo em direção à ponte José Tavares Dias, soltando urros estrondosos durante o percurso que não faziam sentido nenhum.

Quando chegou ao local, olhou para baixo e não viu mais o rio São Francisco. No lugar, se mostravam apenas areia fofa e galhos secos espalhados sem nenhuma uniformidade. Belório subiu então no parapeito, projetou seu tronco para frente, e se lançou amparado pela gravidade.

Morria ali mais uma amizade vítima da loucura.

Belório

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One Response to Sem pé nem cabeça

  1. Anônimo disse:

    Muito agradecido pelo relato dado.

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