Baía, Balsas, Balacobaco

Nobres e pobres ouvintes deste meu Brasil!

Entro no ar agora, diretamente da Terra do Fogo, para lhes comunicar uma das aventuras mais interessantes que esta pessoa que vos fala vivenciou! Foi incrível, foi sublime, e o melhor de tudo, foi uma aventura exemplar!, digna de coluna social de jornal de grande circulação. E nada disso é mentira não, não desta vez, acreditem – juro que tudo o que saberão ao fim destas linhas é o que realmente aconteceu nessa minha aventura.  Me lanço, pois, à tarefa de detalhá-la!

Faz poucas noites, viajei para o norte, para uma cidade chamada Pitácolis, a dois dias de balsa da cidade-do-sotaque-malandro. Localidade aprazível, onde pessoas boas e solidárias convivem entre si – e lá cheguei eu chegando para me misturar com o povo. Distribuí sorrisos e abraços, mas muitas vezes não pude compreender muito bem o dialeto local. Dormi as noites em uma igreja imensa e moderna, com vista para as balsas e para a Baía de Todos os Prantos (belo nome este, aliás). Apesar das missas matinais diárias – que nunca tinham ninguém além do padre e dos coroinhas -, a igreja foi uma ótima hospedagem. Moravam lá pessoas imigrantes e bem vivas, e todas tinham algo de positivo para me transmitir.

Havia por lá o Zé Barba, exímio degustador de queijo coalho e de frutas em pó. Possuía uma bela máquina da Maçã o Zé Barba, além de ser míope e de esconder uma cicatriz no rosto com uma vasta barba negra e cafuza. Zé Barba falava baixo, mas sabiamente. Sorte de quem o ouvia.

Outro residente era Morango Louco, o filósofo carpe diem! Também era sábio este indivíduo, mas bem à sua maneira. Era gentil, honesto e lhe apetecia bastante a música, apesar de possuir um instrumento enferrujado. Detalhe fundamental: Morango Louco era bem chegado nos efeitos da alegria coletiva, de preferência quando esta advinha das garrafas de vinho vazias. Uma verdadeira avis rara!

Na torre da Igreja, vivia Cassandra, uma mulher que já foi rainha em outros anos, mas que hoje se dedica a estudar o seu reino. Dizem que sua biblioteca é a maior de toda Pitácolis. Cassandra costumava perambular pelos aposentos eclesiásticos com uma manta branca, que exibia rasgos na parte das pernas. Assim como Zé Barba e Morango Louco, a ex-rainha também se sobressaía por ser muito sábia, talvez a maior de todos e todas. Logo quando cheguei, já me repassou um belo conselho: “cuidado com os gatos pois eles podem te dificultar o repouso!”. Isso nunca mais saiu da minha cabeça.

E, por fim, no cômodo mais ao alto, onde se encontrava o sino da igreja, residia Rufus, o Badalador de Sinos. Rufus gostava de perucas e de lâminas de barbear, não se sabe muito bem o porquê. Talvez seja os hábitos familiares, especulam alguns. Sua grande qualidade, como já se pode adivinhar, é a força e precisão rítmica com que badala os sinos da igreja, pontualmente. Faça chuva, faça sol, esteja acordado ou dormindo, Rufus sempre está preparado para alertar os cidadãos de Pitácolis sobre as horas. Imprescindível sua presença na sala do sino! – lugar, aliás, onde passei minhas noites na igreja.

E foi basicamente com esse povo que compartilhei oxigênio durante todo meu período em Pitácolis. Entretanto havia outros, muitos outros, que em  algum momento de minha aventura surgiram para prosear-me. De cabeça, assim, me lembro de  Polaina, a esposa de Rufus, que vivia  numa torre baseada no Canavial Negro, do outro lado da Baía; de Maomé, o profeta palestino, que falava cinco línguas, todas do Oriente Médio; de Tatu, o leitor de mentes e analista de divã, que chegou à Pitácolis para lecionar Foucalt; de Flores, o homem da voz triste, mas que queria ser feliz; de Kazuma, o jaspion da Amazônia, bastante afeiçoado pela alta tecnologia.

(Agora já lembro de muitos outros! Seria impossível citá-los todos aqui!!)

O ambiente era propício para se conhecer novas pessoas

Em Pitácolis, pude experimentar finalmente as glórias dos ventos. Isto se dava na parte alta da igreja onde passei os dias. Experimentei também a comida de barro, servida nas imediações do ensino superior. Era algo horrendo, mas que sustentava, e que portanto era bom.

Em certo dia, fumamos o mato dos índios. Eu, Rufus, Maomé e convidados que vieram para um casamento. Ao fim do último trago, todos embarcamos em sonhos efusivos e extasiantes, dos quais nunca mais queríamos voltar. A situação pedia garrafas de vinho, que imediatamente surgiram meio que do nada. Morango Louco ficou mais louco ainda.

No sábado pela manhã, logo após termos visitado a Margem do Cochilo – que me rendeu uma grande fotografia, além de uma diarreia fenomenal de bacalhau no dia posterior -, enveredamos em direção à cidade-do-sotaque-malandro, ao outro lado da Baía. Lá ficamos por mais algumas semanas, experienciando lindas sensações. Visitamos a Arena dos Gladiadores, um épico lugar. Meu guia que me acompanhava por todos os cantos quis apostar dez dinheiros em um dos vencedores. Acertou, e com o prêmio fomos assistir a uma orquestra sinfônica que tocava rock’n’roll dos anos 60. Imaginem só o meu estado de ânimo diante daquela música!!

No dia seguinte ao rock’n’roll, nos lançamos pelas pradarias do município a procurar por cerveja barata, que prontamente encontramos nos bares coloniais da região. Bebericamos de tudo e mais um pouco e o resultado foi uma letargia inesperada. Resumo da obra: dormimos na rua. Ao despertarmos, incrivelmente, nos encontravámos no alto da Barriga de Deus, o lugar mais próximo do Céu que até então havia estado! De lá, pudermos ver os carros como se fossem formigas operárias, os rios como se fossem fios d’água e os prédios como se fossem maquetes de curso de arquitetura. Simplesmente magnífico, afora o desespero interno que vez em quando subia-me pela espinha por conta da distância em relação ao nível do mar. 30 minutos foram o suficiente, e logo batemos em retirada rumo às balsas e à Pitácolis.

No último dia de minha aventura, após assistirmos um filme de Fellini que falava sobre um rei assassinado, nos organizamos em um ritual de magia que precedia a despedida. Todos, uma vez mais, usufruímos do mato dos índios para embarcarmos nos sonhos fantásticos. Foi novamente lindo! – mas uma hora mais tarde, eu já embarcava no ônibus de volta. Deixei pra trás uma incrível trajetória que indiscutivelmente gravou grandes impressões em minha alma.

The Magical Mystery Tour is coming to take you away!!!

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One Response to Baía, Balsas, Balacobaco

  1. saydmansur disse:

    Aha! Sensacional!
    Curioso saber q nosso Perdigoto forasteiro só apresentou seus talentos nos últimos minutos de vida, antes de voltar ao casulo, a saber… a viola, a morsas do noroeste britânico, e uma generosa prosa poética!

    Aliás, que festa de casamento(!), como a muito este povoado não via.
    Desta (quase) ninguém saiu incólubre.

    Fico a metidar e acho q encontrei a rzão para tal, Maomé somente aparentava falar tantas línguas, pois nada do que ele falava parecia fazer muito sentido!
    capiche!

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