Discussões acerca do futuro

Dois jovens, sentados em bancos de madeira, conversam. Estão no meio da floresta, que por sua vez está na beira da cidade:

– Cara, me fala aí, você tem, assim, planos para o futuro?

– Como assim, Brandon?

– Tipo,  daqui a 5 anos, onde você quer estar, o que quer estar fazendo? Quer tá trabalhando numa produtora foda do Rio, quer tá tocando bateria na Europa… quer entrar pra Funai e trabalhar com índios? Cê já pensou nisso?

– (risos) Pergunta difícil. Mas já pensei sim e acho que até tenho algumas coisas em mente, cara.

– Tipo o que?

– Pô, acho que talvez quero estar casado com a mulher que amo. Tocando bateria, claro, numa banda foda de jazz. Mas acho que fazendo isso no Brasil mesmo, se pá em algum canto do Nordeste. Quanto à trampo, quero tá ganhando dinheiro mexendo com esse lance de áudio, de som, pra alguma produtora, prum estúdio, pro governo, não sei.

– Pô, maneiro ein, Pepe. Aliás, é bom ter planos, né?  Se for ver, é um negócio meio luxo esse lance de fazer planos. Mais ainda esses nossos, que envolvem viagens, bandas e tal.

– Como assim luxo?

– Digo, somos jovens, solteiros, classe-média. Tivéssemos 25 anos com filho, mulher, trabalhando cortando carne num açougue, daí não daria pra pensar grande assim, né, velho?

(silêncio de 3 segundos)

– Pode crer, Brandon. É meio uma sorte nossa poder pensar esses lances, né? Aliás, e você, tem planos?

– Tenho, claro. Aliás, acho que só te fiz essa pergunta sobre planos pra falar dos meus planos.

– Pô, fala aí então .

– Bom, daqui uns 5 anos.. eu quero tá bem no mundo da música também. Tocando violão bem, com alguma banda aí, mas sem vínculo profissional. Por amor à arte mesmo. Música é grande prioridade, quero carregar comigo até o fim dos meus dias.

– Ótimo..

– Resolvi também que quero ser pago pra estudar. Vou mandar uma carreira acadêmica, velho. Meio que defini isso. Imagina um professor universitário concursado: você ganha bem, fica inteligente, curte as liberdades de uma universidade e ainda pode fazer greve sem dor de cabeça. Que outro trampo tem isso?

– Pô, realmente, deve ser totalmente ótimo.

– Pois é. Mas isso acho que só mais pra frente. Quero ainda passar um tempos nos Estados Unidos, ir de novo pra Europa. Talvez no doutorado, talvez antes.

– Porra, Brandon, ce fala isso como se fosse fácil, né?

– (risos) Pois é, bicho. Na nossa mente nada tem limite né. Sonhamos e sonhamos, sem restrições. Bom isso.

– Bom, muito bom. Mas, cara, eu tenho tido uma sensação meio estranha quanto à isso ultimamente. Sabe, acho que desde os 13 anos que eu comecei a fazer uns planos mais a longo prazo assim. Acho o meu primeiro grande plano era tentar ser baterista do Kiss quando ficasse adulto, nada a ver.

– O meu grande plano aos 13  anos era ser jogador do São Paulo. E pior que eu falava sério.

– Pode crer. Mas então, continuando, beleza, aquele acho que era meu primeiro plano e desde então eu tive vários muitos outros. Mas de uns tempos pra cá, não sei, quando me pego deitado na cama, olhando pro teto, e pensando sobre o futuro, tenho começado a sentir um friozinho na barriga, ta ligado?

– Oloco, por que?

– Cara, não sei muito bem, mas outro dia acho que meio que descobri o motivo. Acho que é porque to ficando velho, e o tempo pros meus planos acontecer tá se esgotando. Acho que é isso.

– Pois é, Pepe, pois é! Também já senti isso! Na real eu acho que sinto isso também. Não, na verdade, eu sinto isso mesmo, várias vezes, quando fico pensando sobre, sei lá, minha evolução como um violonista. Penso que com 25 anos poderia ser bem melhor. Que talvez esteja ficando velho pra isso. Realmente é muito tenso.

– Pois é, mano, foda isso né?

– É. Mas cara, por outro lado, eu consigo ver nessa nossa “angústia particular” certos dilemas. Tipo, será que é melhor ter ou não ter planos ambiciosos? Se a gente não tivesse, tipo o carinha que corta carne de açougue que falei que não tinha planos, será que seríamos, pelo menos, menos angustiados quanto a isso?

– Pode ser, mas certamente teríamos outras angústias na situação do cara.

– Sim, sem dúvida. Mas olha outro dilema: esse lance de fazer planos a todo momento, de viver em função de planos, será que não é meio que deixar de viver o presente pra ficarmos vivendo o futuro constantemente?

– Sem dúvida, cara. Mas acho que é por essas e outras que a música me é tão especial. Quando toco uma batera, quando ouço um Miles Davis, de certa forma, eu entro num tipo de transe, sei lá, que me faz sentir plenamente no presente, saca? Vivo aqueles momentos mais do que qualquer outra coisa que eu faça no dia-a-dia . Talvez só o sexo seja comparável.

– Sinto exatamente o mesmo quanto tô no violão, mano. Sei lá, alguma vezes parece uma sensação meio mágica.  Mas deve ser por isso aí que você falou, esse lance de nos sentirmos no presente, sem pensar no futuro ou no passado.

– Pois é, surreal isso, né.

– É

(silêncio)

– Vai um aí?

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