Do teatro à sapataria

3 03America/Sao_Paulo outubro 03America/Sao_Paulo 2010

Quando era criança, nada me assustava mais do que o velho bigodudo que vendia os ingressos do teatro.

Forçado que era pelos meus pais a frequentar aquele lugar cheio de artistas extrovertidos e descolados,  se apresentando para um punhado de gente de estirpe – ou que pelo menos se achava assim – nunca tive muita escolha sobre o que fazer às quintas-feiras à noite. Íamos todo mundo, eu, papai, mamãe e Joaquina, minha irmã ramelenta. Às vezes a Vó Nita se juntava à caravana, às vezes era o Tio Alvarez. Mas não importava quem me acompanhava ou quem deixava de me acompanhar, era sempre aterrorizante o momento de receber os ingressos no balcão das mãos daquele ser.

Se me pedirem pra explicar de onde vinha aquele medo, não saberei dizer. O que sei é que sempre me pegava reparando, quase que hipnotizado, naquele rosto de laranja espremida, enquanto meu pai se encarregava de informar o número de pessoas que o acompanhavam. Me intrigavam muito aquelas rugas espalhadas feito praga por toda a expressão facial daquele velho. Me espantava uma cicatriz pontilhada que rasgava sua cara a partir do olho esquerdo até praticamente o queixo. E, principalmente, me causava estranheza aquele bigode todo imponente, estilo Friedrich Nietzsche, com uns fios mais espetados de um lado do que do outro.

Cruzada a porta de entrada do teatro, em direção às cadeiras, eu mal conseguia tirar aquela figura da minha fértil imaginação. Martelava em minha cabeça o enigma que era a identidade daquele personagem tão horripilante. De onde viera aquele velho? Pra onde iria? Quantas pessoas já haveria matado a sangue frio? Que peça de teatro que nada: nas quintas-feiras à noite, o que me entretinha mesmo no meio daquela plateia toda era imaginar sobre a verdadeira natureza do velho bigodudo.

Mas, bem, eu tinha 7 anos. Logo cresci e virei sapateiro. Trabalho na profissão faz 50 anos, desde os 20 e poucos de idade. E hoje, enquanto atendia a um cliente, percebi que seu filho pequeno que o acompanhara até oficina não parava de me olhar – tal qual eu fazia quando do meu encontro com o velho bigodudo do teatro, décadas atrás. Durante toda  a conversa que ali desenrolava, o pequeno infante não tirara os olhos do meu rosto. Permanecia mudo, com os olhos arregalados, boca semi-aberta, e com a mão bem agarrada ao do pai.

A princípio, não fiz contato com os olhos diretamente, apenas o vigiava pela visão periférica. Enquanto me dirigia aos fundos da oficina, a procurar por um pouco de couro, voltei a visitar os porões da minha memória onde estava o velho que tanto me causara assombro e perplexidade em outros tempos. E logo passei a me perguntar se aquela criança que agora me observava não sentia os mesmos calafrios que eu sentia de quando das minhas fantasias sobre um velho maléfico e todo sinistro.

Voltei para o homem, e disse-lhe que poderia arrumar seus sapatos ainda naquele dia. Minha inquietação sobre a criança permanecia, e subitamente tive a brilhante ideia de prega-la uma peça. Me despedi do homem, que se virou de costas e foi embora. Mas, conforme eu previra, a criança manteve seu rosto voltado para o meu, sempre em estado de observação, muito provavelmente, atenta para o mar de rugas que povoava minha cara. Num rápido e inesperado movimento, cravei meus olhos em direção aos dela, estiquei minhas pálpebras e abri a boca o máximo que pude, produzindo uma exímia careta.

A sensação ao ver aquele semblante horrorizado do pobre menino foi impagável. Finalmente, acho que passei meu trauma de infância adiante.

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