Mano Velho

16 16America/Sao_Paulo dezembro 16America/Sao_Paulo 2010

É fato que o tempo passa e junto chegam transformações. Minha vó está mais debilitada, minha cachorrinha já dá sinais de catarata, e minhas entradas estão cada vez mais invasivas, essas atrevidas. Começo também a perceber mudanças no meu rosto, minha principal vitrine. Na análise diária frente ao espelho, já é possível ver uma saliência aqui e ali que até outro dia, coisa de 2002, 2003, não podia perceber. Tem também umas dobrinhas tímidas ao redor dos olhos surgindo. A pele parece estar menos corada.

Mas não, não estou paranóico como alguns podem estar pensando e nem estou cogitando a idéia de fazer plástica na cara, apesar de já me terem sugerido isso por diversas vezes. Possuo uma posição firme, de aceitação*, sobre a nossa relação com a velhice biológica, e pretendo sustentá-la por tempo indefinido. Ter lido A Velhice, um tijolo de 600 páginas escrito por Simone Du Beavouir certamente me ajudou a formar essa concepção, ainda que eu seja um jovem de vinte e poucos anos, bem longe da aposentadoria e de jogar dominó na praça. (Aliás, todo ser humano que pretende morrer de velho deveria ler essa obra).

Acontece que é inevitável que as pessoas pensem no seu envelhecimento, e acho que isso é uma preocupação que começa a se tornar mais freqüente justamente na minha faixa etária. Quando criança, sempre achei uma grande viadagem essa coisa dos adultos de não querer revelar os anos, ou sempre fazer uma carinha enjoada ou uma gracinha qualquer, tipo um ritualzinho, antes de responder à pergunta capital sobre a idade. Mas agora eu entendo.

Afinal, fazer graça dos problemas é uma maneira de reprimir a angústia, já deve ter dito algum psicanalista alemão por aí. Pois que jovem que nunca pensou, com um leve frio na barriga, que o número de anos vividos já está alcançando, talvez até superando o número de anos ainda por viver?

Enfim, sei que esse tema de ‘envelhecimento’ já tá ficando repetitivo por aqui. Mas é que hoje, lá em frente ao espelho, olhando aquela saliência aqui e ali, as dobrinhas tímidas ao redor dos olhos surgindo, a pele menos corada que ontem, não tive como me segurar. De novo.

*É verdade que talvez eu tenha construído uma grande ilusão, e tão cedo a primeira artrite começar a corroer as minhas articulações eu venha a ficar um velho chorão.

5 segundos pela janela

15 15America/Sao_Paulo dezembro 15America/Sao_Paulo 2010

Ali
Estendida no chão
Caíra a mulher
Sem mais nada na mão

Abatida
Pelos grandes cilindros
Pela grande carcaça
Mov’dos à combustão

Descera
Com as chaves na mão
Uma outra mulher
Com expressão de horror

Era mais uma vítima
Mais outra estatística
Nessa luta insana
Entre gente e as máquinas

Aquilo tudo vi
Senti
E segui
Impotente
Rumo ao próximo ponto
Eu e o cobrador


Louise

14 14America/Sao_Paulo dezembro 14America/Sao_Paulo 2010

Não conhecia Louise, mas já estava apaixonado. Bastou uma foto, as letras de seu nome, e um pouco de descrição física, tecida por um dos meus camaradas, para que colocasse meu coração à prova uma vez mais na vida. “Mui bonita, cheirosíssima, tem curvas extasiantes, uma boca linda, vermelha, grande, tentadora e convidativa, além de uma derme lisa e um odor de acalmar crianças”, disseram-me sobre a pequena.

É verdade que sempre fui bastante vulnerável às paixões platônicas desde garoto. Houve a Tia Lívia, Lucy Tucker e até mesmo Heloísa. Nunca nenhuma delas soube das minhas vãs pretensões guardadas a sete chaves. Mas a vivência deste admirável mundo novo que a contemporaneidade despeja à minha frente torna este episódio slightly different than before. Hoje a quimera é outra, os encontros e desencontros que Vinícius prenunciava fazem-se valer com mais força, principalmente os primeiros. O Verbo parece que me deu o ar da graça; desbravo-o, remexo-o, aprendo a manuseá-lo. Estou virando um cara armado. Quem sabe, um dia, amado.

Quanto a Louise, esta rainha que habita o castelo que venho erguendo com as areias dos meus sonhos diariamente, não posso contar-lhes muito a seu respeito como já adiantei na primeira linha. Sei que gosta de Chico e de Clarice, nada mais. Mal sabe ela o quão perito estou me tornando em acordes dissonantes e em macabéas, somente para um dia, talvez, poder cortejá-la. Fazer como se a semelhança de gostos e de ídolos fosse coincidência, uma mera Obra do Acaso, pois sei que gente mundana costuma ver nesses fenômenos poesia.

Ah, Louise, Louise. Por que não apareceste antes? Por que não vieste me pintar a alma quando tudo na vida se me apresentava cinza? Por onde andaste todos estes anos de malogro de minha parte? Louise, Louise. Sei que não me conheces, mas posso sentir uma pontinha de mim aí neste teu olhar desavisado, singelo, que te faz ser mais e mais desejada pela horda de homens livres, mas ao mesmo tempo prisioneiros, prisioneiros deste teu olhar desavisado, singelo, livre de qualquer pecado, e eu lhe digo que eu sei!, Louise, que eu sei que todas as suas obras que fizeste nesta tua vida jamais serão mais grandiosas, mais generosas para a humanidade que aquela única que um dia seus pais tiveram a extrema maestria de criar: você.

Ah, Louise! Não sei o que será de amanhã, mas posso escrever, com veemência, como de fato escrevi, o que está sendo o dia de hoje.


Diálogo de Domingo

13 13America/Sao_Paulo dezembro 13America/Sao_Paulo 2010

Acabei de escrever o texto abaixo, mas tô na pilha, então já emendo outro em seguida. Podem checar o horário de publicação, se quiserem, não estou mentindo não. Revelo-lhes que esse aí de baixo foi algo mais espontâneo, despreocupado, só pra dar vazão a um impulso quase que maligno dentro de mim em querer escrever a todo custo, nem que fosse pra inventar uma receita de um bolo impossível de cozinhar. Já com este, pretendo ponderar mais as palavras e construções de parágrafos – o que não quer dizer que será melhor ou mais prazeroso de ser lido.

Pois bem, vamos lá, o que será que posso contar a todos? Certamente sobre o show de ontem.

Ontem, dia em que presenciei um diálogo mudo, digo, um diálogo sem palavras, mas cheio de sons. De um lado, uma caixa acústica feita de madeira, larga e sinuosa em um extremo, fina e retilínea no outro. 7 cordas a cruzavam de ponta a ponta, por onde dedos volumosos e querendo briga as feriam incansavelmente.  O resultado das agressões não era sangue, pelo contrário, eram muitas harmonias e melodias a se penetrar os ouvidos daqueles que ainda podiam ouvir.

Do outro lado do diálogo não era muito diferente.

Havia um instrumento menor, elétrico, com um cabo preto o prendendo a uma caixa de som. Eu podia vê-lo como redondo, a forma de uma pizza, de um pandeiro, mas isso, assim como o trambolho descrito aí em cima, era só em um dos extremos; no outro, também se via uma fina e retilínea extensão. O que mudava era o seguinte: as cordas que o cortavam eram apenas 4, e o inimigo a agredi-las não eram mais dedos, mas a popular palheta. Não confudir com paleta, aquele corte de carne.

Também se tirava harmonias e melodias dessa interação toda, o que, somado ao que vinha da caixa acústica, era possível constatar-se o diálogo do qual falo. O palco daquilo tudo ficava num pontinho do mapa da região Sul da metrópole, uma região em que o cheiro predominante é o cheiro verde, e onde quase não se vê calçadas, pois onde não há carros, tudo é calçada.

Tratava-se de uma combinação perfeita para se abstrair tudo o que aqueles dois sujeitos conversavam. Começaram acho que falando sobre Carnaval, pensei nisso pela maneira como o gordão da caixa acústica gingava, sorria e concebia o campo harmônico maior. Do outro lado, no instrumento em forma de pizza, o chapeleiro que o segurava também exibia seus dentes, reflexo igualmente de um sorriso. É claro que Fulano atrás de mim poderia achar que os dois falavam de outra coisa, como, sei lá, o dia em que beberam até cair, e que Beltrano a duas fileiras atrás de mim também poderia pensar que a conversa ali era sobre mulheres. Mas, percebam, é nisso que reside a beleza da coisa: a fantástica e maravilhosa polissemia!

O gordão e o chapeleiro prosseguiram, um falou de samba, o outro lembrou de uma história engraçada da sogra. Passaram então a falar sobre Pernambuco e suas cidades míticas, Recife e Olinda. O gordão descreveu um guarda-chuva de frevo, o chapeleiro contou sobre uma morena que adorava dançar.

Aí houve um momento meio triste, triste não, instrospectivo, mais calmo, menos alegre, mas igualmente bonito. O gordão falou de Mariana. Não entendi direito qual era o mote do assunto, mas deduzi que fora um paixão de antigamente. Chapeleiro dessa vez só escutou, não disse uma só nota musical.

Mas foi só o assunto terminar que as coisas voltaram aceleradas, e toda a platéia se pôs na ativa novamente. Falaram de música clássica, de Beatles e de Paul McCartney, e culminaram num brasileiro pequeno, o Brasileirinho.

Acho que aí cansaram, porque o gordão estava com a camiseta ensopada e também porque terminaram. Eu bati palma, as pessoas ao redor também, e os dois, o gordão e o chapeleiro, foram embora, levando o instrumento de cada na mão. A conversa cessou e o silêncio voltou a reinar.

Quanto a mim, não consegui me conter. Cheguei no lar, lacei minha caixa acústica e passei a falar sozinho, prática predileta em dias de chuva fina.


Métrica. Paradinha.

13 13America/Sao_Paulo dezembro 13America/Sao_Paulo 2010

Métrica. Repita esta palavra dentro da sua mente: métrica. Noção com a qual medimos palavras e poemas que lemos, ouvimos ou falamos.

Fluxograma. Palavra feia, mas modernosa: fluxograma. Desenho que remete a um fluxo de acontecimentos, a processos ligados entre si. Em forma de desenho. Rabiscado, pintado, carimbado, não importa: há de ser um desenho.

Lugar-comum. Figura de linguagem onde habitam 90% dos seres vivos racionais do mundo. São os lugares-comuns os grandes inimigos da arte e do raciocínio político. Evitem-nos como se evita a peste.

“Patativa não fez medicina, mas tocou o coração”. Uma senhora de uma bela frase editada por um dos grandes músicos da atualidade que construí: Emicida. Quando me ponho a escutar a música, só a faço para vivenciar esse trecho. A parte da letra anterior é um caminho por onde anda a expectativa, a parte posterior estão só as rebarbas do prazer em ouvi-la. Patativa não fez medicina, mas tocou o coração. Emicida, da mesma forma, também tocou o coração.

Paradinha. Pa-ra-di-n-h…a. Recurso antiético, malandro, desonesto, corrupto, típico do brasileiro-médio-não-revolucionário que gosta de tirar vantagem sobre tudo e todos e desrespeitar todas as instituições republicanas, enfim, um recurso utilizado na hora do penalti, em que se espera o goleiro cair pra um canto, pra se bater no oposto.

Ainda bem que a Fifa proibiu.