Diálogo de Domingo

Acabei de escrever o texto abaixo, mas tô na pilha, então já emendo outro em seguida. Podem checar o horário de publicação, se quiserem, não estou mentindo não. Revelo-lhes que esse aí de baixo foi algo mais espontâneo, despreocupado, só pra dar vazão a um impulso quase que maligno dentro de mim em querer escrever a todo custo, nem que fosse pra inventar uma receita de um bolo impossível de cozinhar. Já com este, pretendo ponderar mais as palavras e construções de parágrafos – o que não quer dizer que será melhor ou mais prazeroso de ser lido.

Pois bem, vamos lá, o que será que posso contar a todos? Certamente sobre o show de ontem.

Ontem, dia em que presenciei um diálogo mudo, digo, um diálogo sem palavras, mas cheio de sons. De um lado, uma caixa acústica feita de madeira, larga e sinuosa em um extremo, fina e retilínea no outro. 7 cordas a cruzavam de ponta a ponta, por onde dedos volumosos e querendo briga as feriam incansavelmente.  O resultado das agressões não era sangue, pelo contrário, eram muitas harmonias e melodias a se penetrar os ouvidos daqueles que ainda podiam ouvir.

Do outro lado do diálogo não era muito diferente.

Havia um instrumento menor, elétrico, com um cabo preto o prendendo a uma caixa de som. Eu podia vê-lo como redondo, a forma de uma pizza, de um pandeiro, mas isso, assim como o trambolho descrito aí em cima, era só em um dos extremos; no outro, também se via uma fina e retilínea extensão. O que mudava era o seguinte: as cordas que o cortavam eram apenas 4, e o inimigo a agredi-las não eram mais dedos, mas a popular palheta. Não confudir com paleta, aquele corte de carne.

Também se tirava harmonias e melodias dessa interação toda, o que, somado ao que vinha da caixa acústica, era possível constatar-se o diálogo do qual falo. O palco daquilo tudo ficava num pontinho do mapa da região Sul da metrópole, uma região em que o cheiro predominante é o cheiro verde, e onde quase não se vê calçadas, pois onde não há carros, tudo é calçada.

Tratava-se de uma combinação perfeita para se abstrair tudo o que aqueles dois sujeitos conversavam. Começaram acho que falando sobre Carnaval, pensei nisso pela maneira como o gordão da caixa acústica gingava, sorria e concebia o campo harmônico maior. Do outro lado, no instrumento em forma de pizza, o chapeleiro que o segurava também exibia seus dentes, reflexo igualmente de um sorriso. É claro que Fulano atrás de mim poderia achar que os dois falavam de outra coisa, como, sei lá, o dia em que beberam até cair, e que Beltrano a duas fileiras atrás de mim também poderia pensar que a conversa ali era sobre mulheres. Mas, percebam, é nisso que reside a beleza da coisa: a fantástica e maravilhosa polissemia!

O gordão e o chapeleiro prosseguiram, um falou de samba, o outro lembrou de uma história engraçada da sogra. Passaram então a falar sobre Pernambuco e suas cidades míticas, Recife e Olinda. O gordão descreveu um guarda-chuva de frevo, o chapeleiro contou sobre uma morena que adorava dançar.

Aí houve um momento meio triste, triste não, instrospectivo, mais calmo, menos alegre, mas igualmente bonito. O gordão falou de Mariana. Não entendi direito qual era o mote do assunto, mas deduzi que fora um paixão de antigamente. Chapeleiro dessa vez só escutou, não disse uma só nota musical.

Mas foi só o assunto terminar que as coisas voltaram aceleradas, e toda a platéia se pôs na ativa novamente. Falaram de música clássica, de Beatles e de Paul McCartney, e culminaram num brasileiro pequeno, o Brasileirinho.

Acho que aí cansaram, porque o gordão estava com a camiseta ensopada e também porque terminaram. Eu bati palma, as pessoas ao redor também, e os dois, o gordão e o chapeleiro, foram embora, levando o instrumento de cada na mão. A conversa cessou e o silêncio voltou a reinar.

Quanto a mim, não consegui me conter. Cheguei no lar, lacei minha caixa acústica e passei a falar sozinho, prática predileta em dias de chuva fina.

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