Louise

Não conhecia Louise, mas já estava apaixonado. Bastou uma foto, as letras de seu nome, e um pouco de descrição física, tecida por um dos meus camaradas, para que colocasse meu coração à prova uma vez mais na vida. “Mui bonita, cheirosíssima, tem curvas extasiantes, uma boca linda, vermelha, grande, tentadora e convidativa, além de uma derme lisa e um odor de acalmar crianças”, disseram-me sobre a pequena.

É verdade que sempre fui bastante vulnerável às paixões platônicas desde garoto. Houve a Tia Lívia, Lucy Tucker e até mesmo Heloísa. Nunca nenhuma delas soube das minhas vãs pretensões guardadas a sete chaves. Mas a vivência deste admirável mundo novo que a contemporaneidade despeja à minha frente torna este episódio slightly different than before. Hoje a quimera é outra, os encontros e desencontros que Vinícius prenunciava fazem-se valer com mais força, principalmente os primeiros. O Verbo parece que me deu o ar da graça; desbravo-o, remexo-o, aprendo a manuseá-lo. Estou virando um cara armado. Quem sabe, um dia, amado.

Quanto a Louise, esta rainha que habita o castelo que venho erguendo com as areias dos meus sonhos diariamente, não posso contar-lhes muito a seu respeito como já adiantei na primeira linha. Sei que gosta de Chico e de Clarice, nada mais. Mal sabe ela o quão perito estou me tornando em acordes dissonantes e em macabéas, somente para um dia, talvez, poder cortejá-la. Fazer como se a semelhança de gostos e de ídolos fosse coincidência, uma mera Obra do Acaso, pois sei que gente mundana costuma ver nesses fenômenos poesia.

Ah, Louise, Louise. Por que não apareceste antes? Por que não vieste me pintar a alma quando tudo na vida se me apresentava cinza? Por onde andaste todos estes anos de malogro de minha parte? Louise, Louise. Sei que não me conheces, mas posso sentir uma pontinha de mim aí neste teu olhar desavisado, singelo, que te faz ser mais e mais desejada pela horda de homens livres, mas ao mesmo tempo prisioneiros, prisioneiros deste teu olhar desavisado, singelo, livre de qualquer pecado, e eu lhe digo que eu sei!, Louise, que eu sei que todas as suas obras que fizeste nesta tua vida jamais serão mais grandiosas, mais generosas para a humanidade que aquela única que um dia seus pais tiveram a extrema maestria de criar: você.

Ah, Louise! Não sei o que será de amanhã, mas posso escrever, com veemência, como de fato escrevi, o que está sendo o dia de hoje.

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One Response to Louise

  1. Daniel disse:

    Louise… Paixão alada, amor parcelado.

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