Mano Velho

É fato que o tempo passa e junto chegam transformações. Minha vó está mais debilitada, minha cachorrinha já dá sinais de catarata, e minhas entradas estão cada vez mais invasivas, essas atrevidas. Começo também a perceber mudanças no meu rosto, minha principal vitrine. Na análise diária frente ao espelho, já é possível ver uma saliência aqui e ali que até outro dia, coisa de 2002, 2003, não podia perceber. Tem também umas dobrinhas tímidas ao redor dos olhos surgindo. A pele parece estar menos corada.

Mas não, não estou paranóico como alguns podem estar pensando e nem estou cogitando a idéia de fazer plástica na cara, apesar de já me terem sugerido isso por diversas vezes. Possuo uma posição firme, de aceitação*, sobre a nossa relação com a velhice biológica, e pretendo sustentá-la por tempo indefinido. Ter lido A Velhice, um tijolo de 600 páginas escrito por Simone Du Beavouir certamente me ajudou a formar essa concepção, ainda que eu seja um jovem de vinte e poucos anos, bem longe da aposentadoria e de jogar dominó na praça. (Aliás, todo ser humano que pretende morrer de velho deveria ler essa obra).

Acontece que é inevitável que as pessoas pensem no seu envelhecimento, e acho que isso é uma preocupação que começa a se tornar mais freqüente justamente na minha faixa etária. Quando criança, sempre achei uma grande viadagem essa coisa dos adultos de não querer revelar os anos, ou sempre fazer uma carinha enjoada ou uma gracinha qualquer, tipo um ritualzinho, antes de responder à pergunta capital sobre a idade. Mas agora eu entendo.

Afinal, fazer graça dos problemas é uma maneira de reprimir a angústia, já deve ter dito algum psicanalista alemão por aí. Pois que jovem que nunca pensou, com um leve frio na barriga, que o número de anos vividos já está alcançando, talvez até superando o número de anos ainda por viver?

Enfim, sei que esse tema de ‘envelhecimento’ já tá ficando repetitivo por aqui. Mas é que hoje, lá em frente ao espelho, olhando aquela saliência aqui e ali, as dobrinhas tímidas ao redor dos olhos surgindo, a pele menos corada que ontem, não tive como me segurar. De novo.

*É verdade que talvez eu tenha construído uma grande ilusão, e tão cedo a primeira artrite começar a corroer as minhas articulações eu venha a ficar um velho chorão.
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