Brasil, um país de surdos?

23 23America/Sao_Paulo maio 23America/Sao_Paulo 2011

por Bernardo Marquez

No quarto de um apartamento do 9˚ andar em plena Avenida Paulista em São Paulo os automóveis reinam. As sirenes, apesar de momentâneas, nada discretas e opressoras, pontuam manhãs, tardes e noites sem distinção. O vento tranquilo não existe. Ou é o bafo grave que sobe do metro, ou o vestígio de energia do ônibus, ou será um avião? Se for chuva forte com trovão a janela vibra. Um helicóptero faz vibrar o apartamento inteiro. Um pássaro? Não, era o apito de um guarda que faz acalmar uma fila de freios agudos que rasgam pneus e tímpanos. A orquestra sinfônica de uma construção só não é mais harmônica pois uma britadeira solo mascara seus demais companheiros menos privilegiados.

Faz-se vibrar. Se daqui de cima o caos está na briga pelo primeiro plano, um passeio pela cidade confirma a potência sonora dos transportes públicos. O estresse do paulistano é um estresse sonoro. Não há espaço para um pensamento tranquilo. Wagner disse: “O homem voltado para o exterior apela para o olho; o homem interiorizado, para o ouvido”. “Outdoors” já foram proibidos e a poluição visual agradece. Quantos anos ainda teremos de indiferença à poluição sonora? A palavra silêncio se desintegra a cada dia, não existe um significado. Para tampar o sol com a peneira não dou dez anos para que os postos de saúde passem a distribuir protetores auriculares gratuitamente. Resolve?

O massacre a audição. A auto-mutilação cotidiana em forma de fones de ouvido. Qual é o  seu ponto de escuta? Intensidade: qualidade do som, da velocidade do tempo. O progresso regride na indiferença da percepção acústica e se impõe com o barulho. Façamos silêncio para uma revolução.

Berna Marquez


A internet nos escravizou

21 21America/Sao_Paulo maio 21America/Sao_Paulo 2011

E eis que ontem à noite a internet da vizinha – a qual emprestamos em segredo – resolveu cair, nos deixando em uma situação inédita: os três, em pleno horário nobre, na sala, sem ter o que fazer. A dependência química chegou num nível tão alto, que estávamos checando o sinalzinho de conexão do desktop a cada 30 segundos. “Nada”, “não voltou”, “puta que o pariu”, eram as interjeições mais proferidas.

Mas o pior de tudo era a crise aguda de abstinência, sem sabermos como resolvê-la. A TV não era uma opção, pois anda tão pouco usada, coitada, que até desaprendemos a assisti-la. Não havia dvds piratas novos na área. A inspiração para fazer música com os instrumentos da casa igualmente inexistia. Assim, ficamos lá, remoendo-nos internamente de angústia. Um olhando pra cara do outro, como pacientes numa sala de espera sem revistas de celebridades pra se distrair.

Fosse antigamente, poderíamos ter brincado de projetar sombras na parede, mas nossa pobreza de espírito não nos permitiu tal criatividade. Até ensaiamos um bate-papo, que não progrediu. Um teve a brilhante ideia de folhear duas revistas de papel, coisa que acho que não fazia havia anos. Não deve ter durado nem 2 minutos essa vã tentativa de preencher o tempo. Só pensávamos n’Ela, e Ela não voltava.

No fim, um a um, fomos desistindo e cedendo ao sono. Eu resisti por último, dei a clássica dormida no sofá, pra migrar à cama no meio da madrugada. Mas antes dei uma última checada: nada.

Deve ter sido a noite mais triste do ano no apartamento.


Saímos da favela!

20 20America/Sao_Paulo maio 20America/Sao_Paulo 2011

O endereço agora é mais profissa; o conteúdo segue medíocre.

PS: título inspirado no Cocadaboa.


Um bom vinho argentino

16 16America/Sao_Paulo maio 16America/Sao_Paulo 2011

Um bom vinho argentino é feito por boas uvas argentinas, que por sua vez são cultivadas por bons argentinos e boas argentinas. Há quem diga que o castellano, este idioma que cruzou o Atlântico vindo de Castela, indo parar bem ali na boca dos hermanos, há quem diga que é ele o possuidor das mais belas e apropriadas palavras a serem empreendidas no diálogo com as uvas. Coisa que a galera do sapato lustrado diz que só os descalçados fazem. Eu apenas lamento, pois soubessem eles da importância do castellano para a boa qualidade do vinho argentino, estariam agora mesmo a plantar parreiras e a estudar a língua de Borges.

Eu – que já não sou mais eu -, em áureos tempos, já pude desfrutar da beleza e da doçura do castellano. Nunca, é verdade, acompanhado de um bom vinho argentino, costume que só agora, com o cronômetro da vida marcando um quarto de século, me disponho a experienciar com mais frequência. Mas, ainda assim, aquelas eram boas manhãs, agradáveis tardes, e noites mais que aprazíveis. Bons tempos que não voltam mais, diria o saudosista. Bons tempos que foram bons porque foram únicos, porque cravados num período histórico em que a globalização une pontos que até então eram inuníveis – e perceba que há poesia nisso aí.

Alguém já atribuiu a Roland Barthes uma frase que não me lembro muito bem qual era, mas que refletia sobre a fotografia e a relação do homem com a memória. Era uma frase bonita e contundente, como costumam ser essas frases de se escrever em paredes de faculdade, em antecapas de trabalhos acadêmicos. É engraçado como a literatura, esta senhora já oitentona mas que nunca sai de moda, me faz as vezes da fotografia de Barthes.

Pois é só ela capaz de me lembrar, com grande riqueza de detalhes, do bom vinho argentino o qual nunca tive a honra de tomar.


Intercom Sudeste 2011

13 13America/Sao_Paulo maio 13America/Sao_Paulo 2011

A voz da palestrante é fina, ardida, excessivamente enjoada, o que facilita a dispersão. Há outros discursos porém mais harmoniosos. Um cabra, publicitário e professor, confessa que faz prós-graduação porque o MEC obriga. Diz que quem não pensa na propaganda para a terceira idade está perdendo o bonde da história. Bela bosta. Espero as palmas protocolares, me levanto e vazo. Uma senhora, nascida em 1964, ano do golpe, fala sobre as características da Geração Y. Imediatismo, impaciência, tendência à dispersão. Eu sou da Geração Y. Egolatria, tarefas simultâneas. Aversão à solidão. Numa outra sala, o pobre do palestrante começa a gaguejar. Desafortunado indivíduo. Mal sabia que lá atrás, enquanto escolhia jornalismo como carreira, estava rumando para o subemprego. O subemprego com verniz intelectual. Poderia ter feito igual meu irmão, que escolheu engenharia e agora será rico. Mas aí talvez não fosse feliz. Não sei.


O segundo texto do ano

10 10America/Sao_Paulo maio 10America/Sao_Paulo 2011

Vai-se mais de um mês desde o primeiro texto do ano, o que é incrível. É que a insignificância do tempo se mostrou sagaz o suficiente pra me cegar diante disto aqui. Continuo seguindo o mesmo blogueiro, religiosamente, acho que desde meados de 2005, continuo no Twitter, menos, é verdade, continuo na maior máquina de espionagem de todos os tempos, e continuo viciado em informação. Larguei creio que só o Orkut e este blog, infelizmente. Aos poucos, o MSN é posto de lado.

Preciso dizer também que o céu mudou um pouco. A lenda de que não há estrelas na noite infelizmente é verdade. É muita luz, sabe. É também muito asfalto, concreto, e corpos de destruição em massa transgredindo as leis da física. “Dois corpos não ocupam o mesmo espaço”, bela de uma balela essa frase por aqui. Analisem, por exemplo, uma cópula e reflitam sobre o que eu estou falando. A cópula que gera a vida, ato mais do que digno e o qual algumas igrejas querem proibir. Blargh.

Bom, já é 1:02. Amanhã, desperto às 7. Menos de 6 horas de sono, merda.