É lei? É lei.

25 25America/Sao_Paulo julho 25America/Sao_Paulo 2011

Não havia sido por falta de aviso.

Chica Léia agora estava presa por praticar a liberdade individual dentro da própria casa. Nunca tinha desejado mal ao próximo, exatamente como sugere o mandamento do livro, mas ainda assim atravessava a rua algemada. Plantar maconha no quintal, por incrível que pareça, é sim crime por essas bandas de onde escrevo – com chances redobradas de prisão em caso de cor de pele negra. Chica Léia descendia de escravos.

Um telefonema anônimo disparado pela manhã começara aquilo tudo. Os agentes da lei só chegaram à tarde, 5 horas depois, onde encontraram uma moça de roupa tropicalista, sem sutiã, à vontade ao som de Sgt Pepper’s. Chica Léia deixava o portão aberto, desligada que só vendo, nunca foi dessas paranoias de assalto iminente.

Mas quem entrou naquela tarde não era o ladrão, muito pelo contrário. E entraram sem o menor aviso, sem mandado, sem ternura, como sói:

– Mãos ao alto

Passados o flagrante, a surpresa e a indignação, Chica Léia cruzou a rua cabisbaixa e desembocou no camburão. A PM que a conduzia, negra tal qual, cuspiu: “se mexe, criôla, se mexe.”

Na delegacia, o delegado sorriu. Ia verbalizar qualquer coisa irônica e maliciosa, mas foi interrompido pelo zunido do telefone. Chica Léia passou reto, direto para o xadrez.

E lá estava ela, dividindo a cela com mais 20, todas negras, todas presas por tráfico. Mesmo crime que o sistema agora carimbava no atestado criminal de Chica Léia, apesar de esta nunca ter lucrado um único centavo com seus três pés de canabis apreendidos.

Foi só no décimo dia que o advogado amigo de um amigo conseguiu pôr Chica Léia na rua de novo. O namorado a buscou de carro, com mais 3 amigas no banco de trás, que acompanharam a ex-ré primária no abandono do cárcere que a roubou dias da vida. Tão cedo dobrou a esquina, pediu pra abrir o porta-luvas e encontrou o que procurava. Dixavou, ajeitou na seda, passou a língua e alcançou o isqueiro, na bolsa.

Questionada por Julinha sobre se não tinha medo, respondeu de pronto, enquanto exalava fumaça:

– A partir de hoje, isso aqui deixou de ser só pelo barato. Agora virou meu jeito particular de protestar.

E seguiram pela avenida, rumo à casa de Chica Léia, na rua Vinoma.

 

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