Álibi

É noite de domingo em Salvador, Bahia, e a soma dos acontecimentos do dia não abrangeu acarajé, nem axé, nem badalação. No máximo um pé sujo de areia e um pouco de cloro de piscina no corpo. As morenas sensuais sedentas por azaração não apareceram, nem quase todas as outras coisas que permeiam o arquétipo que habitam as mentes cheias de ideias viciadas dos estrangeiros a esta terra.

O estereótipo do discurso do estrangeiro, seja ele paulista ou mineiro, à notícia de que um cidadão ruma para a Capital da Capoeira engloba necessariamente interjeições que aparentam inveja e frases que acusam uma sorte extraterrestre ao viajante. Normal. Salvador, de fato, é uma bela cidade, cheia de diversidade, mar, e atrações turísticas. Ter a oportunidade de desfrutar de todos esses predicados pode se encaixar sim no conceito de privilégio. Não gosto da sua praia, é verdade, acho-a de um design ruim pra se entrar na água, e que perdeu bastante da graça depois que a Prefeitura mandou demolir todas as barracas no seu entorno (aqui, quiosque é chamado de barraca). Mas ainda assim, só o contato com a maresia no rosto e o escutar do seu barulho, ao melhor estilo concha-na-orelha, já me faz despertar alguns sentimentos virtuosos com os quais eu raramente topo vivendo na selva de pedra. Rousseau, em suas teorias sobre o bom selvagem, já falava que todo ser-humano nutre uma paixão platônica com a vida em meio à natureza, perto do verde e da água, longe da cidade. Se pá ele tinha mesmo razão.

A questão fundamental, entretanto, é que Salvador é a cidade onde mora meu pai. Ao longo do tempo, percebi que vir pra cá, antes de qualquer coisa, significa visitá-lo. Não se trata de uma observação a esmo. O caráter episódico de nossos encontros, fruto das centenas de quilômetros de distância que nos separa, é um fator determinante em nossas vidas, e percebo que quanto mais velho eu e ele ficamos, mais a vontade de estar próximo de seus filhos se intensifica. Sobretudo, pelo fato de a terceira idade já começar a apontar em seu horizonte, acredito.

É por isso que minha rotina durante os dias de Salvador costuma sempre estar condicionada à dele, o que normalmente não implica em axé, nem em badalação, nem em morenas sensuais sedentas por azaração. Peço desculpas aos meus amigos se eu não voltar com a derme torrada de sol nem com histórias sobre comas alcoólicos pra contar.

Mas posso falar do jogo da Bahia que assistimos na TV, se quiserem. Ganhou de 1 a 0, fora de casa. Gol de Souza.

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Em 2009, também escrevi sobre minha vinda à Salvador, em um antigo blog. Acho que é de um contraste interessante com o texto de acima:

http://disparada.wordpress.com/category/brasil/

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