O homem palavra-de-ordem

15 15America/Sao_Paulo junho 15America/Sao_Paulo 2012

Nasceu em Quiprocó, cresceu sabe-se lá onde, e hoje mora em algum canto onde grassa a banda larga, pois só com ela que consegue atazanar a rede regurgitando palavras-de-ordem a torto e a direito, não importa horário, época do ano e nem o que o horóscopo do jornal lhe diz sobre o signo.

Como todo bom urbano tal qual nós, tem afeição pelo verde e pela água cristalina. Uma afeição romântica, rousseauniana, bom-selvagenista; uma afeição hipster-de-havaianas e contemporânea. Uma afeição platonicamente sustentável.

Brada pela floresta, pelos índios, brada contra os políticos, contra o capitalismo, o comunismo, brada contra tudo, contra todos, contra a ideia de ser, brada.  Sua sina que impôs a si mesmo gira em torno de bradar, não importa muito bem contra o que nem direito por quê. À disposição no ciberespaço, um cardápio de alvos se lhe oferece para os seus brados diários: corrupção, desmatamento, potências estrangeiras, Barack Obama, PT, PM, Belo Monte.

No lugar do cérebro, jaz uma colmeia de formigas operárias zanzando em ritmo non-stop. São elas que fazem de suas sinapses nada mais que conexões entre ideias simples com referentes superficiais. É por isso que só consegue repetir, repetir, repetir, repetir, repetir, repetir, repetir, repetir, repetir, repetir, repetir, e nada mais além que repetir.

Fossem versos nobres, vá lá, mas não; o homem palavra-de-ordem só repete palavras-de-ordem. De forma indiscriminada. Apropósital. Banalizante.

O homem palavra-de-ordem banaliza as palavras-de-ordem que durante séculos foram construídas, recalcadas e tornadas armas nas lutas populares frente às classes dominantes.

Diz-se que ele saiu de um livro do David Harvey. Hoje está aí enchendo o saco.

Imagem


Te

12 12America/Sao_Paulo junho 12America/Sao_Paulo 2012

Certos pronomes oblíquos, quando usados direitinho, na hora certa, depois que ambas as partes já se aqueceram na conversa, têm a capacidade de cativar. Te é um deles.