Preso

30 30America/Sao_Paulo agosto 30America/Sao_Paulo 2012

Não são as mechas longas
Nem o brilho que me ofusca os olhos
Nem os fios que te emolduram o rosto
Nem o liso que se desmancha em meus dedos

Mas é o perfume
O grande culpado
Por me manter preso aos seus cabelos


Eu precisava escrever isso

29 29America/Sao_Paulo agosto 29America/Sao_Paulo 2012

É um emaranhado de sentimentos, sentimentos novos, velhos, uma grande miríade de déjà vus, um grande mosaico de episódios inéditos que chegam na minha vida, dão prosseguimento aos capítulos anteriores, e constroem e reconstroem aquele que sou a todo momento, sem parar, sem nenhuma pausa, sem descanso, nem ao menos para um cigarro, para um suspiro, para um fôlego necessário pra se ganhar consciência e fazer aquilo que é o mais adequado. São sentimentos novos, são sentimentos bons, que emanam de muitos, de vários, de uma, que chegam do norte e que aterrissam em meu corpo, em meus brios, tomam meu coração, assaltam a minha mente, conduzem as minhas decisões, influenciam nos meus juízos de valores, e me fazem pensar em todas coisas que consumo no dia a dia, assim mesmo, sem hífens, seja nas músicas de Milton que agora descubro, seja na declamação de Abujanra, seja em músicas outras que sempre gostei e que sempre vou gostar, e que gosto, seja na literatura de Charles ou na de outros grandes mestres, enfim, todos produtos e sub-produtos culturais que me ajudam a combater o maior, o mais ambíguo, e o mais importante dos inimigos: o medo de ser feliz.


Eu e Bukowski

12 12America/Sao_Paulo agosto 12America/Sao_Paulo 2012


Reza a lenda que durante a primeira turnê do Nirvana pelo Brasil, algum bom anfitrião teve a iniciativa de oferecer a Kurt Cobain um CD dos Mutantes, banda que até então lhe era desconhecida. O rapaz de Seattle pôs-se então a escutá-los e, terminado o disco, ainda sob o efeito da experiência, emendou ao seu interlocutor mais próximo: “Onde é que eu acho mais disso aqui?”

Era a típica reação de alguém que acabava de descobrir uma nova droga, como uma heroína, um lisérgico, algo que causasse um prazer corpóreo imediato – e quem conhece a obra de Rita, Arnaldo e Sérgio, sabe bem que se trata do caso.

Forçando um paralelo temporal com esse acontecimento, diria que tive exatamente a mesma reação quando da minha primeira experiência com Henry Charles Bukowski Jr. “Onde é que eu acho mais disso aqui?”, perguntei a mim mesmo assim que finalizei a última página de Factótum, meu primeiro e, até o presente momento, o melhor livro que já li do escritor americano.

Esse livrinho de capa preta deve ter passado anos na estante da casa de minha mãe, soterrado em meio a outras várias narrativas de um sem número de autores estrangeiros. Foi necessária uma amiga estudante de cinema que, em visita, notou a existência do livro no recinto e alertou-me para o talento contido naquelas páginas.

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Incrivelmente, nunca havia ouvido dizer de Bukowski antes. Devia ter eu à época já uns 23 anos, com pelo menos uns cincos anos de hábito de leitura, além de uma faculdade de jornalismo nas costas. De qualquer forma, gravei o alerta da minha amiga para a posteridade, e em um belo dia, no intuito de preencher algum vazio existencial, me desloquei até a estante de livros. Puxei Factotum e comecei a folheá-lo. Não durou mais que poucas horas.

Não esperava, mas ali percebi que nascia um vício, e como todo bom vício, eu precisava saciá-lo. Fui atrás de toda bibliografia restante existente e descobri que a obra de Bukowski não era nada pequena. É verdade que o escritor publicou bastante em poesia, sendo muito reconhecido por esse estilo – e, infelizmente, ainda não desenvolvi a sensibilidade que permite destilar prazer da experiência de se ler poesia (salvo raríssimas exceções). Não obstante, prosa, em Bukowski, é o que não falta.

Tive o prazer de desfrutar de todos os demais romances por ele publicado: Misto Quente, Cartas na Rua, Pulp, Hollywood, Mulheres (este com direito a menção honrosa)Li também parte de suas coletâneas de contos, mas falta ainda alguma coisa. Assisti, mais de uma vez, ao documentário sobre sua vida, e ainda preciso assistir a Barfly, filme autobiográfico sobre o escritor, estrelado por um jovem Mickey Rourke, e a Factótum, filme  de 2005 e  homônimo ao livro.

Tendo me tornado um fanático por sua literatura, e consumido vorazmente quase toda a sua prosa, inevitavelmente me surgia a dúvida: o que há nos escritos de Bukowski que tanto me cativa?

Após meses de reflexão, acho que consegui entrever algumas coisas:

– A habilidade com os períodos curtos.
– A franqueza refinada
– A rejeição da vida ascética
– O desapego 

Quem já conhece Bukowski, pode se identificar com alguns desses pontos. Aos que ainda não tiveram esse prazer, segue abaixo o primeiro capítulo de Factótum, que, como já disse, é o melhor de todos os seus livros, de acordo com a minha plebeia opinião.

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Diploma

8 08America/Sao_Paulo agosto 08America/Sao_Paulo 2012

Rolou uma certa ironia nesta última quarta que fazia tempo que não rolava. Foi justamente nesse dia que busquei o meu diploma de jornalista; e também justamente nesse dia ele se tornou, uma vez mais, obrigatório para o exercício da profissão. A decisão foi tomada pelos senadores deste País.

Vejo que muitos colegas compartilharam a notícia como vitória, e, se numa primeira impressão é isso mesmo que parece ser, com um pouco mais de reflexão veremos que não, não o é. Eu, que já fui a favor da obrigatoriedade em remotos tempos, hoje aderi ao coro dos que bradam contra.  Percebi que se trata apenas de uma medida corporativista pra se criar uma injusta reserva de mercado pra um grupo limitado de pessoas.

É só ver o nível de jornalismo feito na grande, média e pequena imprensa pra constatar que diploma não garante qualidade alguma. Aliás, dizem, tal obrigatoriedade é coisa que só acontece em um único país do mundo: o nosso.

Ainda mais hoje com blogs, imaginem uma situação anacrônica. Fulano de Tal, bancário, mantém um blog no qual produz notícias sobre o cenário político de sua cidade, Pirapozinho do Sul. Eis que chega um juiz qualquer e lhe manda fechar o blog. Porque ele não tem diploma de jornalismo.

O pior é que eu já vi algo similar na internet. Uma menina mantinha um blog noticioso e fez um post reclamando de um comentário feito pelo sindicato de jornalistas de algum estado. O sindicato lembrava justamente o fato de que a produção de notícias é prerrogativa apenas de pessoas diplomadas em jornalismo.

Uma pena muito grande que não gravei o link deste post em questão. Tenho certeza que trazendo-o a público conseguiria demover uns 80% das pessoas que são a favor do diploma, de tão bizarro que ler aquilo foi.