Eu e Bukowski


Reza a lenda que durante a primeira turnê do Nirvana pelo Brasil, algum bom anfitrião teve a iniciativa de oferecer a Kurt Cobain um CD dos Mutantes, banda que até então lhe era desconhecida. O rapaz de Seattle pôs-se então a escutá-los e, terminado o disco, ainda sob o efeito da experiência, emendou ao seu interlocutor mais próximo: “Onde é que eu acho mais disso aqui?”

Era a típica reação de alguém que acabava de descobrir uma nova droga, como uma heroína, um lisérgico, algo que causasse um prazer corpóreo imediato – e quem conhece a obra de Rita, Arnaldo e Sérgio, sabe bem que se trata do caso.

Forçando um paralelo temporal com esse acontecimento, diria que tive exatamente a mesma reação quando da minha primeira experiência com Henry Charles Bukowski Jr. “Onde é que eu acho mais disso aqui?”, perguntei a mim mesmo assim que finalizei a última página de Factótum, meu primeiro e, até o presente momento, o melhor livro que já li do escritor americano.

Esse livrinho de capa preta deve ter passado anos na estante da casa de minha mãe, soterrado em meio a outras várias narrativas de um sem número de autores estrangeiros. Foi necessária uma amiga estudante de cinema que, em visita, notou a existência do livro no recinto e alertou-me para o talento contido naquelas páginas.

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Incrivelmente, nunca havia ouvido dizer de Bukowski antes. Devia ter eu à época já uns 23 anos, com pelo menos uns cincos anos de hábito de leitura, além de uma faculdade de jornalismo nas costas. De qualquer forma, gravei o alerta da minha amiga para a posteridade, e em um belo dia, no intuito de preencher algum vazio existencial, me desloquei até a estante de livros. Puxei Factotum e comecei a folheá-lo. Não durou mais que poucas horas.

Não esperava, mas ali percebi que nascia um vício, e como todo bom vício, eu precisava saciá-lo. Fui atrás de toda bibliografia restante existente e descobri que a obra de Bukowski não era nada pequena. É verdade que o escritor publicou bastante em poesia, sendo muito reconhecido por esse estilo – e, infelizmente, ainda não desenvolvi a sensibilidade que permite destilar prazer da experiência de se ler poesia (salvo raríssimas exceções). Não obstante, prosa, em Bukowski, é o que não falta.

Tive o prazer de desfrutar de todos os demais romances por ele publicado: Misto Quente, Cartas na Rua, Pulp, Hollywood, Mulheres (este com direito a menção honrosa)Li também parte de suas coletâneas de contos, mas falta ainda alguma coisa. Assisti, mais de uma vez, ao documentário sobre sua vida, e ainda preciso assistir a Barfly, filme autobiográfico sobre o escritor, estrelado por um jovem Mickey Rourke, e a Factótum, filme  de 2005 e  homônimo ao livro.

Tendo me tornado um fanático por sua literatura, e consumido vorazmente quase toda a sua prosa, inevitavelmente me surgia a dúvida: o que há nos escritos de Bukowski que tanto me cativa?

Após meses de reflexão, acho que consegui entrever algumas coisas:

– A habilidade com os períodos curtos.
– A franqueza refinada
– A rejeição da vida ascética
– O desapego 

Quem já conhece Bukowski, pode se identificar com alguns desses pontos. Aos que ainda não tiveram esse prazer, segue abaixo o primeiro capítulo de Factótum, que, como já disse, é o melhor de todos os seus livros, de acordo com a minha plebeia opinião.


*****

Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.

Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.

Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.

A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.

– Ei, branquelo sujo!

Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.

– Olá, branquelo sujo!

Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.

– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?

Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott. Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.

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One Response to Eu e Bukowski

  1. Lana disse:

    Hey Johnny!

    O Factótum foi o melhor que eu li também, grande presente, obrigada! Fora esse, li o Misto Quente e o Hollywood. Parece que você me passou. Ah, vi o Barfly, interessante ver depois de ler o Hollywood.

    Minha mais recente grande descoberta da vida foi o Walt Whitman, poeta americano. Já leu? Depois procura o Leaves of Grass, edição bilíngue, muito lindo.

    Bj!

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