Gente estranha, num mundo esquisito

29 29America/Sao_Paulo setembro 29America/Sao_Paulo 2012

O mundo continua esquisito como sempre, com falhas geográficas, lama vulcânica, degelo no Ártico e ornitorrincos. Já as pessoas, bem; estas seguem mais e mais estranhas, como se esforçassem para serem assim

 

Engana-se aquele que acha que conhece o outro bem. Essa condição praticamente inexiste, assim como essa figura do “outro”. A experiência mundana tem servido pra mostrar que mais e mais a Terra se preenche de pessoas cuja característica principal é a imprevisibilidade. Não que todos os seres sejam assim, faça-se a ressalva; mas a chance de você cruzar com esse tipo de alguém durante a vida cresceu exponencialmente. Ainda que não saiba com certeza absoluta sobre o comportamento dos humanos em tempos passados, posso assegurar que no meu passado era diferente. Afinal, quando crianças todos somos espontâneos, inclusive em nossas relações, e não há muito espaço para dissimulações de longo prazo. Já nós adultos, talvez por instinto de sobrevivência (profissional, social, amoroso), precisamos lançar mão de nossas qualidades teatrais pra tocar o jogo, nutrir o enredo, manter aquela situação do jeito que está só porque a idealizamos, mesmo que no fundo saibamos que não era bem aquilo. E aí quando ela chega no nível do insustentável, quando nem mesmo a nossa dissimulação é capaz de lidar com a bomba, ligamos o foda-se, jogamos as artes cênicas às favas, e tomamos uma atitude imprevísivel; não para nós, é evidente, pois a larva daquela atitude já crescia dentro de nós há tempos; mas sim para aqueles que nos cercavam e que até então acreditavam piamente no personagem que insistíamos em encenar.

As pessoas são movidas a que? Razão, hormônios, horóscopo de jornal? Não se sabe, talvez um pouco de cada, mas, mais e mais, sinto que a ênfase se dá no terceiro.


O jogo

6 06America/Sao_Paulo setembro 06America/Sao_Paulo 2012

A horda, em sua maioria masculina, translada-se rumo ao coliseu dos dias modernos. Tenta chegar ao seu destino de todos os jeitos, de trem, carro, ônibus, alguns até vão de bicicleta e arriscam-se a travá-la em postes quaisquer, ainda que cientes do altíssimo risco de subtração do seu meio de transporte. “Dane-se”, pensam estes, o que importa é chegar no jogo – e chegam, e compram o ingresso, entram, se acomodam, todos reunidos tal qual uma horda, uma horda de fanáticos, de simpatizantes, de torcedores, e de namoradas que não estão muito aí para 22 homens correndo atrás de uma bola, mas que vão só para fazer companhia aos namorados. E há namorados que fazem o mesmo pelas namoradas, mas que, obviamente, em uma quantidade incomensuravelmente menor que a hipótese contrária. O juiz apita, o jogo se inicia, a bola rola, abrem-se as cortinas, começa o espetáculo, e logo o time de vermelho marca o primeiro. Culpa do alemãozinho que já esteve do lado de cá da trincheira, mas beleza, não tardou muito, acho que uns cinco minutinhos, e empatamos, digo, o time tricolor empatou – num gol de um cabra com um nome inglês aportuguesado. E aí o jogo foi indo, indo e acabou fondo, terminando assim mesmo, um tento para cada lado, para decepção da horda que transladou-se ao coliseu dos dias modernos e que esperava algo melhor, tipo 3 pontos, para continuarmos sonhando com o título, poxa, o atlético tinha até empatado.


O encontro entre Curupira e Caipora

5 05America/Sao_Paulo setembro 05America/Sao_Paulo 2012

Caminhavam os dois pela mata densa da floresta, num canto de chão onde ainda homem branco nenhum sonhara em desmatar. Contemplavam a virgindade da paisagem, as árvores de metros de diâmetro, a fauna esfuziante, os uivos do vento. Era como se ali o tempo não passasse, arrastava-se, bem lentamente, como se não existisse relógio algum para marcá-lo – como de fato não existia – e que a atividade de contemplar, para além de ser um verbo intransitivo, era universalmente permitida a todos e todas que a qualquer momento do dia decidissem por tal. Enfim, passaram a gastar saliva.

– Sabe, Caipora – disse Curupira – eu gostaria muito que um dia eu pudesse voar. Sempre sonhei em voar, desde que vi os primeiros tuiuius quando criança. Tucanos, garças, urubus-reis, todos admiro e quero bem, mas são os tuiuius quem realmente me encantam e me despertam este desejo exótico.

– E eu sempre desejei nadar debaixo d’água- replicou Caipora. Desde criança também, quando topei de frente com o primeiro boto-cor-de-rosa da minha vida. Tucunarés, pirarucus, jacarés-de-papos-amarelos, todos estimo e desejo-lhes sorte, mas são os botos-cores-de-rosas quem realmente me enternecem e me causam esta vontade distinta.

– Sabe, Caipora, eu sempre desejei correr rápido – prosseguiu Curupira em sua filosofia de fim de tarde. Desde quando adolescente, quando primeiro avistei uma onça-pintada diante dos meus olhos, passando rápida como um raio atrás de alguma caça que não pude identificar. Javalis, lobos-guarás, veados, todos aprecio e lhes espero o melhor, mas são as onças-pintadas quem sinceramente mexem com meus brios e me ocasionam este sonho ímpar.

– Pois é, Curupira, e eu sempre desejei escalar árvores – revelou Caipora. Isso vem desde quando encontrei a primeira preguiça de minha existência, tinha eu uns 15, 16 anos. Micos-leões-dourados, macacos-pregos, e mesmo as cobras-escaladeiras, todos eu reconheço o valor e lhes rogo boas preces, mas são as preguiças que de verdade me afloram esta ambição nada usual.

Houve então um silêncio de 10 segundos. Abruptamente, Curupira mudou o tom de voz:

– Caipora.

– Sim, Curupira?

– Já reparou que gastamos um tempão aqui falando de coisas que queríamos fazer e não fazemos?

– Sim, reparei. Mas qual o caso?

– E aí que com isso perdemos o pôr do sol. Agora ele já se pôs e só se porá de novo amanhã.

– Ficamos falando das coisas que não fazemos e deixamos de fazer aquilo que mais gostamos de fazer: contemplar o pôr do sol!

– Pois é.

– Diacho!

E voltaram às suas casas no meio da floresta.

Vazem fora!