O encontro entre Curupira e Caipora

Caminhavam os dois pela mata densa da floresta, num canto de chão onde ainda homem branco nenhum sonhara em desmatar. Contemplavam a virgindade da paisagem, as árvores de metros de diâmetro, a fauna esfuziante, os uivos do vento. Era como se ali o tempo não passasse, arrastava-se, bem lentamente, como se não existisse relógio algum para marcá-lo – como de fato não existia – e que a atividade de contemplar, para além de ser um verbo intransitivo, era universalmente permitida a todos e todas que a qualquer momento do dia decidissem por tal. Enfim, passaram a gastar saliva.

– Sabe, Caipora – disse Curupira – eu gostaria muito que um dia eu pudesse voar. Sempre sonhei em voar, desde que vi os primeiros tuiuius quando criança. Tucanos, garças, urubus-reis, todos admiro e quero bem, mas são os tuiuius quem realmente me encantam e me despertam este desejo exótico.

– E eu sempre desejei nadar debaixo d’água- replicou Caipora. Desde criança também, quando topei de frente com o primeiro boto-cor-de-rosa da minha vida. Tucunarés, pirarucus, jacarés-de-papos-amarelos, todos estimo e desejo-lhes sorte, mas são os botos-cores-de-rosas quem realmente me enternecem e me causam esta vontade distinta.

– Sabe, Caipora, eu sempre desejei correr rápido – prosseguiu Curupira em sua filosofia de fim de tarde. Desde quando adolescente, quando primeiro avistei uma onça-pintada diante dos meus olhos, passando rápida como um raio atrás de alguma caça que não pude identificar. Javalis, lobos-guarás, veados, todos aprecio e lhes espero o melhor, mas são as onças-pintadas quem sinceramente mexem com meus brios e me ocasionam este sonho ímpar.

– Pois é, Curupira, e eu sempre desejei escalar árvores – revelou Caipora. Isso vem desde quando encontrei a primeira preguiça de minha existência, tinha eu uns 15, 16 anos. Micos-leões-dourados, macacos-pregos, e mesmo as cobras-escaladeiras, todos eu reconheço o valor e lhes rogo boas preces, mas são as preguiças que de verdade me afloram esta ambição nada usual.

Houve então um silêncio de 10 segundos. Abruptamente, Curupira mudou o tom de voz:

– Caipora.

– Sim, Curupira?

– Já reparou que gastamos um tempão aqui falando de coisas que queríamos fazer e não fazemos?

– Sim, reparei. Mas qual o caso?

– E aí que com isso perdemos o pôr do sol. Agora ele já se pôs e só se porá de novo amanhã.

– Ficamos falando das coisas que não fazemos e deixamos de fazer aquilo que mais gostamos de fazer: contemplar o pôr do sol!

– Pois é.

– Diacho!

E voltaram às suas casas no meio da floresta.

Vazem fora!

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