Acabaram as coroas de flores em Santa Maria

28 28America/Sao_Paulo janeiro 28America/Sao_Paulo 2013

Para além da questão de ter sido um desastre anunciado, fruto de uma cultura de displicência quando o assunto é a segurança de multidões (Matheus Pichonelli e João Brant abordaram muito bem esse aspecto), a tragédia de Santa Maria acabou por me suscitar também pensamentos que vão um pouco adiante. Pensei sobre a comoção nacional – melhor percebida na conversa com nossos amigos e familiares e em nossas timelines de Facebook – e a noção de nacionalismo que permeia tudo isso.

Afinal, por que a morte de mais de 250 desconhecidos no sul do Brasil nos perturba tanto, mas a morte de mais de 300 outros desconhecidos no Paraguai e a de outros 175 desconhecidos na Argentina não?

Alguns podem acusar a intensa exposição midiática a qual somos submetidos em uma situação dessas, fato que intensifica o nosso senso de identidade com os envolvidos na tragédia, e assim faz com que a dor decorrente também seja sentida por nós. Mas e o fato de terem sido brasileiros (e não paraguaios nem argentinos nem chineses etc etc) ajuda no estabelecimento dessa empatia com as vítimas?

A resposta é um evidente “claro”. E é aí que decorre a perversidade da coisa – quando damos mais valor à vida de alguém apenas pelo fato deste/desta ter nascido dentro das mesmas fronteiras que nós.

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Peter Floresta morreu; nasce Bóris Beija-Flor

2 02America/Sao_Paulo janeiro 02America/Sao_Paulo 2013

Há muito tempo nas águas da Guanabara nascia aquele que revolucionaria o jeito de se fazer as coisas. Tinha ele o nome de Peter Floresta.

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Peter Floresta ficou famoso por ser o conhecedor dos sete mares, o almirante das montanhas, alfabetizado em vários idiomas e iniciado em diversas técnicas da vida. Cantava mantras aos reinos de Ogum, e formou-se, pouco após completar a maioridade, nas artes do candomblé mais requintado. Para isso estudara bastante, já que a práxis cotidiana ocidental a ele lhe era penosa e sufocante – mais do que isso, a práxis cotidiana ocidental a ele lhe era também penosa e sufocante.

Seus pais, baianos de Minas Gerais, o batizaram desta forma não por acaso. “Peter” (leia-se ‘péter’ e não ‘píter’) advinha de um lendário cortador de lenha que habitara as Terras Médias no passado. O casal admirava o desmatamento em um tempo em que as florestas eram pragas e Código Florestal inexistia nem se era necessário. Já “Floresta” vinha de outra admiração dúbia pelo verde e a flora que os cercavam – se por um lado admiravam o desmatamento, personalizado na figura do lenhador, por outro veneravam a sua antítese. Era um verdadeiro paradoxo, e não por acaso que Peter Floresta acabou vivendo uma vida paradoxal.   

Durante a maturidade, viajou pelo mundo e conversou com muitas pessoas. Engajou-se na luta contra o aquecimento global, mas logo se alistou nas brigadas populares de Londres. Quis ler vários livros, fez até promessa de que leria ao menos duas bibliotecas, mas ao fim não teve tempo para cumprir o combinado; acabou morrendo tendo lido apenas uma obra. Lera ‘O Lobo da Fronteira’, de Hermano Vesse. Livro este que o influenciou em seu percurso terrestre.

“Peter Floresta sem dúvida se enxergava como um lobo em determinados momentos. Posso fazer essa afirmação por seus constantes uivos que praticava durante a noite, ao mesmo tempo em que alisava os caninos e mirava a lua. Era mesmo peculiar. Achava-se um lobo, mas passado pouco tempo voltava à realidade e logo se via novamente como o proletário que era”, escreveu em seu obituário seu companheiro de fanfarra Jorge Ferroada.

Na noite da sua morte, um sinal. Júpiter ladeava a lua, uma Lua Cheia, fenômeno que há 50 anos não ocorria, exatamente a idade de Peter Floresta. Veio então o mau súbito, mas que de certa forma já era prenunciado pelo vício consistente em tabaco e nas flores de Jah. Não houve porém tristeza. Muitas pessoas já haviam morrido e a comunidade já havia se habituado às perdas humanas. Após uma procissão na sua cidade natal, o corpo de Peter foi jogado nas cataratas de Piracicaba. “Devolva à terra o que veio da terra”, dizia seu testamento, publicado em seu blog.

 

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Tão cedo o mundo ficava órfão de Peter Floresta, outro ser surgia à luz. Tinha ele o nome de Bóris Beija-Flor. No momento tem tenra idade, olhos claros e um choro renitente. Não se sabe bem quem é, nem se tem notícias de premonições a seu respeito, com exceção de uma declaração, feita pelo mesmo Jorge Ferroada: “Bóris Beija-Flor chegou para ocupar o lugar de Peter Floresta como o encantador de serpentes que um dia salpicou as planícies dessas Terras Médias.”