São Januário e a boate Kiss

4 04America/Sao_Paulo fevereiro 04America/Sao_Paulo 2013

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Os fechamentos de boates, as blitze de fiscalizações, pós-Santa Maria, me fazem lembrar de São Januário em dezembro de 2000. Era o jogo final da Copa João Havelange (ê nomezinho sem vergonha), um Vasco x São Caetano em um estádio abarrotado, apinhado de gente. Romário já havia saído por contusão quando os alambrados não resistiram à superlotação e cederam. O jogo é interrompido, dezenas de feridos adentram o campo, pessoas carregadas, bombeiros, Eurico Miranda no gramado, quer que o jogo continue. A Globo cobre o evento, um clima de tragédia perpassa a narração. Há indefinição no ar, até que o governador fluminense Anthony Garotinho – aquele que fez greve de fome ahahahaha – entra ao vivo: “Não há condições de segurança. O jogo está cancelado”.

A notícia deixa Eurico Miranda puto, e a pergunta que assola todos é “quem fica campeão?” Mais tarde decidiu-se por um novo jogo no mês seguinte, em janeiro, ou seja, o campeonato de um ano decidido no seguinte (não era a primeira vez). O Vasco acabou campeão, mas não é disso que quero falar.

A boate Kiss me lembrou São Januário porque após o acidente com o último, causado pela negligência dos organizadores do jogo, e com a mídia centrando fogo na repercussão por dias a fio, o que se viu foi a mesma coisa que vemos agora: blitze de fiscalizações e fechamento de estádios.

Não sei por quanto tempo exatamente esse surto policialesco durou, mas é certo que ao menos por um período ir aos estádios de futebol no Brasil ficou mais seguro. Mas só por um período. Aos poucos a comoção pelo desastre de São Januário, felizmente sem vítimas fatais, foi desaparecendo, o noticiário foi se ocupando de outras coisas, o relaxamento voltando, e as normas de segurança relegadas a segundo plano.

No 5 a 0 que o São Paulo enfiou na Universidad de Chile no ano passado, no meu debute de Pacaembu, eu pude sentir na pele, literalmente, o que é superlotação. A maior aglomeração de pessoas por metro² possível, e qualquer faíscazinha de qualquer coisa acarretaria em uma avalanche humana naquele lugar conhecido como tobogã. Não sou muito de claustrofobia, mas naquele dia claustrófobo fui, ao menos até fugir pra um canto onde era possível respirar.

Trocando em miúdos: o furor fiscalizatório pós-São Januário não foi interiorizado no dia-a-dia das organizações das partidas de futebol como deveria, e os estádios voltaram (continuaram) a ser locais inseguros. Só a minha única experiência que relatei já serviria de amostragem para essa constatação.

Adivinho que o mesmo se passará agora com a segurança nas boates. Nas próximas semanas ou meses, nunca antes na história desse país as boates serão tão seguras, os bombeiros trabalharão tanto, os alvarás estarão em dia. Até que a comoção desapareça, até que o relaxamento venha. O cuidado com extintores, portas de segurança, espumas inflamáveis diminuirá, o esquema da criação de dificuldades para vender facilidades na emissão de alvarás voltará – texto certeiro do Sakamoto sobre isso aqui – e logo teremos novamente as condições para 200 pessoas morrerem em uma balada.

Bom, não que isso seja uma regra. Tragédias com clubes ingleses mudaram radicalmente a cultura de segurança no Reino Unido e para melhor. Não só novas leis e normas foram criadas para evitar que outras tragédias acontecessem, mas o mais importante foi o surgimento de uma nova práxis, que apenas consistiu no cumprimento dessas leis e normas.

Conhecendo bem o Brasil e os brasileiros, com toda a cultura do jeitinho e da corrupção, pergunto: será que recém-nascido vigor no cumprimento das normas de segurança em boates resistirá ao tempo?

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