O braço àquela hora já estava no rio

O braço àquela hora já estava no rio, o ciclista, no Hospital das Clínicas, e o motorista, estudante de psicologia, embriagado, 21 anos, quatro vodkas na comanda e 96 reais gastos em uma balada na zona oeste horas mais cedo, na delegacia.

Eram onze da manhã de um domingo enquanto me encaminhava para o metrô Brigadeiro. Reparei nos homens da CET orientando o trânsito ali na Paulista, em um lugar inusitado, nem cruzamento era. Ainda com um olhar meio turvo, fruto de uma noite de sono de menos de 5 horas após também uma noite de embriaguez, demorei a ligar os pontos. Mas aí os liguei tão cedo vi o objeto cercado por faixas listradas presas a cones de trânsito: o objeto era uma bicicleta amassada, sem roda nem guidão, amassada, moída, parecia atropelada por um trator.

Fora um Honda Fit. Prata, da mesma cor da bicicleta, que aquela altura nem mais bicicleta era senão só uma ferragem. Imediatamente me veio um sentimento de calafrio; calafrio por me dar conta que poderia ter sido eu, que me aventuro vez em quando a duas rodas pela mesma avenida palco do massacre.

– Morreu?, perguntei para o rapaz da CET.

– Não, mas perdeu o braço.

“Não, mas perdeu o braço.” Poderia ter sido eu. Poderia ter sido o Gabriel, até liguei pra ele mais tarde inventando um assunto qualquer só pra certificar que ele não estava em um hospital (a ferragem lembrava a bicicleta dele). Mas poderia ter sido eu. Pode ser eu, um dia, quem sabe (pô, mas andar de bike é maneiro demais, não quero nem pensar em parar, bosta).

– O motorista parece que vinha atropelando os cones, emendou o rapaz da CET.

Mais um bêbado, filha da puta, um inconsequente que gosta dessa putaria de acelerar com o carro, pensei. Àquela hora, eu sequer sabia do braço arremessado ao rio, esse gesto que fez da história algo macabro – coisa de alguém totalmente desorientado, é verdade, afinal, não se é todo dia que um braço decepado vai parar no seu colo.

A tragédia ocorrida às 5h50 do último domingo – que por pouco não testemunhei, já que passei pelo local às 5h30 – só vem a confirmar algumas de minhas teses sobre andar bicicleta em São Paulo. Que são:

1) É muito melhor andar em vias rápidas com trânsito pesado, apesar de ter que disputar espaço com ônibus de massa 100 vezes maior que a sua, do que à noite com o trânsito livre. A princípio parece o contrário, mas só andando nessas situações pra perceber que é melhor costurar o trânsito, cujo maior perigo passa a ser então as motos vindo à toda pelos chamados corredores que se formam entre um veículo e outro, do que sentir o friozinho desagradável na orelha a cada carro que passa a 80km/h ao seu lado.

2) Jamais ande de bicicleta de madrugada no final de semana. É quando os bêbados metidos a Schumacher estão ao volante.

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