Um delírio jornalístico

Ainda não a li a reportagem, mas a capa já diz muito.

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No afã de sair-se com um furo jornalístico, a revista Época distorce a realidade e confunde seus leitores. Tudo porque busca retratar os Black Blocs como uma espécie de Guerrilha do Araguaia, em que militantes são treinados em uma base clandestina e despesas organizacionais são arcadas por financiamento vindo do estrangeiro.

Texto da chamada de capa:

“Época testemunhou o treinamento de ativistas que promovem protestos violentos – e revela quem eles são, como se organizam e quem os financiam”

Trecho da reportagem disponível em seu site:

“Em um sítio no interior de São Paulo, pouco mais de 30 pessoas se reuniram, no fim de semana do Dia dos Finados, para organizar uma nova onda de protestos contra tudo e contra todos. O local se tornou um centro de treinamento para uma minoria que adotou o quebra-quebra como forma de manifestação política e ficou conhecida como Black Bloc . O repórter Leonel Rocha testemunhou as reuniões e relata na edição de ÉPOCA desta semana que, ao contrário do que afirmam órgãos de segurança federais e estaduais, eles não são manifestantes que aparecem nos protestos “do nada”, sem organização. Os Black Blocs têm método, objetivos, um programa de atuação e, segundo afirmaram, acesso a financiamento de entidades estrangeiras.”

Não duvido que a história relatada na reportagem seja verdade, que essas pessoas existam e que atuem dentro da tática Black Bloc. Mas a julgar pelo seu trecho inicial, e ainda pelo apelativo texto de chamada da capa, a impressão é que estamos diante de um grupo com comando centralizado, de natureza paramilitar, calcado na conspiração. Errado.

Para quem já acompanhou algumas manifestações com Black Blocs, e ainda teve contato com um mínimo de textos sérios a respeito, é impossível não enxergar traços de falácia nesse tipo de abordagem.

Mais que uma organização, o “Black Bloc” é uma marca que carrega consigo uma filosofia de ação durante manifestações – fundamentalmente, a do ataque ao patrimônio que simboliza o capitalismo. Não há centralização de comando, não há articulação rígida entre os vários black blocs que atuam em manifestações pelo país. O que verdadeiramente há são grupos de afinidade que se unem sob a marca, sob a filosofia, sob a estética da máscara negra. Todos elementos que servirão de norte durante atos de rua.

Pode soar estranho, mas sempre quando me pego refletindo sobre a natureza do Black Bloc meus pensamentos acabam recaindo sobre o modus operandi da Al Qaeda. Ao contrário do que gostam de dizer os meios de comunicação hegemônicos, trata-se de outra “““organização””” que  está mais para uma marca, uma filosofia, que é adotada por grupos jihadistas mundo afora, do que para uma organização estritamente hierarquizada, sob a chefia de um terrorista de barba espessa que manda e desmanda na cadeia de comando. Em ambas as organizações, é possível notar características do fenômeno de atuação em rede, algo bastante contemporâneo, e justamente por isso não muito fácil de compreender, ao menos à primeira vista.

Mas voltando à capa da Época. Não consigo ver nela outra coisa que não mais um sintoma do apetite voraz que permeia as redações do país pelo conteúdo apelativo, sensacionalista. Um apetite que tem como objetivo primordial não o esforço pelo retrato fiel da realidade, não o respeito aos princípios elementares do bom jornalismo – mas sim o maior número possível de compartilhamentos no Facebook, a ampla repercussão, que acaba por agregar valor à mercadoria, no caso, à revista.

Pois esse é um dos efeitos da economia de mercado no jornalismo.

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