Casa

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Sair de viagem, respirar ares diferentes, agraciar os olhos com novas paisagens é sempre muito bom e necessário para manter o estado de espírito nos trilhos.  Poucos nutrem dúvidas quanto a esta constatação.

O mesmo não se pode dizer, porém, do retorno após um período de exílio.

Para muitos, o fim de uma viagem significa a volta a uma fastidiosa rotina de trabalho, este que tanto nos massacra e tolhe a vida diariamente. Já o sair a viagem é o oposto, é o sinônimo de liberdade, é a nossa carta de alforria do mundo laboral.

Mas para aqueles que concordam que a felicidade está nas pequenas coisas, o reencontro com aquilo que convencionamos a chamar de lar também pode ser fonte de um súbito e delicioso prazer, ainda que de curta duração, que vai se diluindo à medida que a mesmice do cotidiano começa a nos devorar, pouco a pouco, sorrateiramente.

De fato, como passaram a pregar alguns pensadores de uns tempos pra cá, o verdadeiro significado de uma coisa está na forma como ela se relaciona com as demais. A ideia de algo possuidor de uma essência pura e bem delineada, que se encerra em si mesma, não passa mesmo de uma ilusão, uma falsa impressão alardeada pelos seres humanos (apesar de muitas vezes gostarmos de crer o contrário, talvez pelo nosso apego irrefreável pela superstição).

Peguemos nossa cama, aquela mesma do edredom amarrotado e do lençol de elástico que insiste em se desprender a cada cinco minutos.

Após dias dormindo em um colchonete de meio centímetro ou em uma casa com 35 pessoas espalhadas por quartos e corredores, não é difícil sentir-se em um recanto dos deuses durante a primeira esticada no colchão que de segunda a segunda costuma acolher nosso corpo.

E não é só a nossa cama que passa a ser vista pelas lentes do alívio. Há ainda a tranquilidade do sofá da sala, o banheiro como se não houvesse amanhã, a penumbra das persianas do quarto, a falta de pressa com a cozinha, com as panelas, com a escolha dos molhos.

Em suma, tudo aquilo que um dia foi rotina ganha status também de uma certa liberdade, de uma carta de alforria do mundo da vida desregrada. Nossa casa, em tese um lugar para nos proteger das intempéries da natureza, se torna então um lugar único, celestial, onde quase tudo brilha e fonte mágica de pequenos prazeres.

E mesmo que miúdos, efêmeros, pequenos, ainda assim são prazeres, que só quem volta para casa sabe o que são.

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