Alguma coisa acontece no meu coração

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Distraído inveterado que sou, apenas outro dia fui prestar atenção como deveria na letra de Sampa, uma das principais contribuições de Caetano Veloso à humanidade. Imbuída da mais fina poética, a canção narra a dificuldade dos primeiros períodos de um imigrante recém-chegado a São Paulo, que se vê dividido entre os vícios e virtudes da metrópole, mas que ao fim acaba se adaptando completamente a ela. “E os novos baianos passeiam na tua garoa / E os novos baianos te podem curtir numa boa”, cravam os dois derradeiros versos.

Sampa, neste sentido, é uma música projetada para tocar os corações e mentes dos forasteiros, aqueles que deixaram para trás cidades, roças e vilarejos, e foram respirar “a feia fumaça que sobe apagando as estrelas”. Não à toa que tão cedo prestei atenção como deveria na letra – outro dia – já passei a sentir na canção uma das minhas várias identidades (eu, nascido e crescido em um município do interior paulista, hoje residente da capital).

Mas diferente do que preconiza a composição de Caetano, nunca precisei superar grandes obstáculos pessoais para me adaptar a São Paulo. Razões para isso são várias, entre elas, o fato de que minha migração foi voluntária, de eu morar na região central, de não ter de vivenciar seus problemas crônicos (trânsito, enchentes, violência), nem ter medo de multidão ou de concreto (estas duas, razões de suma importância).

Se por um lado o início me foi fácil, sem grandes sustos, por outro, os três anos de vida paulistana me proporcionaram algo que até hoje música nenhuma vi descrever. Tratou-se do sumiço de certo encanto que sempre me envolvia nas vezes que por aqui punha os pés a passeio, prática que se tornou bastante comum a partir de certa idade. Eram dias de apenas prazeres: cinemas, mostras, parques, Galeria do Rock, Avenida Paulista. Sofrimento mesmo só com as dores nas plantas dos pés e na hora de pegar o ônibus de volta, deixando pra trás toda uma utopia cultural ao passo que retornava à mediocridade da cidadezinha natal.

Aprendi, assim, que morar é diferente de passear. Que a rotina da vida de trabalho acinzenta as coisas. De forma que a associação que fazia entre São Paulo e o deslumbre foi pouco a pouco desaparecendo. Sigo gostando da cidade, não me vejo morando em outra, só não há mais o fascínio que um dia existiu. O que é uma grande pena.

Na verdade, agora, de maneira espantosa, tem acontecido justamente ao contrário. Sempre do meu retorno à minha cidade natal é lá agora que reside o fascínio. Seja pelo passeio de bicicleta, a baixa densidade demográfica, o silêncio, o Horto Florestal, a família, o passeio com a cachorra, a possibilidade de se ver o horizonte.

De forma que antes o que era mediocridade, hoje, incrivelmente, é encantamento. Até quem sabe o dia que eu lá voltar a morar – se um dia eu voltar.

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