O gol e a inconsequência

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Já eram 14 anos indo a estádios, mas não 14 anos ininterruptos, uma vez que em dois desses 14 anos havia abdicado de uma de suas atividades de lazer prediletas (ou será que se tratava de um “culto”, ou, ainda, uma “sessão terapêutica”?) em razão de uma gestão corrupta e incompetente, capitaneada por uma presidenta cujo período de mandato coincidira exatamente com esse seu tempo de abstinência, exatos dois anos, e que, incrivelmente, o tolhera toda a gana, a vontade, um pouco também da paixão por assistir in loco ao seu clube em ação.

Eram 20 minutos do segundo tempo e o relógio marcava 11 e meia da noite. Preocupava-o menos o placar, um dois a zero fácil e confortável, que a logística que seria necessária empreender para retornar ao seu lar caso seu plano A desse errado.

O plano A era retornar de metrô, simples assim. A questão que o amealhava os pensamentos era justamente a dúvida a respeito do tempo hábil existente para se alcançar o metrô, já que, lembremos, eram 20 do segundo tempo, com o relógio marcando 11 e meia da noite, e o metrô fechando dali a pouco menos de uma hora – à meia-noite e dezenove, segundo lhe disseram.

Restando aí ao menos 28 minutos de bola rolando, mais o processo de saída do estádio, e ainda o translado rumo à estação, o risco de seu plano A cair por terra era sério. A medida mais prudente, de longe, seria deixar o recinto com pelo menos 10 minutos antes do apito final, pois aí sim, na soma dos prazos, o tempo hábil para se alcançar o metrô sobraria.

Ocorre que em 14 anos indo a estádios – ainda que em dois desses 14 somente vira futebol pela TV – nunca, jamais deixara qualquer partida antes do derradeiro gesto do árbitro, aquele de levantar as mãos para o alto, para posteriormente apontá-las ao meio-campo, ao mesmo tempo em que assopra o apito. Tinha orgulho por esse hábito, enxergava-se detentor de grande proeza, esta de quedar-se sempre até o fim das pelejas, fazendo valer cada centavo do ingresso comprado, ao passo que nutria desprezo proporcional por aqueles que abandonavam o recinto antes da hora, como se partidas de futebol fossem descartáveis e passíveis de tamanha blasfêmia.

Só o fato de considerar essa herética hipótese por milésimos de segundo já lhe causou um mal-estar grande o suficiente para sequer pensar duas vezes: ficaria até o fim, aconteça o que acontecer. Ajudou-o ainda certa frase que uma vez ouviu, atribuída a um escritor, a de que no fim tudo dá certo, se não o deu, é porque não se chegou ao fim.

Pois até o fim ficou – não sem sentir certa agonia, é preciso dizer, sobretudo quando notou que parte considerável dos presentes fazia justamente aquilo que minutos antes havia ponderado, mas rechaçado com violência logo em seguida.

Aquilo o enraiveceu sobremaneira, mas desta vez a raiva não se dava por ver no gesto da multidão um ato de blasfêmia, cometido por meio-torcedores, e sim porque aquela evacuação antes da hora fazia crescer-lhe a sensação de que seu plano de retorno ao lar, lembremos, o retorno de metrô, poderia não se concretizar – e não havia plano B.

Mas seu orgulho era grande demais para quebrar uma marca que já durava 14 anos (descontados os dois que fora obrigado a se ausentar).

Ao fim e ao cabo, como já dissemos anteriormente, ficou, o que lhe permitiu ver os dois a zero tornarem-se três, após um pênalti convertido nos acréscimos, visto somente pelos bravos e verdadeiros torcedores, pensou.

Nunca comemorara tanto um terceiro gol de um três a zero de um jogo tão fácil.

Por trás da sublime euforia, jazia não mais o deleite pelo bem-sucedido placar, como se convém, mas sim a celebração do ato de inconsequência em nome de algo intangível e irracional, uma simples marca por assim dizer.

E era só mesmo o que lhe restava, isto de celebrar a inconsequência. Pois naquele dia não iria dormir em meio a lençóis, sequer voltaria para casa. Naquele dia, que já era um novo dia, pois já passava da meia-noite, rumaria ao trabalho inebriado pelo orgulho daqueles que com todos e tudo podem, ainda que vestido com as roupas do dia anterior.

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