O roubo que o curou

smartphone

Ele e seu smartphone eram unha e carne, ou bem mais do que isso, ainda que o aparelho não estivesse preso a seu corpo como sói com as unhas, apesar de que para um alienígena que acabasse de chegar a Terra e o observasse à média distância por uma boa dose de tempo é possível que achasse se tratar um a extensão do outro, assim como nossos membros o são em relação ao tronco.

Os motivos para isso vicejavam. Mal acordava, ainda na cama, checava os e-mails; na cozinha, enquanto uma mão segurava o copo de leite, a outra portava o aparelho; mesmo malabarismo feito no banheiro, sendo que neste, ao invés do copo, era a escova de dentes que cumpria o papel de distraí-lo da leitura do seu feed de notícias.

Não fora sempre assim, é bom dizer. O costume que lhe afetava o comportamento surgira paulatinamente, a conta-gotas, e por isso mesmo, imperceptível até mesmo para ele, o portador da disfunção.

Começara com um presente da mãe, que no intento de agradar-lhe, regalou-lhe com um smartphone dito “de entrada”, um ano antes, quando do dia de Natal. Mal sabia sua progenitora, porém, que, naquele momento, aquilo que fora pensado para ser um gesto de candura e boa fé traria consigo os germes de um vírus que logo se alastraria completamente pelo filho, contaminando sua rotina e hábitos, avariando suas relações sociais, criando, enfim, uma dependência que depois de um tempo até ele próprio gostaria de se livrar, a saber, o constante ímpeto de checar o micro ecrã quase que minuto-a-minuto, em busca de informação, interação e entretenimento, não necessariamente nessa ordem.

O pior é que quem o conhecesse coisa de uns dois anos antes jamais poderia imaginar que o garoto seria capaz de adotar hábito tão peculiar. Já em uma época em que as criações de Steve Jobs eram hypes e grassavam entre as mãos de seus pares de camada social, nunca se mostrou tocado pelas propagandas e promessas de um novo estilo de vida à aquisição de um iPhone ou produto que o valha. Muito pelo contrário, aliás.

Sempre fora das ruas, do pé preto que anda descalço pelo asfalto, da corrida, dos jogos de agilidade, do suor tão avesso ao sedentarismo e, por consequência, ainda que seja uma ilação não necessariamente verdadeira, à cultura digital. Enquanto os seus se regozijavam no Playstation, ele andava a trepar em árvores e a pular muros. Isso fora na infância, na juventude, como a que vivenciava, manteve esse fatídico traço de personalidade, sempre a preferir gastar seus caraminguás em outras coisas que não em celulares de última geração.

Em suma, era um rapaz assumidamente analógico, e por este predicado até era conhecido por alguns.

Ocorre que pessoas mudam, ainda que muitas, é provável que a maioria, continuem sendo as mesmas da tenra infância ao leito de morte, mesmo que diante de n possibilidades de se mudar para melhor. Em seu caso, mudara, mas, como já é possível de verificar, não para melhor.

De garoto analógico, tornou-se um dependente digital apenas poucas semanas após o presente materno, em um processo, como já dito, paulatino e invisível. No início, justificava-se o smartphone à mesa de jantar como sendo obra do fascínio pelo novo, e até aí tudo bem, já que o fascínio tende a ser algo passageiro, o que não foi o caso deste, que se metamorfoseou em algo vil, um vício por assim dizer, à medida que as críticas daqueles que o cercavam só faziam crescer, com acusações de que abandonara o convívio e o diálogo familiar em prol do pescoço inclinado, as mãos defronte ao tórax, juntas, com os braços estendidos e a segurar, quase que num gesto de adoração, o aparelho que lhe permitia viver uma realidade virtual, e, no caso, paralela.

Tais críticas, no entanto, não o incomodavam de início, e só veio a sentir algum mal-estar relacionado à questão em um certo dia, quando, no metrô, durante o trajeto da escola à casa, viu-se com seu smartphone com a bateria totalmente descarregada, fruto de um descuido próprio e imperdoável. Desta constatação até o ponto final de sua viagem, onde finalmente teria uma tomada ao alcance, restariam 15 minutos, durante os quais não teria aquilo que sempre usara para drenar suas atenções.

E foram os 15 minutos mais angustiantes, torturantes e estarrecedores de sua vida. Estava obrigado por todo aquele interminável período de tempo a fitar o nada, a ocupar a mente com algo parecido com o pensamento. De forma que, logo no dia seguinte, resolvera passar a carregar uma bateria reserva na mochila, com o intuito único de evitar a tragédia que apenas havia experimentado. 

Aquele episódio, no entanto, acabou servindo-lhe para instalar na mente, pela primeira vez desde o fatídico Natal em que fora presenteado pela sua mãe, algum rastro de preocupação, alguma sombra de desconfiança de que a sua relação com o seu tão bem-quisto smartphone, talvez, quem sabe, como já alertara seus próximos, fosse algo não muito saudável para si.

Mal sabia o garoto, a quem já podemos em breve chamar de rapaz, em vista do tempo que passara depois do episódio do metrô, que aquilo que classificou como tragédia seria visto como um pequeno e mero contratempo, como de fato o é para a maioria dos seres humanos, se comparado com o que lhe viria acontecer.

Era madrugada, e subia, sozinho e alcoolizado, uma rua semi-movimentada, após ter deixado uma festa com amigos, que às vezes lhe apetecia interagir com objetos animados, apesar da aguda dependência digital. Sozinho, alcoolizado, na madrugada – portanto vulnerável, pensaram, à espreita, dois indivíduos, não de forma racional, é claro, mas de um jeito instintivo, não-verbal.

É importante citar que tivera todas as chances de prevenir aquele crime que se avizinhava, caso houvesse optado por usar o dinheiro que carregava para retornar ao lar de táxi. Mas não optou, e os assaltantes levaram-lhe não só a carteira, mas também seu objeto de veneração maior.

Desta vez não seriam mais 15 minutos o período a lhe infligir penúria. A abstinência duraria sabe-se lá quanto, já que sua mãe, agora agindo com a prudência que lhe faltara tempos antes, lhe substituiria o aparelho roubado não com um exemplar idêntico, sequer com um parecido, mas sim por um outro analógico, sem opção de conexão de internet, apenas para fazer e receber ligações, além de servir de alarme.

Nos três primeiros dias após o crime, não pensara outra coisa que não no suicídio (até cogitou roubar, mas suas barreiras morais lhe eram pesadas em demasia). No quarto, viu que ainda estava vivo, e até se estranhou quando se pegou pensando em outra coisa que não no smartphone.

No sétimo já se permitira voltar a ter sonhos, no décimo já andava de metrô incólume, e no décimo-quinto se viu curado.

Azar das redes e dos sites notícias, que viu seus medidores de tráfego acusar uma ligeira queda.

Mas sorte de sua família, de seus amigos, e de seu cachorro, León, que passou, de um dia para o outro, a ser levado para passear diariamente, preso a coleira e puxado a duas mãos, por alguém que até outro dia estaria naquele mesmo horário, o cair do dia, e o surgir da noite, a retuitar links e stalkear gente pela internet afora.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: