Sobre a treta na Ucrânia

5 05America/Sao_Paulo maio 05America/Sao_Paulo 2014

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Na treta da Ucrânia, onde uma disputa inter-imperalista sinistra, entre Rússia e Otan, se desenrola sem previsão para acabar, é fato que Putin perdeu capital político, mas também é fato que ele ganhou algo. Difícil é calcular o saldo.

Putin perdeu quando seu presidente-marionete, Viktor Yanukovitch, foi enxotado da Ucrânia por uma rebelião popular, fazendo com que a influência russa no país evaporasse. Em seguida, porém, em um lance de mestre digno da melhor linhagem de enxadristas russos, logrou anexar uma porção do território ucraniano, a Crimeia, se valendo para isso de milicianos infiltrados, ao passo que negava, cinicamente, qualquer relação com eles. Somado à aplicação de um referendo em uma região de maioria étnica russa, criou-se então um fato praticamente consumado, enfraquecendo qualquer ímpeto de reação. Nada mais genial.

Agora os mesmos milicianos tomam prédios públicos de outras cidades do leste da Ucrânia, atraindo a repressão militar do governo central, o que deve gerar o pretexto que a Rússia quer para a incursão de 40.000 de seus soldados que coçam o dedo enquanto aguardam na fronteira.

Se a incursão realmente ocorrer, e se a Otan não intervier, o que é improvável, uma vez que aí teríamos a tão esperada guerra atômica, a Rússia deve então ganhar novos territórios. Se não oficialmente, como o foi com a anexação da Crimeia, ao menos deve conseguir impor a federalização da Ucrânia, o que garantiria, segundo o raciocínio do governo russo, uma influência sobre o leste ucraniano.

Trocando em miúdos: a Rússia perdeu a influência sobre um país inteiro, mas tomou-lhe parte do território e deve manter a influência sobre outra parte. Além disso, demonstrou força e capacidade de iniciativa invejável para o mundo, enquanto vê os níveis de aprovação de seu presidente subir às alturas.

E em meio a tudo isso fico pensando sobre aquela teoria que diz que a bomba atômica impede guerras. Acho que esse é exatamente o caso, pois duvido que Estados Unidos, França e Reino Unido deixariam Putin sambar na Europa caso reagir contra a Rússia não significasse o fim do mundo.


Alguma coisa acontece no meu coração

13 13America/Sao_Paulo abril 13America/Sao_Paulo 2014

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Distraído inveterado que sou, apenas outro dia fui prestar atenção como deveria na letra de Sampa, uma das principais contribuições de Caetano Veloso à humanidade. Imbuída da mais fina poética, a canção narra a dificuldade dos primeiros períodos de um imigrante recém-chegado a São Paulo, que se vê dividido entre os vícios e virtudes da metrópole, mas que ao fim acaba se adaptando completamente a ela. “E os novos baianos passeiam na tua garoa / E os novos baianos te podem curtir numa boa”, cravam os dois derradeiros versos.

Sampa, neste sentido, é uma música projetada para tocar os corações e mentes dos forasteiros, aqueles que deixaram para trás cidades, roças e vilarejos, e foram respirar “a feia fumaça que sobe apagando as estrelas”. Não à toa que tão cedo prestei atenção como deveria na letra – outro dia – já passei a sentir na canção uma das minhas várias identidades (eu, nascido e crescido em um município do interior paulista, hoje residente da capital).

Mas diferente do que preconiza a composição de Caetano, nunca precisei superar grandes obstáculos pessoais para me adaptar a São Paulo. Razões para isso são várias, entre elas, o fato de que minha migração foi voluntária, de eu morar na região central, de não ter de vivenciar seus problemas crônicos (trânsito, enchentes, violência), nem ter medo de multidão ou de concreto (estas duas, razões de suma importância).

Se por um lado o início me foi fácil, sem grandes sustos, por outro, os três anos de vida paulistana me proporcionaram algo que até hoje música nenhuma vi descrever. Tratou-se do sumiço de certo encanto que sempre me envolvia nas vezes que por aqui punha os pés a passeio, prática que se tornou bastante comum a partir de certa idade. Eram dias de apenas prazeres: cinemas, mostras, parques, Galeria do Rock, Avenida Paulista. Sofrimento mesmo só com as dores nas plantas dos pés e na hora de pegar o ônibus de volta, deixando pra trás toda uma utopia cultural ao passo que retornava à mediocridade da cidadezinha natal.

Aprendi, assim, que morar é diferente de passear. Que a rotina da vida de trabalho acinzenta as coisas. De forma que a associação que fazia entre São Paulo e o deslumbre foi pouco a pouco desaparecendo. Sigo gostando da cidade, não me vejo morando em outra, só não há mais o fascínio que um dia existiu. O que é uma grande pena.

Na verdade, agora, de maneira espantosa, tem acontecido justamente ao contrário. Sempre do meu retorno à minha cidade natal é lá agora que reside o fascínio. Seja pelo passeio de bicicleta, a baixa densidade demográfica, o silêncio, o Horto Florestal, a família, o passeio com a cachorra, a possibilidade de se ver o horizonte.

De forma que antes o que era mediocridade, hoje, incrivelmente, é encantamento. Até quem sabe o dia que eu lá voltar a morar – se um dia eu voltar.


Ode à rebeldia

26 26America/Sao_Paulo março 26America/Sao_Paulo 2014

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E quando aqueles que deveriam combater injustiças se tornam algozes? Cometendo também injustiças, dilacerando opositores, calando vozes dissonantes, tipo polícia política. Atam nossas mãos, amordaçam nossas bocas, acorrentam nossos pés, sempre sob o manto da discrição, do gesto dissimulado, do jeitinho, com um sorrisinho no rosto e se bobear até com um tapinha no ombro.

E quando aqueles que deveriam combater injustiças te abraçam em um dia e te apunhalam no outro? E o fazem pelas costas, sem direito a defesa, com uma lâmina fina, discreta? Te penduram de ponta cabeça, te deixam sangrar, pouco a pouco, vagarosamente, até que você não aguente mais, para que assim você, você mesmo, o apunhalado, o injustiçado pelos justiceiros, peça arrego, suplique pelo fim, pelo sumiço, pelo adeus.

E quando aqueles que se dizem porta-vozes dos oprimidos, que prometem e que deveriam combater injustiças, não mais combatem injustiças, mas apenas fingem combater injustiças? Aqueles mesmos que no início as combatiam, mas que com o tempo, com a velhice do espírito, com o fim da utopia da juventude e com a degeneração daquilo que lhes era referência, desistem de combater injustiças para serem eles mesmos, no meio do seu rebanho, do seu proletariado, seus disseminadores?! E o pior: dizendo combater injustiças!

Que faremos?! Que fazemos?!

Não há resposta fácil, ainda que só exista uma: rebelarmo-nos.

Sim, rebelarmo-nos. Em nome da justiça e de todas e todos que sofreram e que sofrem nas mãos dos neoalgozes, estes que em uma mão seguram flores de plástico e na outra o chicote que estrala.

Rebelarmo-nos para pôr um basta a tanta arbitrariedade naquele que deveria ser o Palácio da Moral, porque, afinal, gente não é gado, tampouco nós, que também somos gente, e que conhecemos o caminho da rebelião, suas nuances e contratempos, suas armadilhas e oportunidades.

E que almejamos, ao nos rebelarmos, não o sangue da vingança nem as dores do conflito, mas o oásis do que é certo. A guerra para chegar à paz, a insurreição em busca da virtude, a revolta por uma vida harmoniosa.

Ardência e luta se misturam. Cansamos, choramos, sentimos medo – mas seguimos em frente. Sempre firmes e cientes, e amparados em um companheirismo inabalável, indestrutível, reconfortante.

A maioria jamais entenderá, mas os que se rebelam só o fazem porque para eles não há alternativa a não ser se rebelar. Trata-se de uma convicção, muitas vezes incurável e que provavelmente carregaremos para sempre. Uma convicção que diz que em meio a tanta, mas a tanta injustiça, rebelar-se sempre valerá a pena. Sempre.

 


god damn

22 22America/Sao_Paulo março 22America/Sao_Paulo 2014

A pressão do horário é tenebrosa demais para alguém que deseja fazer tantas, mas tantas coisas. Desde os compromissos inadiáveis, passando por tarefas domésticas costumeiras, até programas extraordinários, daqueles que dão sabor à vida, que geram comentários por tempos em mesas de bar, em conversas de metrô na saída do trabalho.

Esse é o problema de se gostar de tanto, de se expor a tanto. Se por um lado é um dilema moderno, decorrente da dialética da expansão das forças produtivas, por outro é uma realidade que nos agride, que abala nossa ideia de plenitude d’alma– e é disso que resultam as inquietações, dessas que nos põem a escrever.

Eis então que surge uma mudança de postura. Um gesto de sobrevivência frente à ameaça dos desejos não preenchidos. Afinal, sabe-se há muito, sobretudo os vinteanistas mais experientes, que os que se imbuem dessa angústia não podem muito viver mais. É nesse despertar que passamos a aceitar nossa reles e impotente condição humana. Em um processo lento, demorado, às vezes doloroso, mas essencialmente libertador.

Uma pena que ainda não haja pastilhas para isso, menos ainda gotas medicinais para se misturar na água. Trata-se de algo que vem única e exclusivamente da consciência, esse emaranhado cognitivo que muito nos atraiçoa, mas que às vezes consegue, como que por um acaso do destino, resolver problemas que há muito tutelavam dramas existenciais.


Medo

17 17America/Sao_Paulo março 17America/Sao_Paulo 2014

O medo que Marcinho sentia por Renata era algo de outro mundo. Nem escalar até o galho mais alto da jabuticabeira, aonde só ele dos meninos da rua ia, lhe causava aflição maior. Não se tratava, no entanto, de um medo de punição, a causa-mor dos medos, como o filho que teme ser pego pela mãe burlando o castigo. Renata era da classe de Marcinho, muito menor, mirrada, e sem o menor dos dotes para punir quem quer que seja. Seus olhos verde-água, grandes, estridentes, mais sua franja derramada pela testa, uma reminiscência da infância, e sua pele alvíssima, quase transparente, combinados ainda com uma voz de personagem de desenho Disney, na realidade apontavam se tratar do mais inofensivo dos seres. O medo de Marcinho era outro; residia apenas na hipótese de encontro com a dita cuja. Pois era só estarem em um mesmo ambiente que o rapariga, de só 15 anos, já punha a contorcer-se com as borboletas que subitamente povoavam seu estômago. Vinha então o descontrole, a sudorese e o branco na mente. Renata dizia “oi” e Marcinho mal podia lembrar qual a resposta padrão para o enunciado.

Marcinho estava apaixonado.


Madrugada avançada

9 09America/Sao_Paulo março 09America/Sao_Paulo 2014

Barba Ensopada de Sangue
Da necessidade de escrever, ainda que com a madrugada avançada, que põe em cheque os planos pra se acordar cedo amanhã, brotam estas linhas. Necessidade esta que surgiu após uma maratona de Daniel Galera, com direito a um sprint final de 150 páginas de deixar qualquer peão extenuado. E que se digladia com outro ímpeto, um quase incontrolável, de ceder às várias tentações que a internet de forma malévola nos oferece, principalmente o tal do Facebook. Não obstante, resisto, firme e forte, preso a uma página semipreenchida de Word.

Quase uma dezena de linhas depois o sono já é um pouco mais pesado. O relógio também já andou e a vontade de terminar o texto cresce. Mas ainda está curto, é preciso escrever sobremaneira mais para que o amontoado de palavras em sequência mereça minimamente ser chamado com o anglófono nome de post.

3h38, terceiro parágrafo. A vontade de abandonar tudo, de postar qualquer merda, ganha contornos de uma força hercúlea. Começo, como se pode notar no período anterior, a usar adjetivos deslocados, meio eruditos, que chegam a soar pedantes. Acho que a hora é mesmo de terminar por aqui, postar o que já foi escrito, cumprir com o combinado mental e ir dormir.

Enquanto isso, minha cachorra anciã, 15 anos de idade, está estirada no mesmo colchão que eu. Um relógio tiquitaqueteia na estante. Ouço um galo cacarejar, mesmo ainda sendo noite. Agora todos já sabem que estou no interior, pois em São Paulo não se ouve cacarejos.

Dou a última revisada no texto. Acho que é hora. É, é hora.


Casa

5 05America/Sao_Paulo março 05America/Sao_Paulo 2014

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Sair de viagem, respirar ares diferentes, agraciar os olhos com novas paisagens é sempre muito bom e necessário para manter o estado de espírito nos trilhos.  Poucos nutrem dúvidas quanto a esta constatação.

O mesmo não se pode dizer, porém, do retorno após um período de exílio.

Para muitos, o fim de uma viagem significa a volta a uma fastidiosa rotina de trabalho, este que tanto nos massacra e tolhe a vida diariamente. Já o sair a viagem é o oposto, é o sinônimo de liberdade, é a nossa carta de alforria do mundo laboral.

Mas para aqueles que concordam que a felicidade está nas pequenas coisas, o reencontro com aquilo que convencionamos a chamar de lar também pode ser fonte de um súbito e delicioso prazer, ainda que de curta duração, que vai se diluindo à medida que a mesmice do cotidiano começa a nos devorar, pouco a pouco, sorrateiramente.

De fato, como passaram a pregar alguns pensadores de uns tempos pra cá, o verdadeiro significado de uma coisa está na forma como ela se relaciona com as demais. A ideia de algo possuidor de uma essência pura e bem delineada, que se encerra em si mesma, não passa mesmo de uma ilusão, uma falsa impressão alardeada pelos seres humanos (apesar de muitas vezes gostarmos de crer o contrário, talvez pelo nosso apego irrefreável pela superstição).

Peguemos nossa cama, aquela mesma do edredom amarrotado e do lençol de elástico que insiste em se desprender a cada cinco minutos.

Após dias dormindo em um colchonete de meio centímetro ou em uma casa com 35 pessoas espalhadas por quartos e corredores, não é difícil sentir-se em um recanto dos deuses durante a primeira esticada no colchão que de segunda a segunda costuma acolher nosso corpo.

E não é só a nossa cama que passa a ser vista pelas lentes do alívio. Há ainda a tranquilidade do sofá da sala, o banheiro como se não houvesse amanhã, a penumbra das persianas do quarto, a falta de pressa com a cozinha, com as panelas, com a escolha dos molhos.

Em suma, tudo aquilo que um dia foi rotina ganha status também de uma certa liberdade, de uma carta de alforria do mundo da vida desregrada. Nossa casa, em tese um lugar para nos proteger das intempéries da natureza, se torna então um lugar único, celestial, onde quase tudo brilha e fonte mágica de pequenos prazeres.

E mesmo que miúdos, efêmeros, pequenos, ainda assim são prazeres, que só quem volta para casa sabe o que são.