Ostracismo social

2 02America/Sao_Paulo junho 02America/Sao_Paulo 2014

Há um certo pensamento romântico, que não se restringe somente aos velhos, mas também aos jovens, que costuma enxergar uma essência desumanizadora na relação social mediada pela internet. Segundo essa lógica, a internet tende a isolar o indivíduo ao invés de integrá-lo socialmente, e a interação online, à distância, é uma espécie de falsa interação. A sagrada e verdadeira interação seria a presencial, em que tocamos as pessoas e sentimos seu cheiro.

Pois conto um caso que acontece comigo.

Portador de um smartphone datado de quase três anos, infelizmente acabei me tornando uma vítima da chamada obsolescência programada. A partir de um determinado momento, meu aparelho passou a não mais comportar aplicativos que agora já são largamente utilizados pelas demais pessoas. Ele simplesmente trava caso tento instalá-los. Um desses aplicativos é o Whatsapp.

A princípio, pouco me importaria não ter o Whatsapp, uma vez que ainda conto com a função de SMS, que basicamente realiza a mesma tarefa. O problema reside, no entanto, no fato de que mais e mais as pessoas estão se comunicando por mensagens tão somente pelo Whataspp, a ponto de quase nunca utilizarem o SMS.

Essas pessoas, quando por ventura veem alguém de forma surpreendente tentando comunicação pela maneira antiga, não raro respondem com uma pergunta: “Você não tem Whatsapp?”.

Pois é essa resposta que mais e mais tenho recebido nas tentativas de comunicação via SMS. Some-se a isso o testemunho, com os próprios olhos, de pessoas se comunicando por Whatsapp em mesas de bares e em seu local de trabalho, articulando encontros e programas com uma dinâmica sem precedentes, e lá bate a sensação que imagino que minha vó tenha toda vez que chega à sala e vê eu, meu irmão e minha mãe imersos em seus notebooks, tendo só minha cachorra olhando para ela: o ostracismo social.

É exatamente isto que estou sentindo, e com ele, a pressão por adquirir um smartphone novo, só para voltar a me sentir integrado novamente com meus pares.

Meu caso é uma prova de que a ausência de uma das faces da internet na vida de uma pessoa, ao contrário dos que os românticos dizem, tem uma capacidade bastante considerável de gerar uma forma de isolamento. Ainda que por meios tortos, mas tem.

Anúncios